



fevereiro/2011
Máquinas de bombear cloro
por Guilherme Mazzocato
Guilherme Mazzocato
A única coisa que eu conseguia me lembrar é que eles eram uns idiotas. Tentava me consolar com esse pensamento, olhando para a ponte e o Guaíba, em primeiro e segundo planos respectivamente, emoldurados pela janela do meu carro. Janaína me ligara dois dias antes para me convidar para a reunião e me dar o endereço da casa do Marcos. Eu fiquei surpreso, porque nunca imaginei que alguém daquela época pudesse ter meu número de telefone. E acho que ela adivinhou meus pensamentos, pois foi logo me dizendo que tinha conseguido o meu telefone com a minha mãe, e o da minha mãe de uma velha lista de telefones do círculo de pais e mestres do colégio. A ex-diretora estava ajudando Janaína a organizar o reencontro. Me lembro que pensei: "e os pais que tinham trocado de telefone? Ou morrido?", mas não tive ânimo pra perguntar. Até porque, provavelmente eles todos devem se falar até hoje. A turma mais unida do colégio. Era todo mundo muito amigo. Todo mundo, menos eu. Um bando de idiotas.
Depois de rodar uns 40 minutos pela Ilha da Pintada em busca da casa de Marcos, as orientações entrecruzadas dos nativos começando a esboçar sentido em minha mente, cheguei em uma pequena ruazinha sombreada por palmeiras já bem perto da embocadura do rio que costeia a Ilha das Flores. Uma casa enorme, em estilo colonial Mexican-American. Até aquela cor rosa escrota igualzinha às casas dos filmes passados na Califórnia. Dois andares, mais de quinhentos metros quadrados com certeza (só a casa, sem contar a garagem e o pequeno píer para a lancha) e um peão cuidando do jardim quando eu estacionei. O filho da puta do Marcos se deu bem na vida. Já fiquei imaginando o mauricinho passando em direito na PUC e iniciando um estágio na empresa do papai. Aí, depois de muitas cagadas de iniciante, assim como as pequenas e perdoadas irresponsabilidades, pelo evidente fato de ele ser o filho do homem, Marcos deve ter finalmente se regenerado, parado de fazer tantas baladas no Dado Bier, e se tornado um exemplar advogado do ramo financeiro, cidadão politicamente consciente e plenamente imbuído de ética corporativa. Prêmio da ADVB e tudo o mais. Esses bundas-moles sempre têm um prêmio da ADVB. Rá! Marcos era uma toupeira. Sentava atrás de mim para colar nas provas de história e era um dos que mais me azucrinavam no recreio. Filho duma puta. Morando nesse baita casarão, e eu tendo que dar aula de Ciências Sociais em colégio municipal de Alvorada. Pra neguinho ver como o mundo é injusto.
Como o trinco está com problemas, eu demorei uns minutos até conseguir fechar a porta do meu fuca prestação-pra-vida-inteira, tempo o suficiente para Janaína escutar os ruídos feitos por mim e meu carro, e vir me recepcionar na entrada da mansarda. Janaína sempre foi assim, de receber as pessoas na entrada, de fazer sala, de perguntar como vai a família, etc., questão de agradar até os mínimos detalhes. Mas isso não quer dizer que ela, diferentemente do resto da minha ex-turma, nutrisse por mim amizade ou mesmo simpatia. Janaína é uma falsa. Só fazia isso pela necessidade patológica de ser popular e querida por todos. O que mais esperar de uma garota que, aos doze anos, viu a mãe, uma siliconada proprietária de uma academia de fitness, ser traída e abandonada pelo marido e a doméstica?
Com sua voz estridente e cortante, típica de uma animadora de festa infantil em fim de carreira, Janaína desceu o último degrau da escada que conduzia até a calçada, me abraçando e me dando as boas-vindas à festa de reencontro da turma. Falou "festa de reencontro da turma" com um tom marcadamente efusivo. Comentou, à medida que subíamos a escada até a entrada da casa de Marcos, que eu fora o último a chegar, e eu respondi hipocritamente pedindo desculpas, me justificando pelo fato de nunca, na minha vida, ter vindo na Ilha da Pintada. Já estava quase comentando de por que diabos aquela porra daquela Ilha pertencia a Porto Alegre, e que por mim podiam entregá-la junto com todos os seus pescadores primitivos ao município de Guaíba, quando resolvi me calar. Lembrei-me em tempo que pessoas como Janaína não só não entendem humor negro como inclusive se mostram incomodadas e animosas frente a tal. Era melhor guardar todos os meus comentários venenosos para mim mesmo e aguentar aquela tarde inteira calado. Foi só quando, ao entrar na mansão de Marcos, e depois de Janaína me colocar um chapéu de palhaço na cabeça (idéia que ela tivera para animar a festa) é que percebi que eu estava prestes a compreender uma nova perspectiva de "tarde inteira".
