2008/2 O assalto às fronteiras de Daniel Galera. por Daniela Birman
"Cordilheira", de Daniel Galera.
Fotos cedidas por Renato Parada.
O novo romance de Daniel Galera trata de uma temática cara à literatura: ela mesma. “Cordilheira” (Companhia das Letras, 176 páginas) tem como protagonista Anita van der Goltz Vianna, jovem autora de um único e último livro que perdeu inteiramente o desejo de prosseguir escrevendo. Obcecada pela idéia de engravidar e abalada por uma série de acontecimentos em sua vida pessoal, Anita decide passar uma temporada em Buenos Aires. Sua “fuga”, porém, a levará ao encontro de personagens que buscam materializar justamente aquilo que não a interessa mais. Na capital argentina, ela se envolverá com um grupo de escritores determinados a ultrapassar os limites entre vida e obra, encarnando no chamado “mundo real” personagens fictícios.  Nesta entrevista, concedida por e-mail, Galera conversa sobre este que é o seu quarto título publicado e o primeiro lançamento da coleção Amores Expressos, série na qual autores brasileiros criam histórias de amor vividas em diversas cidades do mundo. O escritor nos conta ainda sobre o projeto de uma graphic novel, no qual está envolvido atualmente, fala sobre suas inspirações e sobre a idealização da literatura.

Daniela Birman: Antes de receber o convite para participar da série Amores Expressos, você já tinha planejado o romance "Cordilheira". Gostaria de saber se a viagem para Buenos Aires e Ushuaia influenciou de modo decisivo seu processo de criação. O que a estada de um mês na Argentina trouxe de importante para o livro ou alterou sua idéia original?

Daniel Galera: Fui a Buenos Aires pela primeira vez na vida e 90% do meu romance se passa lá, além de ser povoado por personagens argentinos. Minha estadia na cidade foi, portanto, decisiva. Quando viajei, já tinha um esboço mental da idéia do romance, mas ela foi desenvolvida em Buenos Aires e nos meses seguintes, a partir de anotações e observações feitas na Argentina. A forma final que o romance assumiu depende muito da viagem. Declarações minhas de que a história do romance poderia se passar potencialmente em outras grandes cidades do mundo têm sido usadas por detratores do Amores Expressos para atacar o conceito do projeto, o que é uma besteira sem tamanho, uma distorção do que venho afirmando. Eu poderia ter situado a mesma trama básica em São Paulo ou Edimburgo, mas o resultado seria um livro muito diferente. Minha experiência em Buenos Aires, que foi marcada por uma ausência de estranheza cultural e por uma sensação forte de exílio, de distanciamento da vida regular, contaminou todo o romance e sobretudo a conduta de Anita, a protagonista.

DB: Você explora em "Cordilheira" as fronteiras fluidas entre ficção e realidade, autor e personagem. O que o atraiu nesta temática, central em seu novo romance? Já experimentou coincidências surpreendentes entre vida e obra?

DG: Dois fatores me levaram a explorar essa temática. O primeiro foi minha própria experiência como autor de três livros publicados. As expectativas, os julgamentos e as confusões dos leitores acerca dos componentes biográficos de um conto ou romance sempre me chamaram a atenção e por vezes me atingiram de forma negativa, desde que comecei a publicar. Já em 1999, na época do e-zine Cardosonline, no qual publiquei meus primeiros contos, o interesse por esse tema me fez escrever um conto chamado "Manual para atropelar cachorros", onde minha intenção era provocar o leitor a se perguntar até que ponto aquele texto supostamente ficcional seria autobiográfico. Na verdade, o conto era 90% fictício, mas aconteceu o que eu esperava: a maioria dos leitores suspeitou que fosse em grande parte autobiográfico, de modo que recebi dezenas de e-mails de gente interessada em esclarecer se eu de fato tinha saído de carro na madrugada atropelando cachorros. Naquela ocasião, descobri a ânsia do leitor contemporâneo por legitimar a ficção por meio de pontes entre o texto e a biografia do autor, biografia essa que é em grande parte imaginada por esses mesmos leitores com base na própria ficção que leram. É decerto um sintoma cultural do nosso tempo essa credulidade voraz do leitor pela dimensão biográfica da ficção, que o leva a imaginar coisas e fazer interpretações quase sempre equivocadas sobre o texto e o autor. É triste, por um lado, porque indica um declínio do valor intrínseco da fábula, da autonomia da imaginação, um mundo onde o modelo narrativo dominante é o do reality show - que não deixa de ser interessante em si, porém não deveria ser paradigma para tudo mais. Mas enfim, o interesse por esse tema só aumentou nos anos seguintes, com a publicação dos meus dois primeiros romances. Logo após a publicação do "Mãos de Cavalo", em 2006, eu estava justamente refletindo sobre isso quando comecei a ler "O negro dorso do tempo", do Javier Marias, um romance em que o autor explora de forma fascinante a transformação da vivência pessoal em ficção e a posterior influência da ficção na vida das pessoas reais e sobretudo na do próprio autor. Eu tinha experimentado isso na pele com "Até o dia em que o cão morreu", um livro muito pouco autobiográfico que pareceu vazar para a realidade depois de lançado, se refletindo na minha vida pessoal numa série de coincidências que até hoje não compreendo muito bem. Naquele momento, lendo o romance do Javier Marias, decidi que meu próximo livro tocaria nesse tema e envolveria alguma espécie de intriga literária na qual a fronteira entre a vida e a ficção dos personagens se borrasse de várias formas, intencionais ou não. Depois decidi jogar no meio disso alguns elementos metaficcionais, comentários irônicos sobre literatura, e a coisa foi se complicando. O resultado, a meu ver, é um romance que comenta e incorpora essas questões sem propor teses acabadas, exceto uma: a de que a interpretação que fazemos da nossa experiência, à qual damos o nome de "vida real", é também uma construção narrativa, não muito diferente da ficção.

