



2008/1
Entrevista com o Dramaturgo Walter Daguerre.
por Juliana Pamplona
“Sei lá se essa dramaturgia é nova; sei lá se todos os trabalhos possuem algo que possa ser definido como dramaturgia; sei lá se todos os novos dramaturgos desta cidade são cariocas; sei lá o que é o beribéri, sei lá, ô! Mas uma coisa é certa: existe conflito, portanto existe ação. Grandes atitudes, pequenos movimentos, heróis cumprindo seus presságios de vagar em busca de pauta, verba, visibilidade, público. Somos aqueles que, entre um conceito e outro, preenchem uma planilha da Lei Rouanet e colam cartazes no Baixo Gávea. Não somos os filhos da revolução, somos os filhos das reformas (da previdência, da providência). Somos burgueses sem religião, mas com fé cênica, ou melhor, fé na cena.” (Trecho do texto escrito para o programa de mão do projeto "Contemporâneo", da OI Futuro – dezembro de 2006)
Juliana – O que vem a ser a Nova Dramaturgia Carioca? Quais as suas especificidades?
Daguerre - Pra falar a verdade, não acredito que exista uma Nova Dramaturgia Carioca, mas sim uma levada de gente que tem escrito pra teatro, mas que se ocupa também de outras funções, entre as quais, principalmente, dirigir seus próprios escritos. O Roberto Alvim, há uns quatro anos atrás, lançou um projeto com esse nome de Nova Dramaturgia, o Sesc Rio acabou de promover outro chamado Novos Talentos, mas acho que adjetivar um projeto de Novo serve mesmo para chamar atenção da imprensa criando um fato curioso. Talvez daqui a alguns anos alguém vá olhar pra nossa década e dizer que formávamos um grupo de autores com essas ou aquelas características, mas não cabe a nós ficar pensando nisso. Temos mesmo é que escrever.
Juliana – Muitos autores têm optado por escrever em parceria. Em alguns casos esta proposta vem de alguns projetos que envolvem o encontro de vários autores como forma de incentivar a escrita teatral. Como é pra você escrever em parceria? Quais as vantagens e desvantagens destes encontros?
Daguerre - A parceria funciona assim: se a peça ficou uma merda, você diz, na encolha, que as coisas ruins foram idéias do parceiro; se a peça ficou bacana, você diz, em alto e bom som, que foram idéias suas. Brincadeirinha. Escrevo bastante em parceria, algumas vezes em parceria com outro autor, algumas vezes em parceria com o diretor, algumas vezes em parceria com o grupo todo – aquilo que se denomina "processo colaborativo". Comigo tem funcionado, embora ao longo do processo sempre surjam divergências. Na verdade, são as divergências que levam a coisa pra frente. Não dizem que teatro precisa de conflito? Então, o conflito com o outro autor leva a ação de escrever pra frente.
Juliana – Como é escrever para um grupo fixo?
Daguerre - No momento tenho um grupo com o qual estou partindo para o meu terceiro trabalho (Aquela Companhia, que realizou "Projeto K" e "Sub:Werther"). Basicamente, somos quatro pessoas que iniciam as discussões: eu, Marco André Nunes, o diretor, Pedro Kosovsky e Laura Araújo, os atores. Mas sempre tem mais gente, que entra, discute e decide também. O bom de escrever em processo é que você testa o que escreve na hora, o retorno é imediato, se não ficou bom, dá tempo de reescrever. Além disso, você escreve pensando nas soluções da cena, ou seja, o texto ganha muito em carpintaria teatral.
Juliana – De que modo o seu trabalho de diretor interfere na sua dramaturgia?
Daguerre - Tenho que me segurar pra não palpitar além da conta. Mas sei que isso acontece também com o diretor e os atores em relação ao texto. É como qualquer relação, você vai aprendendo a ter bom senso, a falar na hora certa, do jeito certo. Por outro lado, já escrevo pensando em soluções cênicas, o que facilita a vida do diretor.
Juliana – A indicação ao prêmio Shell abriu mais espaço para você realizar os seus projetos? O que mudou?
Daguerre - Levei tanto tapinha nas costas que quase tive um problema de coluna. Fora isso, nada mudou. Se eu tivesse ganhado, teriam os oito mil que pagariam minhas dívidas. Talvez rolasse um convite ou outro. Mas nada mudou. É começar do zero sempre, o que é muito triste e difícil para os artistas brasileiro.
Juliana – Você tem interesse em escrever para outras mídias?
Daguerre - Claro. Tenho interesse em escrever de um modo em geral. No momento estou escrevendo meu primeiro roteiro pra cinema, junto com o José de Abreu. É um filme que vai falar, entre outras coisas, sobre imigração judaica no sul do Brasil. Vai ser dirigido pelo Zé e por Silvio Tendler. Rodamos ano que vem. Fora isso, se um dia rolar novela, tô dentro. Internet, rádio, celular… O que vier, eu traço.
Juliana – Como foi o processo de "Todas as noites e todos os dias"?
Daguerre - O Angel me ligou dizendo que tinha um calhamaço de coisas que ele e o grupo tinham escrito e lido. Conversamos e depois eu fui pra casa e li todo aquele "dossiê". Sugeri algumas idéias, eles gostaram, escrevi umas cenas, eles gostaram. Veio a primeira versão, eles foram experimentando, mudando coisas, pedindo mudanças, eu fui fazendo, vendo ensaios, sugeri mudanças… Foi uma troca bem rica e muito saudável.