"E aí, Futuca!!!", ouvi urrarem para mim desde a churrasqueira de mármore.
Foi na sétima série. Eu estava no banheiro tirando remela do nariz com o dedo e algum desgraçado me flagrou. Por causa disso, fiquei conhecido como Futuca até o último maldito dia do 2º grau. Eles se juntavam em volta da minha carteira escolar e ficavam berrando "Futuca, Futuca!", e dando cascudos no meu ouvido. Por pouco não matei alguém por causa disso.
Cumprimentei as pessoas da churrasqueira. Todo mundo tentando ser agradável, afinal de contas, tinham se passado 15 anos. Não era pouca coisa. Não podíamos mais nos comportar como se fossemos selvagens. Uma que outra piada, mas nada cruel ou humilhante, e eu ali no meio, segurando o meu sorriso com estacas de aço. Em pouco tempo de conversação, aprendi que a minha turma inteira fora nesses últimos 15 anos mais brilhante ou especial do que eu em todos os aspectos possíveis. Até mesmo os que tiveram uma vida de desgraças. Paulinho, por exemplo, perdeu todo o dinheiro da família e teve duas overdoses em Paris. Horrível, com certeza. Mas, vejam bem... Em Paris! Já Milene, por sua vez, engravidou naquela época mesmo em que estávamos concluindo o segundo grau. Teve um período bem difícil tentando conciliar o filho e a faculdade de Marketing na ESPM. Mas hoje o guri é a principal promessa do Sub-15 do Colorado. Os olheiros dizem que o estilo de drible dele é igual ao do Garrincha. Vai sustentar a mãe a vida inteira.
Mas, de todos os meus ex-colegas presentes, o centro das paparicações era, evidentemente, o ultra-hiper-bem-sucedido Marcos Filgueiras, cristalização do self-made man dos Pampas, e dono da casa. Meu nêmesis nos tempos de Ensino Médio, Marcos me pareceu querer compensar, desde o primeiro instante em que botei meus pés sujos em seu palacete, por todos aqueles anos de agressões e humilhação, sendo especialmente cortês e diligente para com a minha pessoa. Me procurava nas rodas de conversa querendo saber de mim, interessado no que eu andava fazendo, se eu tinha muitos alunos, se eu estava feliz na profissão e etc. e tal. Como eu odeio mentir, tive que desdobrar meus talentos na arte de mudar de assunto. E o pior é que sempre aparecia um puxa-saco no meio da nossa conversa rasgando seda para ele, e aí perguntavam, super empolgados, onde é que Marquinhos pescara aquele peixe empalhado ali, e em que lugar da Europa era aquela foto pendurada na parede acolá, e onde é que Marquinhos comprara aquele vaso Ming trascolá, e eu ali no meio, completamente deslocado entre canapés e copos de champagne, a turma a recém na abertura dos trabalhos ao redor da churrasqueira, já me perguntando porque eu aceitara aquele convite. Por fim, e apesar de ter sido em um breve e monstruoso instante, eu me dei conta do terrível desfecho daquele fatídico dia. Rodeado daqueles yuppies, naquela casa enorme, eu poderia até me passar por um deles, considerando que eu também sou branco, tenho uma cultura de família burguesa falida e vestia minhas únicas roupas decentes. Percebi entretanto que no momento em que, no fim daquela tarde, e após ter retornado para o meu conjunto habitacional na Assis Brasil, eu abrisse a porta do JK e enxergasse empoleirados do lado de fora da minha janela os pestilentos pombos do Cristo Redentor, cairia a ficha de que eu sou um total e completo fracassado. Esse pensamento me encharcou com um desespero agonizante que me fez engasgar o meu canapé, e então lá nos fomos eu, Janaína e Marquinhos, cada um me segurando por um lado, até o banheiro de visitas do primeiro piso, onde vomitei todas aquelas iguarias na privada de ágata. Pude ouvir algumas risadas abafadas vindas da sala. E um "sssshhh" de censura logo em seguida. Resquícios dos adolescentes cruéis nos mais distintos e civilizados membros da nossa alta sociedade. O único consolo daquilo tudo é que o ridículo chapéu de palhaço caiu em cima do vômito e não tinha mais nenhum para repor. Janaína ficou desolada. Depois de voltar para sala, e, alvo de olhares de pena dissimulada, me recompondo em um dos sofás, ouvi a Helena perguntar para Marquinhos que foto era aquela em que ele estava de terno e gravata discursando em um púlpito. Marquinhos respondeu que foi de quando ele ganhou um prêmio na ADVB.
"O depósito de lixo fica do outro lado da Ilha das Flores. Daqui a gente não sente o cheiro", responde Marquinhos, apontando para o canal que liga as duas ilhas. "Estamos fazendo um abaixo-assinado para remover o lixão para a Restinga. Essa zona ficou muito mal-falada desde que fizeram aquele filme".