DB: A protagonista de "Cordilheira", a escritora Anita van der Goltz Vianna, rejeita radicalmente seu primeiro e único livro. Ela chega mesmo a não se reconhecer mais em suas páginas, como se ele tivesse sido escrito por outra pessoa. Você experimentou algo próximo deste estranhamento em relação a sua literatura?

DG: Não, isso é coisa da Anita. Embora meus livros anteriores sejam produtos de um autor que deixei de ser, porque minha vida foi em frente e eu mudei muito, eu os reconheço como parte do que sou agora. Seria ingenuidade rejeitá-los como faz Anita. Mas eu queria que ela fosse uma espécie de anti-heroína literária numa época em que tanta gente aspira ao status de escritor. Ela consegue o mais difícil, se consagrar aos vinte e cinco anos com o primeiro romance, mas em seguida rejeita completamente o livro e a própria condição de escritora de literatura. De forma análoga, ela renega boa parte dos ideais de emancipação feminina cultivados por suas amigas e pelas pessoas de sua geração e classe social em geral em nome de algo considerado antiquado: quer ter um filho e tornar-se nada mais que mãe ou, nas palavras dela, "a mulher de um homem".

DB: Você já escreveu, aliás, que a inspiração está relacionada à capacidade de estranhar a vida. Poderia falar um pouco mais sobre isso? Quais estranhamentos inspiraram "Cordilheira" ou outros livros seus?

DG: Eu não saberia dissertar sobre isso de maneira objetiva, porque é uma sensação muito particular, uma interpretação bem subjetiva do caráter da inspiração. É o sentimento que tenho ao flagrar uma idéia inesperada tomando conta da minha imaginação: um dado novo, uma nova versão do que eu tomava como certo, e de repente um aspecto qualquer da vida que eu julgava conhecer se revela estranho, de uma forma que pode ser confortante ou assustadora. E elaborar essa idéia na cabeça e depois escrevê-la é o processo de me familiarizar com essa estranheza e comunicá-la aos leitores. Eu não saberia pegar um personagem ou cena do "Cordilheira" e associá-lo a um desses instantes de inspiração porque o livro pronto, sua trama, estilo e personagens, representa um estágio muito posterior à inspiração. Eu diria que a inspiração é o que me move a escrever um novo livro, mas dois ou três anos depois, com o texto pronto, ela não passa de um fantasma.

DB: Sua personagem Anita se opõe fortemente à idealização da literatura. Após ter alcançado sucesso logo no seu livro de estréia, ela perde o interesse pela escrita e critica em seus amigos argentinos a seriedade excessiva com a qual eles encaram a literatura. Você percebe esta idealização na vida literária brasileira hoje? Isso o incomoda?

DG: Percebo e me incomoda. Não gosto muito da literatura vista como essa entidade acima do bem e do mal, um prédio majestoso ao qual autores merecedores terão a honra de acrescentar um quarto ou, pior, no qual qualquer pessoa que digite algumas páginas e as chame de literatura poderá construir seu puxadinho. Não acredito na importância desse prédio, talvez nem mesmo em sua existência. Eu vejo a literatura como uma experiência que se renova em cada leitor e autor, a partir de uma necessidade. A literatura é uma grande cidade que se espalha, não um palácio que se ergue em direção ao céu. Autores, críticos e grupos literários que decretam sua auto-importância à sombra desse palácio fajuto me irritam, e leitores que julgam a literatura pelo prisma dessa idealização tola me irritam mais ainda. Não gosto de gente que fala em nome da literatura. Antipatizo imediatamente com quem julga ter autoridade para se manifestar por ela. "Porque a literatura busca isso", "A literatura é aquilo", "A literatura deve...", "A literatura precisa de..." Gosto de pessoas que falam de livros, de cenas emocionantes, de parágrafos que mudaram suas vidas, de frases que as fazem gargalhar ou cair em silêncio profundo sempre que são lembradas, de palavras maravilhosas, de figuras de linguagem que parecem conter verdades imensas que não podem ser expressas de nenhuma outra forma. 

DB: Foi difícil criar uma voz narrativa feminina?

DG: Foi difícil no começo, porque eu estava pensando demais no assunto. Ao longo do processo, me dei conta de que uma voz feminina não era tão diferente de uma masculina, do ponto de vista literário, e que bastaria me colocar no lugar da minha personagem e aplicar nessa perspectiva o meu próprio estilo para chegar a uma voz feminina convincente o bastante. Digo "convicente o bastante" porque não é segredo para ninguém que o autor do romance é um homem, e querer dissimular isso seria uma cretinice. O resto é pesquisa, como para qualquer coisa que não se sabe por experiência própria. Google, Wikipedia, convivência, interrogatórios pessoais, outros livros.

DB: Está trabalhando atualmente em algum novo livro? Poderia falar um pouco dos projetos nos quais está envolvido?

DG: Estou escrevendo o roteiro de uma graphic novel em parceria com o desenhista Rafael Coutinho. É um projeto grande de história em quadrinhos, que poderá chegar a trezentas páginas. São seis narrativas paralelas, muitos personagens. Estou adorando, eu e o Rafael chegamos a uma unidade criativa que nos surpreendeu, nossas idéias se complementam e o traço dele em alguns casos parece reproduzir exatamente o que se passa na minha cabeça, dá medo. Estou confiante no resultado. Deve ficar pronta em meados de 2009. Já estou em fase de inspiração para um novo livro, mas não escrevi uma linha dele ainda. Estou forrando um caderninho com anotações. Devo começar a trabalhar nesse livro ano que vem.
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