



maio/2010
Entrevista com Virna Teixeira
por Diana de Hollanda
A poeta, editora, neurologista e tradutora Virna Teixeira nos conta sobre as múltiplas profissões, a relação com o tempo, os últimos livros e próximos projetos.
Diana de Hollanda - Voce se formou e adquiriu mestrado na área de medicina. Hoje em dia trabalha como neurologista e é doutoranda em Letras. Pode nos contar como se iniciou e persiste o trânsito entre a medicina e a poesia?
Virna Teixeira - Comecei a ler poesia muito antes de entrar na faculdade de medicina, mas minha escrita e meu interesse se intensificaram em paralelo durante a faculdade. A publicação do meu primeiro livro, Visita, coincidiu com o término da minha residência em Neurologia. Fui depois para a Escócia fazer um mestrado e a relação com a poesia tornou-se cada vez mais forte e próxima (essa passagem resultou na publicação de três títulos de tradução de poesia britânica), sobretudo depois, no retorno, quando atravessei uma crise grande com a profissão.
Fui para lá estudar distúrbios do sono, mas, no meio do caminho, acabei me interessando mais pela Psiquiatria e, quando voltei, fiz uma especialização na área de dependencia química - algo incomum para alguém da área de neurologia. Então foi esse trânsito gradual e transformador para uma outra fronteira, época em que comecei também a escrever ensaios, textos, a participar de muitos eventos de poesia etc. Comecei a mesclar a poesia com o meu trabalho e fiz alguns workshops, não sei se a palavra certa é essa, com pacientes de uma clínica para tratamento de dependentes químicos (onde também trabalhei como médica); o resultado foi muito rico e surpreendente para mim.
Depois, em uma determinada ocasião fui convidada para falar sobre drogas e literatura em um encontro de poesia. Fiquei muito entusiasmada, comecei a ler muita coisa e, por uma estranha sincronia, acabei encontrando um professor na USP, o Antônio Vicente Pietroforte, que se interessou em orientar uma tese sobre o tema. Fiz um período de adaptação na Letras e acabei entrando para o doutorado na Faculdade de Letras. O trânsito, portanto, prossegue, cada vez mais próximo, e ultimamente até mesmo na minha escrita.
D - Imagino que o tempo para escrever seja escasso. Você se impõe prazos para um novo trabalho? E métodos de escrita?
V - Sou muito disciplinada com meu tempo. E, de certa forma, um pouco hiperativa. Já traduzi muito em plantão, aproveito bem as horas vagas. Gosto de estar sempre em movimento. Imponho prazos quando tenho de cumprí-los. Para escrever sou lenta. Há um processo que é metódico, sim. Eu observo, tomo notas, começo a me cercar de um determinado tema que me interessa e vou trabalhando devagar mas pacientemente em torno dele. Descobri que escrevo em média um poema, às vezes dois, por mês. Não tenho pressa. A poesia tem o seu tempo.
D - Você também é tradutora. O que a leva a querer traduzir alguém? Quanta interferência um tradutor de poesia pode infligir ao original?
V - É como uma empatia mesmo. Ou talvez um enamoramento. É algo naquele jeito de escrever que atrai. Uma vontade de decifrar, de conhecer mais de perto. A interferência sempre existe, é inevitável. Pode ser um ruído de transmissão, a preferência por determinada palavra. O modo de interferir varia com o estilo do tradutor. Gosto de estar perto do autor, do trabalho, de acompanhar seu ritmo. Li em algum lugar que um tradutor deve ser um bom mímico. Penso que sim.
D - Visita, Distância e Trânsitos. Conte um pouco sobre cada um desses livros na sua trajetória de poeta. Alguma predileção ou rejeição?
V - Visita foi publicado em 2000, e será reeditado em breve, talvez ainda neste semestre, pelo selo Orpheu da editora Multifoco, dez anos depois. É um livro mais veloz, da época em que comecei a fazer viagens, em que me detinha na volatilidade de uma cena urbana, de um percurso, de um contraste entre natureza e cidade e em paralelo de um registro mais intimista, entre paredes. Tudo em torno de uma escrita imagética, em diálogo com outras artes.
O tema é esse e foi se desenvolvendo e se desdobrando nos dois livros seguintes, que compõem uma espécie de trilogia. A paisagem exterior e interior. Em Distância essa paisagem é mais dilatada, mais silenciosa, até mesmo mais melancólica. Em Trânsitos as fronteiras se diluem, é um livro mais dinâmico, mais extremo, mais ousado e de certa forma mais agressivo. É um processo.
Creio que Distância se projetou mais, foi traduzido e publicado no México. Mas, na verdade, não tenho predileção ou rejeição por nenhum dos três livros, gosto de cada um deles a sua maneira.
D - Os critérios de escolha para traduzir um autor são os mesmos para editá-lo? Fale um pouco sobre a Arqueria editorial, como foi concebida, seus selos, seus próximos projetos.
V - De certa forma, sim. Tem que haver empatia com o trabalho e ainda mais, proximidade, confiança e diálogo com o autor. Muitos são amigos mesmo, mas sobretudo pessoas cujo trabalho admiro. São escolhas. Há o processo de editar, da estética. Está tudo interligado. O momento de publicar este e aquele autor. O momento de editar determinado projeto. Tem que ser assim. Eu costuro plaquete por plaquete, e agora selo os envelopes com cera. É um trabalho concentrado, afetivo.
D - E pela prosa, nunca pintou interesse?
V - Sim, e inclusive já usei um pouco de narrativa em alguns poemas, costumo ler prosa. Já escrevi uns dois ou tres contos. Histórias curtas, uma prosa poética, mas é algo ainda muito embrionário.
D - Você está escrevendo um livro, que eu sei. Pode contar um pouquinho? Pretende lançá-lo pela Arqueria?
V - Há pouco mais de um ano publiquei pela Arqueria uma plaquete chamada "Como suturar lembranças" com 7 poemas meus. Foi uma tiragem muito pequena, cerca de 20 exemplares, de capa dura, customizados. Depois fui desenvolvendo a ideia, e decidi transformá-la em livro. O livro vai demorar um pouco e ainda não pensei na editora. Por enquanto se compõe de três partes.
A primeira trata de poemas que dialogam em torno do trabalho de artistas mulheres, como Cindy Sherman, Louise Bourgeois, Tracey Emin. São poemas em torno de questões contemporâneas, de identidade, comportamento e compulsões. Há um pouco do meu trabalho com psiquiatria e neurologia, inclusive. Vide também a referência médica ao termo "suturar". Como um processo terapeutico de reparo.
A segunda parte chama-se "Atlântico". É uma espécie de detox a beira-mar, uma fuga do espaço urbano. São poemas que escrevi de dois lados do atlântico - em Portugal e em Natal. A linguagem é líquida. Porém condensada, concisa. Esse clima mais intimista se acentua na terceira parte, "Mar morto". Torna-se mais sólido e mais denso. Estive em Israel no final do ano, fui até o deserto, uma viagem muito impactante para mim. Penso que o deserto, metaforicamente, talvez seja o lugar ideal para se recolher de tudo e suturar as lembranças. Nesta época de excessos, de produtividade e proatividade desmedidas, faz falta esse tempo interno.