Estou sentado de frente para a piscina, o Guaíba em segundo plano, em uma das cadeiras de vime abaixo dos enormes guarda-sóis de palha trançada. Já em um estado de quase torpor, em parte por causa do engasgue e do vômito, em parte por causa do champagne, e também porque os dias de calor do verão são mais agradáveis quando chegam ao fim. Quando aquela brisa crepuscular deixa a atmosfera e as pessoas mais suaves. Na semana passada eu passara o filme do Jorge Furtado para os meus alunos, em uma oficina de discussão de políticas ambientais e planejamento urbano. Lá em Alvorada, tem quatro lixões. Em um prédio cohab onde moram sete de meus alunos, a pilha de dejetos chega a quase vinte metros das janelas.
"Mas se o abaixo-assinado não der certo", completa a esposa de Marquinhos, "estamos pensando em nos mudar para Bombas, em Santa Catarina. O Marcos já atende 95 % de seus clientes na internet e, quanto às viagens, a maior parte já são para São Paulo e Rio, mesmo"
"Só precisamos economizar um pouco mais, mas as previsões são favoráveis"
"As previsões são favoráveis". Rá! O jeito que ele fala "as previsões são favoráveis", com essa ridícula voz de barítono. Ele fez fonoaudiologia, será? Só pode. Putz, como eu odeio esse desgraçado. Não é possível que ele tenha tido essa vida de nababo. Que justo ele, dentre todos que poderiam ter sido, foi o que mais se deu bem, daquela maldita turma. Milene e Janice aparecem na porta corrida de vidro para dizer que a nova leva de salsichões já está prontos. Metade das pessoas sai da piscina e dos guarda-sóis para pegar salsichões. Outra metade senta nas cadeiras dos que as desocuparam e continuam mergulhados na salada de batatas.
A brisa aumentou um pouco agora, fazendo com que as águas da piscina e do rio tremulem na mesma direção. Justaposta ao Guaíba, parece até que a piscina é um pedaço desgarrado do rio, separado somente pelo fio de lajotas de sua estreita margem comum. Como se o Guaíba tivesse coagulado no concreto. Aquele enorme curso d'água fluindo de Norte a Sul, galopando até o oceano, e a piscina imóvel, tendo que ser renovado pela mão humana, senão seu conteúdo apodrece e junta uma porção de germes ao redor.
Foi só então, já recuperado das silenciosas humilhações sofridas ao longo do dia e percebendo, de cuca fresca, as pequenas ondas iluminadas pelo Sol do crepúsculo, é que eu me dei conta do real motivo para eu estar ali. Entendi a metáfora que aquelas duas poças d'águas desproporcionais queriam me sussurrar no ouvido. Não sei se foi intencional, se eles fizeram de caso pensado ou, talvez, não se deram conta mas subliminarmente desejaram e desejam isso, e eu suspeito da última alternativa, pois eles não são nem nunca foram tão inteligentes assim, mas a verdade é que estou aqui, convidado para esse patético churrasco de reencontro, porque eu sou o Guaíba deles. O rio deles. Eu sou sujo, irregular, urbanizado em uma densa crosta de entulho, sem falar no óleo derramado dos navios, para eles não sentirem o meu mau cheiro, tudo o que precisam fazer é fechar a janela. No entanto, eles tão belos com o seu cloro e seus patinhos de borracha, às vezes precisam se lembrar de como era o cheiro da margem selvagem, antes de eles cercarem suas bordas com trampolins olímpicos ou frigobares de beira de piscina. Em sua redoma de plástico, suas salsichas na brasa, o cheiro fresco do vime meticulosamente cortado das cadeiras trançadas. Um mundo aparte, mas que de vez em quando, é necessário ser exposto a esse rio sem saneamento que sou eu, eu, com os meus sapos, girinos, peixes mortos, fezes de favelados, e principalmente, os meus pombos perebentos de beira de janela. Eu, que vomito os docinhos e canapés do coquetel, porque não sou digno de enguli-los. Eu, que não tenho um prêmio da ADVB e que, no entanto, tenho uma única vantagem que esmaga todos eles: a água pura da minha correnteza, por mais que já não consiga enxergar, não vem de uma máquina de bombear cloro.
Guilherme Bordini Mazzocato nasceu no dia de Natal de 1978 em Porto Alegre, RS, cidade onde cresceu. Formado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ele no entanto trabalhou a maior parte de sua vida adulta como professor e tradutor de inglês, em diversas escolas e empresas de Porto Alegre e do Rio de Janeiro, onde morou de 2005 a 2008. Escreve desde a época da faculdade, há uns dez anos, tendo já colaborado com algumas crônicas e resenhas culturais para o jornal virtual Fazendo Média, de Niterói (RJ) e também em alguns sites de poesias. Ainda não publicou nada impresso. Possui um blog chamado Mero Colibri (merocolibri.blogspot.com).