junho/2009 Entrevista com com Alexandre Rudáh Equipe de Teoria da Montagem Teatral Na solidão dos campos de algodão: Alcemar Vieira, Daniela Amorin, Daniele Ávila, Marcio Freitas e Mariana Barcelos
Entrevista realizada pela Equipe de Teoria – Alcemar Vieira, Daniela Amorin, Daniele Ávila, Marcio Freitas e Mariana Barcelos – da montagem acadêmica Na solidão dos campos de algodão, de Bernard-Marie Koltès, com Alexandre Rudáh, o diretor do espetáculo, sobre o processo de um aluno de direção na escolha e criação de um projeto de encenação.

Marcio - Fale do seu primeiro embate com Na solidão dos campos de algodão. O que te seduziu na dramaturgia do Koltès? O que despertou o desejo de montar este texto?
Rudah - Moacir Chaves havia me falado sobre esse texto numa aula de direção. Logo depois, o pesquisador francês Guillaume Pinçon o colocou em minhas mãos. Ler Na Solidão dos Campos de Algodão foi como me deparar com uma verdade insuportável, como dizia Nelson Rodrigues: há muito do Dealer e do Cliente em nós mesmos. Também nós temos, enquanto sociedade capitalista, negociado, por vezes de maneira até predatória, a satisfação dos nossos desejos. A possibilidade de levar essa discussão à cena foi o que me seduziu num primeiro momento. O embate se deu depois, quando me deparei como encenador com a estrutura dramatúrgica do texto: Como falam esses dois personagens! Por outro lado, senti que eu também precisava encarar as palavras e vi que a escrita do Koltès seria o melhor lugar para estar nesse momento.

Alcemar - No exercício laboratorial, no qual você apontou um primeiro percurso a ser seguido para a realização deste espetáculo, apareceram duas questões muito fortes. Para a primeira, sobre a possibilidade de se encenar esta dramaturgia, a resposta veio de imediato: "Sim, outros encenadores já o fizeram". E a segunda, ainda sem resposta, seria: como encenar? Como foi a experiência de transpor esse texto para a cena? Como essa tarefa foi ganhando corpo ao longo do processo?

R - Foi e está sendo uma tarefa extremamente árdua. Mas esse “como encenar” foi aos poucos perdendo espaço para outra questão: “como adiar”. Quando comecei a trabalhar com os atores Carla Martins e Maelcio Moraes numa sala de ensaio, percebi que a encenação era o que se dava no discurso de cada personagem. Não podemos esquecer que o texto começa com a condicional “se” e desenvolve-se a partir de hipóteses e refutações. Percebi que era isso que o espectador precisava ver. Seja a negociação do prazer ou a do combate, eles adiam tudo. Chegar a essa compreensão foi fundamental para dar corpo às palavras do Koltès. É importante ressaltar também a contribuição de cada componente da equipe. Todos trouxeram contribuições magníficas para o trabalho. Teve um momento do processo que eu o percebi fora de mim, com vida própria.

Daniela Amorim - Dealer e Cliente debatem de forma estranhamente parecida, ainda que seja em grande parte para enumerar suas diferenças. De que modo as diferenças e as semelhanças entre os dois foram trabalhadas nesta montagem?

R - No meio da pesquisa para desenvolver o projeto de encenação de Na Solidão dos Campos de Algodão, estive na Venezuela com o espetáculo Depoimentos às Terras do Brasil e não consigo esquecer a sensação de estranheza que senti ao me deparar com as questões daquele país e com o fato de que, a despeito da “humanidade que nos caracteriza ambos”, lá eu era o “estrangeiro” e eles os “nativos”, ou melhor: eu, o hóspede, e eles, os donos da casa. Haveria nisso alguma relação de poder? Essa vivência foi determinante para pensar o Dealer e o Cliente. Trabalhamos essas questões também no cenário, no figurino e na iluminação.

Mariana - O espaço físico que a dramaturgia propõe – lugar obscuro, sem leis, de transações ilícitas – provoca, claramente, nos personagens um estado de alerta, tensão. De que forma esse lugar de instabilidade teve seus desdobramentos na criação da cena?

R - Foi preciso, antes de tudo, encontrar esse lugar. Sabíamos que o cenário, o figurino, a iluminação e a música poderiam configurá-lo assim como foi proposto pela dramaturgia. Mas havia algo mais que isso. Nesse sentido percebemos a certa altura que a maneira como o Dealer e o Cliente se colocavam um diante do outro também falava muito sobre esse espaço físico. E isso mudou tudo. Há algo no comportamento deles que revela a obscuridade desse lugar e que foi determinante para a criação da cena.

Marcio - Como você trabalhou a questão vocal junto aos atores? Você trilhou um caminho desde um jogo com a desarticulação da fala, no primeiro semestre laboratorial, até uma encenação na qual o embate verbal deve ser bem ouvido. Quais foram suas principais preocupações?

R - Não sei se bem ouvido. Mas, talvez, bem imaginado. O Dealer e o Cliente falam por metáforas. Propus aos atores que contivéssemos os movimentos, por três razões: a primeira, óbvia, para que eles não comprometessem a compreensão do texto; a segunda, para ressaltar a atmosfera de tensão do encontro entre os dois personagens; e a terceira, para fazer com que movimentos devidamente escolhidos revelassem o porquê de tudo aquilo que foi contido.

Daniele Ávila - O que a montagem desta peça significa na trajetória da sua formação? Como essa prática conversa com o que você estudou e experimentou no curso de direção?

R - Significa um reencontro com a voz, com as palavras. Antes de Na Solidão dos Campos de Algodão minha principal busca era pela expressão através de movimentos físicos, ainda que eu concordasse com todos aqueles que dizem que a voz é também corpo. Aos poucos percebi que a voz em meus trabalhos não tinha a menor elaboração para integrar-se aos outros movimentos da pesquisa física. Além disso, havia também o desejo de se trabalhar com a distância real entre os atores na encenação. Meus trabalhos anteriores haviam sido encenados em espaços muito exíguos e intimistas, comecei a sentir necessidade de experimentar outras espacialidades como aluno e decidi encarar o desafio de reverter esse quadro. As palavras de Koltès e a orientação do professor Ricardo Kosovski foram as melhores “armas” nesse sentido.

Sobre o espetáculo:
Na Solidão dos Campos de Algodão, de Bernard-Marie Koltès
Tradução: Letícia Coura
Direção: Alexandre Rudáh
Elenco: Carla Martins e Maelcio Moraes
18 de junho a 12 de julho/ quinta a domingo/ 20h Entrada Franca
Sala Glauce Rocha. UNIRIO: Av. Pasteur, 436. Urca, Rio de Janeiro
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