



30/09/2007
Entrevista concedida por email com Diana de Hollanda
por Juliana Pamplona
Obra "Dois que Não o Amor", de Diana de Hollanda.
Juliana - Quando foi que você começou a escrever?
Diana - Os poemas mais antigos datam dos meus onze anos. Mas devo ter começado a escrever quando percebi o quão malsucedida era em outras formas de comunicação com o mundo em geral. Acho que, então, desde o berço. (Risos.)
Juliana - O que você pode perceber de diferente entre os seus primeiros textos e os mais recentes?
Diana - Apesar da autocrítica ser mais severa – e isso ser um forte elemento de castração -, hoje me sinto mais livre ao escrever. Não sinto pudor de buscar construções “erradas” para o texto. Não por ânsia de subversão, mas pela investigação de um sentido que não se detenha ao que está sendo dito. Ou melhor: por saber que o que está sendo dito está sendo dito antes do que é tomado como o dito. Tem a ver com a velha discussão da linguagem versus conteúdo; discussão em que não acredito, porque linguagem é conteúdo. Quero dizer que hoje me sinto mais instigada a trabalhar o conteúdo a partir da linguagem, o que me leva a desconfiar da língua e a quebrar compromisso com o sentido cartesiano ou com a fixidez de um gênero – se prosa, poesia ou até dramaturgia – para o texto.
Juliana - Como que o teatro influenciou a sua escrita na poesia e prosa?
Diana - Sei de algumas coisas; por exemplo, ter montado Fim de Partida intensificou minha relação com o lugar da música e do silêncio no texto. Mas Beckett foi uma porrada muito maior que isso, porque influenciou não só minha escrita como a maneira de eu enxergar a vida.
Juliana - A sua dramaturgia está ligada ao seu trabalho de diretora de que forma?
Diana - Aí entra a parte em que a escrita influenciou o teatro. Talvez por já ter um contato forte com a palavra, sempre tentei fugir de uma visão textocêntrica da encenação. Na Unirio isso é difícil, porque se costuma partir de um texto para construir uma peça, o que - apesar de ter me rendido valiosas experiências como a do Fim de Partida - acho ruim, pois a linguagem teatral não se restringe nem necessariamente se principia com a palavra. Acho que é cedo para falar de “minha dramaturgia”, mas tanto em , encher-se, esvaziar-se, encher-se, quanto em As coisas da vida, a dramaturgia é a da encenação.
Juliana - A sua nova peça terá uma estrutura de texto teatral que poderá ser montada por um outro diretor apenas pela através da leitura ou não poderá ser descolada da encenação?
Diana - Apesar de a dramaturgia ser da encenação, os elementos estão todos no papel e podem ser desmembrados e arrumados de segundas, terceiras maneiras. Entretanto, os elementos em si já trazem fragmentos de cena. Fora isso, a leitura seria um pouco alternativa; mais complexa. Acho que até seria possível, mas o diretor desistiria. (Risos.)
Juliana - No seu livro “dois que não o amor” você trabalha desde o próprio título com elementos do desdizer, o não-dizer, da via negativa, e freqüentemente as suas poesias dão a sensação da retirada de chão em relação a qualquer conforto. Ao mesmo tempo deslocando um certo “conforto” para lugares de tensão como, por exemplo, no elogio ao conformismo, que por sua vez também não se sustentará por muito tempo sem provocar alguma inquietação. Na sua montagem de “Fim de Partida” na Unirio, havia por parte da sua encenação, em sintonia com a proposta do texto de Beckett uma grande dose destes mesmos elementos trabalhados nas incertezas e certezas que escapam a todo tempo nas vozes dos personagens e ritmo da cena. Ritmos de cenas e ações “desconfortáveis” “enganavam” o espectador em suas expectativas (ou na falta delas). Você pretende trabalhar estes elementos de forma estrutural na sua peça de título provisório: “As coisas da vida”, em processo de construção como autora e diretora? De que maneira?
Diana - Tanto Fim de Partida quanto dois que não o amor têm em comum uma ordem. No caso do livro, é possível pegar a página 55 e ler antes da 19, mas o fato é que existe uma ordem a ser acompanhada – que o leitor segue se quiser. Então, fica mais evidente esse processo dialético. Em As coisas da vida, tudo acontece ao mesmo tempo. A proposta é justamente a de não guiar o olhar do espectador, a fim de não estabelecer graus de importância ou criar diferenciações entre o que está em cena. Também tem a questão de que, apesar da simultaneidade dos acontecimentos, estes se localizam em diferentes ambientes. Isto é, cada espectador faz o seu caminho, não é possível ver tudo o que acontece. (Tal como na vida.)
Juliana - Como tem sido esta primeira etapa de processo de criação deste novo trabalho?
Diana - Intensa. Estamos em processo de experimentação, construindo um acervo de possibilidades do que poderá servir à peça. A próxima fase é a de limar o que não presta. E, por fim, a lapidação. Vamos ver no que dá.