



dezembro/2009
Entrevista com o escritor Ferréz (concedida por email)
por Mariana Barcelos
Ferréz

"(...) e que desconfiava que haviam sido os manos da Paraisópolis que tinham contratado o Burgos pra fazer o serviço: afinal as bocas nao podem se dar ao luxo de ficar com prejuízo, porque senao os negócios despencam: é só um nóia saber que tal mano comprou na boca, nao pagou, e nada aconteceu, que tá feito o boato que os chefes da boca nao tao com nada. O respeito tem que prevalecer." (Trecho do livro Capao Pecado, 2005, Ferréz).
Mariana - Voce disse que a sua literatura "nasceu no grito". Fale sobre isso.
Ferréz - Foi lutando, vendendo livro de mao em mao, dando entrevista em fanzines. Entramos pela porta dos fundos, num trabalho aos poucos, cativando e criando um público novo que gostasse do nosso tipo de literatura.
M - Fale da aproximaçao do ritmo do seu texto com o ritmo da oralidade do rap. Voce também é músico, como se dá essa inter-relaçao?
Ferréz - É algo natural para quem mora na favela e ouve rap desde que nasceu, a proximidade é tanta que até se confunde, acho que é inspiraçao e vem de várias formas, as vezes num conto, outra vez numa letra de rap, por ser rimado a gente acaba decorando o conto rimando.
M - O projeto da Literatura Marginal - revista que deu origem a antologia Literatura Marginal: Talentos da Escrita Periférica é de sua autoria. Como é fazer literatura a margem? Quem sao os seus leitores?
Ferréz - É complicado, convencer quem nao le, convencer que é bom, que dá para mudar a vida e ainda se divertir, que a literatura é algo para todos. Nossos leitores sao o povo, o motorista de ônibus que me pára e fala que le meu livro, os moleques na rua.
M - Voce vive no Capao Redondo desde criança. Esta realidade atinge inevitavelmente a sua literatura, porém, antes de morador da favela, voce é um escritor literário. Como fugir do rótulo de "literatura de periferia", ou, no seu caso, este rótulo é realmente um motivo de fuga?
Ferréz - Tento fugir, pois afinal a literatura é maior que qualquer rótulo, mas todos insistem em ver assim, e a arte fica em segundo plano, o que menos me perguntam é sobre livros, já falei um milhao de vezes que nao sou especialista em violencia, sou ficcionista, escritor, mas é difícil se afirmar assim.
M - A expectativa da maioria das pessoas quando se pensa em um escritor da favela é que seus textos retratarao "obviamente" a realidade local. Claro que este é um caminho nao menos importante que os outros, mas também nao deveria ser tao "óbvio" quanto se apresenta. Qual o espaço que se tem, no meio literário, para escrever sobre outros temas (evidentemente as suas referencias pessoais e locais permearao qualquer escritura)?
Ferréz - Escrevo também sobre ficçao cientifica, sobre quadrinhos, acabei de terminar mais uma HQ, também escrevo poemas, e essa coisa de óbvio é o que os outros querem ver, a gente tem que trabalhar e nao se prender a nada, eu tento fazer isso, no meu próximo livro nao falo de periferia, e nem por isso perdeu a força e protesto.
M - Voce tem algum projeto novo de literatura? Poderia falar um pouco sobre ele?
Ferréz - Tenho um livro chamado "Deus foi Almoçar", é um romance que estou escrevendo desde 2004.
Sobre Ferréz:
http://ferrez.blogspot.com/
http://www.ferrez.com.br/
http://www.1dasul.com.br/