março/2010 Trecho de "Eu, Cowboy" por Caco Ishak "Só que, na literatura, esse desgaste é diferente. É solitário. Que nem artista plástico. O sujeito está lá, apenas ele, de frente pra uma tela em branco. Sem sugestões ou propostas indecentes, nada entrando. Ou sai ou não sai."




A ideia de cruzar a América Central não era nada original. "Já quer dar uma de Kerouac de novo". Ao que respondia "Kerouac cruzou os Estados Unidos, não a América Central". Movimento que deixava o oponente sem outra saída senão "mas tudo pra chegar ao México". Ao que brindava, então, ao México e a Cirilo e às novelas do SBT e a Chaves, Ligeirinho, Papa-Léguas e ao Coiote, Rage Against, Seu Madruga, Viva Zapata, Zappa, Doors e Aldous Huxley e entornava a garrafa de vodca pra limpar o excesso escorrendo da boca com a barra da manga da flanela puída. Tudo pra manter a pose de "tô cagando pro Kerouac", mas só porque nunca tinha pegado a estrada por mais de quatrocentos quilômetros ao volante. Puro despeito. Eu, o frustrado. Pra quem a América Central era uma obsessão de longuíssima data – escrever meu On The Road versão Herbert Richards em quadrinhos, pegando carona na caçamba de camionetes, foi o que me fez vender minha discoteca básica e fundamental pra se entender os anos noventa em cento e cinquenta volumes quando tinha dezessete anos e pulmão de neném e nenhuma amizade pra dar conta de ficar elucubrando tanto trancado no quarto e acabar não fazendo nada. Eu, a criança solitária. O bichinho solto (mas bem treinado que voltava pra jaula com o rabo entre as pernas depois de ter tocado o terror nas pradarias) – sem essa de sentimento de impunição aqui, pelo contrário. Auto seria o prefixo mais correto. Cumpria pena natal de prisão domiciliar na condição de voluntariado aprendiz. Eu, meu juiz. Advogado de acusação e carcereiro. Isolado na solitária, e em regime semiaberto, reproduzindo nas paredes com minhas próprias fezes e frases de efeito o sete que tinha pintado nas ruas antes de voltar pra trás das grades. Tudo pra não admitir que tinha era preguiça de escrever, dando uma de Patchen e cagando pro Kerouac – apesar de até hoje continuar achando que não era nada disso. Uma banda, por exemplo (e outra frustração). Uma banda é formada por músicos. Não é só um cara que chega e sai tocando todos os instrumentos. É claro que existem também os gênios, que compõem e tocam e gravam tudo sozinhos. Ainda assim. Existe um certo espírito de união quando a gente pensa numa banda, principalmente em cima do palco. Com o cinema, é parecido. Tem o diretor, a grande estrela do set, que é pago por si mesmo pra ter as ideias brilhantes, alguém pra mandar e ser obedecido. Mas e se o fotógrafo for um tapado? E o baixista? Existem as exceções, os fodões da sétima arte que escrevem o roteiro, produzem, compõem a trilha, atuam, dirigem e são os câmeras. Pra esgotar as possibilidades, digo até que um bom diretor sabe escolher quem o acompanha. Ainda assim. Sem perder a ternura ou a tremura jamé. Nem o trema. Só que, na literatura, esse desgaste é diferente. É solitário. Que nem artista plástico. O sujeito está lá, apenas ele, de frente pra uma tela em branco. Sem sugestões ou propostas indecentes, nada entrando. Ou sai ou não sai. No fim das contas, só o que importa mesmo é que foi Agostinho, o cagalhão, o pomba-lesa cagalhão, quem me deu On The Road pra ler, logo que nos conhecemos. Não interessava se tinha sido comprado no cartão da mãe depois que leu a resenha numa revistinha pra machos cosmopolitas sobre Como Ser Legal segundo Nick Hornby. Agostinho tinha uma coleção de encher os olhos de cobiça, implorando pra ser levada de sua casa, e isso nos comovia profundamente. Eu e Clemente, disputando pra ver quem era o maior filão de livros e discos de Agostinho. E a disputa estava longe de acabar por aí. De um lado, eu. O niilista. Que não podia ouvir falar em Deus ou Alá ou vaca fora do prato (depois dos vinhos que tomei na casa do amigo proposta aos quinze) sem invocar o santo nome de Nietzsche e nunca em vão (até que parei de frequentar sua casa e passei a levar tudo na manha da quântica de bolso). Do outro lado, Clemente. Ex-viciado em crack e ex-prostituta e ex-um-sete-um, recém-convertido à Igreja Adventista do Sétimo Dia na cadeia (embora nunca tenha pisado em qualquer das duas e apesar de nascido e crescido no bairro do Jurunas) e tentando me convencer de que o Papa João Paulo II e George W. Bush eram as bestas do Apocalipse – abrir mão do choquito, que é bom, nem pensar. Noite após noite, lá estávamos enchendo os pulmões pra ver quem cantava mais alto de galo em galo dependurado do celeiro pegando fogo. Levando a discussão pra bem além da toca de um Vampiro alheio a toda essa metafísica, mas sempre disposto a nos acompanhar pra fora do Portes Du Ciel e pra onde quer que as artérias da Tamandaré nos bombeassem e Buden Bart não tivesse arrumado confusão. A troca que fiz com Agostinho no dia dos quinze anos da prima de Bruno Leonardo, quando aceitei dar carona a ele, Patricia, Clemente, Vampiro e Buden Bart, podia até ser das mais controversas: minha irmã por seus amigos. Mas, passados nove anos, e surpresa nenhuma. Não éramos apenas aptos ao fracasso, afinal. Também competíamos pra ver quem era o mais fracassado dos cinco.

Caco Ishak é mezzo goiano, mezzo paraense. Certeza mesmo é que nasceu em 81. Pai de Malu, resolveu escrever um livro para poder enfim plantar suas mudas e morrer em paz na clandestinidade. Como se o primeiro – Má Reputação (Ed. 7Letras, 2006) – não fosse o bastante, acabou tomando gosto pela coisa e inventou de compilar o segundo de poesia – Não Precisa Dizer Eu Também (no prelo) –, o que lhe deu confiança na medida certa para se isolar em Salinas (PA) e Copacabana (RJ) por 27 dias, em abril e setembro de 2009, respectivamente, período em que escreveu os 27 capítulos que compõem o romance Eu, Cowboy (ainda sem editora e de onde o trecho acima foi extraído). A clandestinidade pode esperar.
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