julho/2011 Entrevista com Daniela Amorim, diretora artística do projeto_ENTRE por Priscila Fialho
Priscila Fialho - Como é ser responsável pela programação cultural de um espaço no Rio de Janeiro?

Daniela Amorim - No Projeto_ENTRE, que hoje ocupa o Sérgio Porto, eu e Joelson Gusson somos diretores artísticos e curadores de artes cênicas, e temos os curadores Thiago Vedova na música, Ducha nas artes visuais, e Daniele Avila no Observatório Constante, que é um programa mensal de debates. A nossa prática de programação parte de um conceito comum de ocupação artística, e então cada um responde de forma autônoma por sua área. Partindo dessa base comum de proposta curatorial, posso dizer que a reponsabilidade de programar um lugar como o Sérgio Porto é a de devolver à população da cidade um centro cultural extremamente potente, trabalhado na sua capacidade máxima, com uma programação ágil, coerente com o seu perfil de centro de artes contemporâneas, e acessível ao público e aos artistas em exercício hoje no Rio.

Desde o início, o nome do Projeto_ENTRE é literalmente um convite, fala do nosso foco em criar um espaço de criação artística na cidade baseado no cruzamento dos interesses dos artistas e do público de artes contemporâneas. O projeto nasceu do enorme ENTRE escrito no cartaz do Teatro Gláucio Gill, em 2008, dentro da Ocupação Orquestra Improviso. Esse cartaz tinha também uma seta que apontava para a porta do teatro, que é lateral e quase não se vê da rua; era uma espécie de placa de trânsito gigante na Barata Ribeiro que propunha incluir o espaço cultural na circulação diária da cidade. Essa proposta foi ampliada como conceito para o Sérgio Porto, e incorporada na nossa programação visual; continuamos a querer mesmo isso, o trânsito, o acesso, a presença, a cidade dentro.

Entre é também preposição, e o nosso ENTRE fala da vontade de juntar em um mesmo lugar várias linguagens - teatro, dança, música, artes visuais -, de criar um espaço de fricção entre elas, o que é uma ação coerente com as nossas práticas e interesses artísticos. O momento carioca é extremamente produtivo artisticamente, tem reverberado dentro e fora do país, e a possibilidade de responder a nossa geração como programadores nos moveu desde o início também. Ainda, foi muito importante para nós a criação, dentro da programação, de um espaço para a reflexão, de embate entre teoria e prática, que pense o cenário artístico na cidade em sentidos mais amplos - como na relação com a crítica de arte, no questionamento das propostas de políticas culturais, entre outros. Temos encontros mensais de debates que são, desde o início, parte essencial do nosso projeto, e tem um caráter questionador, e também formativo. Outra questão definidora da nossa prática de programação foi o fato de o Sérgio Porto ser um teatro público (como o Gláucio Gill). Essa condição faz mais fortes o compromisso com a grande rotatividade na agenda, para distribuir melhor as oportunidades de pauta, e a proposição de programar todos os dias possíveis, ocupando o espaço na sua capacidade máxima.

Priscila - Vocês já perceberam alguma transformação em relação ao movimento, presença do público e mídia desde a ocupação?

Daniela - Sim, de formas bem concretas.

O Sérgio Porto esteve fechado para reformas, e um incêndio aconteceu em 2007, e desde que reabriu, sofria de uma certa descontinuidade nas propostas de programação, e a consequente flutuação da frequência do público. O Chacal, com sua força e persistência, bravamente manteve funcionado o CEP 20000 mas, de resto, o espaço teve algumas boas temporadas, e outras, nem tanto.

Começamos a nossa ocupação em fevereiro de 2010 e, gradativamente, o público passou a falar sobre uma espécie de retomada, de volta do espaço a cena carioca. Ouvimos esse comentário também de muitos artistas que voltavam a se apresentar no Sérgio Porto depois de um longo tempo sem frequentar o espaço. O público começou realmente a aumentar, e o volume de propostas de projetos e pedidos de pauta também.

A escolha pelo recorte de programação era clara no projeto de ocupação, e propunha mesmo isso: trazer de volta ao espaço artistas potentes da cena contemporânea, em diversas linguagens, o que era a cara do espaço desde sua criação. Devolver o Sérgio Porto ao seu público, de certa forma foi isso que pretendemos e que estamos conseguindo fazer.

Tivemos a grande sorte de formar uma equipe apaixonada pelo espaço, pessoas que são também apoiadores do Sérgio Porto: funcionamos de fato como uma rede de parcerias que investem muita energia de trabalho no projeto para que ele aconteça dessa forma. O artista contextual Ducha, curador de artes visuais, e o produtor musical Thiago Vedova, que faz a programação musical, são muito atuantes e comprometidos com as novas cenas em suas áreas e, no Sérgio Porto, são responsáveis por uma circulação incrível de pessoas. A Daniele Avila tem feito um trabalho brilhante no Observatório Constante, o público dos debates tem aumentado muito, o último tinha gente sentada no chão. É extremamente importante também o trabalho dedicado da equipe de técnicos e funcionários do teatro e da administradora Angela Blazo, são eles os responsáveis pela organização e pela sustentação diária da grande circulação de shows, espetáculos, exposições, debates.

