agosto/2011 BLUE NOTE De Cecilia Cavalieri
poeta e fotógrafa, Cecilia Cavalieri
daqui onde o amor se obriga em meus pulsos, já cicatrizados um penar de vezes; daqui onde da janela vejo em branco & preto toda a musculatura irreversível do céu tensionar suas nuvens cinzas sobre centenas de cabeças pretas que marcham sobre corpos de mesma altura, como se saídos de uma fôrma cirurgicamente exata; daqui de onde vejo um ponto branco oblíquo ao meu olhar, como se fugisse do canto das nervuras da retina nos dias em que me falta a vitamina A; lagarteio pelas paredes pintadas de folhas de plátano, na mais kitsch das sensações. enrolado em uma manta de algodão que me arranha a pele, escorro lentamente ao chão de mármore rosa que refresca meus dedos do pé e o violoncelo que se despede de minhas mãos _um cor-de-rosa último se dissipou do horizonte de meus olhos como a fumaça do fósforo que acaba de acender meu cigarro sem nome próprio. daqui eu tenho a cidade e a impossibilidade de transpirá-la.

de tão experimentais e minimalistas, minhas últimas composições vêm perdendo o viço, a cor, a harmonia, o andamento; como se numa obsessão pela perfeição mais exata _aquela que contempla os seios minúsculos e simétricos e rosas de Alice_ eu primasse por lapidá-las e lapidá-las e lapidá-las... até sua inexistência inicial. a blue note de hoje é o silêncio. o esgotamento da partitura é apenas seu excesso. dizem que aconteceu o mesmo com giacometti; não deve ser fácil ser amigo de jean genet, giacometti; não deve ser fácil não ter Alice, eu sei. ninguém é perfeito, só Alice.

eu, por exemplo, sem Alice, não tenho voz. Alice é minha voz. tudo só faz sentido quando através de Alice. a música ascética que faço e reproduzo só existe em Alice. com ela, meu mundo é preto, branco e delicadamente rosa, como o bicho macio e molhado que mora em seus lábios, como seu sexo tentacular. Alice, essa cidade inexplicável de escombros bem velados nas ladeiras das costelas; onde atrás das íris de contato, a febre de uma favela nas cores que escolhi pra pintar o auto-retrato que desfigurei.

acontece que tudo o que minhas mãos alcançam hoje é silêncio; hoje, depois que Alice abraçou a porcelana turvilínea, cheia d’água e de espuma, do banheiro ao lado. estou há dois meses perdendo as cores num quarto de hotel, sem conseguir sair ou sequer imaginar em sair, enrolado nessa manta feito lava ao casulo, fumando o último cigarro todos os dias, sempre o último, enquanto espero Alice esquecer de morrer no banheiro da porta ao lado. enquanto, por deus, tento eu esquecer que fiz das cordas do celo e dos dentes de Alice um belo colar para usar nesses dias hostis em que ela me falta e que definho como minha música, me anulando pelo excesso de mim mesmo. tudo é vacina e bálsamo; o resto ou não tem nome ou é Alice.

Cecilia Cavalieri nasceu em 1984 e é poeta & fotógrafa. Jornalista e pesquisadora de moda, escreveu para Vogue, Melissa, Veja Luxo, Chic e Folha de SP. Publicou o ensaio "Vestir" na revista Cultura Brasileira Contemporânea [Biblioteca Nacional, 2008]. Mais aqui: ilyaceci.tumblr.com; ilyaceci.blogspot.com.

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