fevereiro/2010 Entrevista com as editoras da revista eletrônica Questão de Crítica, Dinah Cesare e Daniele Avila, concedida por email. por Juliana Pamplona A Questão de Crítica, lançada em 2008, vem criando um espaço importante para a reflexão teatral. Críticas sobre peças em cartaz, conversas com profissionais das artes cênicas, registros de processos de criação de espetáculos, estudos e traduções de textos teatrais podem ser lidos e discutidos neste espaço virtual: http://www.questaodecritica.com.br/

As perguntas foram respondidas por Dinah Cesare a partir de uma conversa entre as editoras sobre as questões levantadas

Juliana Pamplona - Como surgiu a ideia de fazer uma revista digital de crítica e estudos teatrais?
Dinah Cesare - Nós estávamos terminando a graduação em Teoria do Teatro na Unirio e a gente queria escrever. Também existia um desejo de se manter conectado, de fazer alguma coisa juntos. Uma espécie de desespero em escrever e trabalhar com os amigos. O ponto de partida foi o convite que o Fábio Ferreira fez para a Daniele Avila, para ela coordenar uma oficina de novos críticos durante o riocenacontemporânea. Então nós vimos que dava pra fazer, dava pra escrever, que conseguíamos criar uma atmosfera reflexiva entre nós e que podíamos compartilhar isso. A Internet era o único meio possível. Não teríamos como fazer um investimento pessoal num periódico impresso.

J - Qual a relação entre a escolha do nome "Questão de Crítica" e o livro "Questão de Enfase" de Susan Sontag?
D - A relação entre o nome da revista e o livro da Sontag é um acaso duchampiano. Nós estávamos em uma reunião, exaustos, pensando a cara da revista, o que a nortearia, como seria a curadoria, como integrar os colaboradores etc. Estávamos sentados na sala da Daniele, ela eu e o Marcio Freitas que foi sócio fundador. Tínhamos feito um trabalho pesado de mesa. Então, quando não aguentávamos mais, fomos para uma parte aconchegante da sala, sentamos no chão diante de uma estante cheia de livros e começamos a pensar no nome. Sabíamos que tinha que ter a palavra crítica. O livro da Sontag nos olhou da estante, foi isso. A Daniele falou: Questão de Crítica. Foi uma enfase do acaso e da exaustão.

J - Que critérios são usados na escolha de um espetáculo teatral sobre o qual escrever? Essa escolha se dá antes, durante ou depois de assistir a uma peça?
D - O critério para as escolhas das críticas está ligado ao material das obras e aos contextos. Quando acontece de existir um cruzamento favorável desses dois elementos e que nós, incluindo os colaboradores, achamos que é consistente, nós escrevemos. De um certo modo, tentamos fazer valer um olhar de reflexão sobre as obras e sobre o cenário artístico da cidade.

J - Como tem sido o retorno dos leitores da revista? De que maneira vocês recebem este feedback?
D - Na verdade, não recebemos muito. Apenas e-mails de alguns amigos, conhecidos, pessoas que fazem teatro. Raramente temos comentários na revista. Quando perdemos o conteúdo no ano passado, não conseguimos recuperar os comentários que estavam lá. Dos artistas cujos trabalhos nós criticamos, não costumamos receber nenhum feedback. É muito raro mesmo. Das mais de 100 críticas que publicamos, dá pra contar nos dedos os artistas que se propuseram a continuar o debate. A não ser quando acham que o crítico "não entendeu" a peça. Nesse caso, eles se pronunciam prontamente.

J - Quais as principais dificuldades e desafios encontrados na manutenção de uma revista de estudos e crítica de teatro?
D - A principal dificuldade que encontramos para manter a revista é o fato de que se trata de um site de conteúdo. E que este conteúdo está relacionado com o material artístico ofertado. As vezes fica difícil encontrar a fisionomia de uma edição em vista da diversidade das propostas de encenação que estão em cartaz.

J - Como vocês vem o papel da crítica teatral hoje? De que maneira esta interfere no fazer teatral?
D - O papel da crítica hoje seria material para uma entrevista inteira e falaríamos por uma hora, pelo menos. Porém, dá pra dizer que nossa perspectiva crítica é a de encontrar desdobramentos da obra. Nossa experiencia nestes quase dois anos de Questao de Crítica é que os artistas parecem se interessar mesmo é pelos resultados da crítica jornalística. De um modo geral, validam e revalidam a crítica impressa e as pessoas que escrevem para ela. Então, talvez a crítica quase não interfira mesmo hoje em dia. Parece que ainda estão valendo os modelos antigos, mais tradicionais de comunicação e isso acontece até na nossa revista. Isto é bastante problemático na medida em que não contribui para formar novos olhares, novas formas de apreensão das obras para o público.

J - Qual a importância da Internet para a crítica contemporânea?
D - Olha... Nós conversamos, tentamos entender, mas nao sabemos o que dizer da crítica contemporânea. O que vem a ser essa crítica contemporânea? Sei lá. O que se escreve hoje em termos de crítica, como diz a Daniele, é pré-kantiano. A Internet é uma ferramenta eficaz e barata como todo mundo sabe, mas tá difundindo também modelos mais tradicionais, por assim dizer.

J - Quais mudanças estao previstas para a próxima ediçao do site "Questão de Crítica", que retorna em janeiro de 2010?
D - A Questao de Crítica já saiu em janeiro e veio com um layout novo. O que tem de diferente em termos de melhorias é que o campo de visão está privilegiando os textos. É uma tentativa de focar e estimular nossos leitores. Antes, cada página tinha muitos links, o que estimulava a dispersão, a navegação mais que a leitura. E, com todo respeito aos nossos seguidores que gostam de acabar com o conteúdo da revista, ela está mais segura. Tivemos na primeira semana mais de 3000 vistas, o número que costumávamos ter em um mes.
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