



fevereiro/2011
O que se deixa e o que se leva
por Julia Duque Estrada
Julia Duque Estrada
Pouco a pouco, deixa rolar pelas ruas os pedaços de seus sonhos. Amores inventados, restos de fantasia, retalhos, destroços de brinquedos. Bolas de Natal coloridas. Cacos de vidro. Pinheiros. Certeza de vó. Colo de mãe. Futuro, um futuro quase perfeito.
Pouco a pouco, deixa rolar. Caixas mágicas, feitas de papel. Crepom e lápis de cor. Surpresas. Despertar de madrugada, só para ver como a noite se faz. Pilhas de presente. Cada um tinha a sua. Pouco a pouco, pelo chão, rolam as certezas dos olhos das primas. Barulho de cigarra, vaga-lume, o medo que dava o sapo úmido e seu silêncio no meio da escuridão.
Houve um tempo em que roubavam rosas. Roubavam rosas e limão. E fugiam pelos jardins. Hoje cata os restos do que um dia foi inventado. Então deixa rolar pelas ruas balão solto no ar, horas feitas só pra pensar; o olhar da bisavó, pequenino e por trás dos óculos. O sorriso do avô, belo e exato.
Bolo de lama, brigadeiro de terra batida, enfeite de flor, chá de água da chuva. E pouco a pouco aprende a fugir da tempestade deixando rolar pelo chão as galochas de inverno, meias ensopadas, todas as poças que fazia de rio e oceano.
Pouco a pouco se esquece do chocolate e da serpentina. E entorna pelas ruas a hora de ir para casa, as longas esperas por uma festa e uma viagem. A densidade do tempo presente, que nunca se esgotava. E agora se esvai...
Pouco a pouco deixa rolar o assovio na janela, o rosto por trás das samambaias chamando para jogar queimado, pique-esconde, amarelinha. Deixa rolar pelo chão o medo do mar. A vastidão.
Com o tempo, aprende a se desfazer dos pedaços de seus sonhos. Para comprar um apartamento, para quem sabe morar numa cobertura, e ver tudo do alto e de longe. E ver tudo pequeno e alcançável, digerível.
Pouco a pouco aprende a abrir mão do tempo da eternidade. Do tempo em que tudo é tão grande e inconcebível, e tão próximo e arrebatador. E então, quem sabe por um desejo de novo encantamento, tem filhos.
Julia Duque Estrada nasceu no Rio de Janeiro, em 1977. É jornalista, mestre em Letras pela PUC-Rio, e escreve no blog http://balaiodajulia.blogspot.com/