Hoje, uma pessoa que vai ao Sérgio Porto sabe que tipo de programação vai encontrar, e isso faz com que o público confie, apareça, volte. Em números colhidos na bilheteria, o espaço tem tido uma média excelente de frequência geral.

Quanto a resposta da imprensa, no www.entresergioporto.wordpress.com é possível ver parte das matérias que já saíram, é só clicar no clipping, temos tido uma resposta incrível dos cadernos de cultura. E a cada dia aumenta também o número de acessos do blog, o que também é um ótimo índice.

Priscila - Já é possível avaliar qual o tipo de público que frequenta o espaço?

Daniela - É possível dizer que, pelo histórico do espaço e pela sua localização, uma grande parte do público do Sérgio Porto é de jovens e adultos da zona sul da cidade, formado por pessoas interessadas em artes contemporâneas. Porém, nosso público não pode ser definido de forma muito fechada, acredito.

Uma das coisas que temos observado desde o início do projeto é que, contrariando alguns críticos que defendem que as artes contemporâneas pouco se comunicam com um público mais amplo, ficando fechadas a círculos com educação, gosto e poder aquisitivo específicos, aprendemos na prática que não é possível definir que tipo de público frequenta um espaço observando apenas o recorte de programação. No Sérgio Porto, o público sofre uma flutuação claramente observável de um trabalho apresentado para outro, e alguns outros fatores como o preço de ingresso e o alcance da divulgação são diretamente responsáveis por isso. Ainda que o preço máximo do ingresso em um teatro municipal seja R$30,00, nas promoções do Domingo A Um Real há um fluxo muito mais diversificado de frequentadores, por exemplo.

Estamos conquistando ainda, em eventos como a Batalha de MC's e o Mixtureba Enraizados, um público que vem de outras zonas da cidade, e de faixa etária mais jovem. Os shows de música em geral são grandes pontos de encontro, de mistura de grupos, e eles provocam uma reverberação incrível nas outras atividades.

Priscila - Como é feita a escolha da programação?

Daniela - Recebemos projetos de duas formas, basicamente: podem ser enviados a nós, e fazemos também convites diretos. De qualquer maneira, todos os pedidos de pauta com que trabalhamos são apresentados e protocolados na Secretaria Municipal de Cultura.

A escolha é sempre muito difícil, perdemos inúmeros bons projetos porque a procura pelo espaço é muito maior que a nossa possibilidade física de pauta e, ainda, há sempre o desafio de fechar as agendas.

A base de escolha de programação é o projeto ter ressonância com o perfil de curadoria, que é voltado para a produção contemporânea. Nosso impulso principal é sempre trazer para o espaço trabalhos potentes, que de alguma forma proponham um movimento de crítica, de questionamento, com propostas novas de linguagem.

Priscila - O que vocês esperam como resultado desse projeto?

Daniela - O amadurecimento do Projeto_ENTRE é já um resultado incrível para nós: depois de 2010 e parte de 2011 funcionando no Sérgio Porto, passamos hoje por um momento de transformação, e queremos ocupar outros espaços na cidade, produzir outros eventos. Estamos desenvolvendo programas de intercâmbio com festivais e teatros em Lisboa, Praga, Buenos Aires e Londres. Alguns deles deverão acontecer no ano de 2012, então pensamos em continuar existindo para além de nosso tempo no Sérgio Porto, em possibilidades e formatos ainda a definir.

Seria incrível, como uma forma de resultado - e de continuidade do nosso esforço de trabalho no espaço -, que a cena contemporânea se mantenha como foco de programação de forma perene, que isso seja mantido como proposta lá, e com investimentos maiores em termos de verbas públicas. O Rio vive um momento especial, e um centro cultural como o Sérgio Porto pode ter uma importância extrema, iniciativas bem trabalhadas e melhor incentivadas podem vir a realizar muito mais do que o que pudemos fazer nestes dois anos.

E tenho também um desejo bem ambicioso, que é o de que o Projeto_ENTRE seja lembrado como uma época boa do ECM Sérgio Porto, e de que muitas pessoas tenham visto coisas legais e importantes para elas na nossa programação. Esse desejo reflete a minha própria relação com o espaço, vi espetáculos inesquecíveis lá, fiz meus primeiros trabalhos naquele espaço cênico, foi um espaço muito querido e essencial na minha formação, na minha vida.
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