junho/2011 Maquiagem por Rafael Daud
Pequena peça para as Satyrianas 2007

Personagens
MULHER
MAQUIADOR - uma mulher, na verdade, chamada Veridiana


Peça para duas atrizes. De fato, é só um monólogo e exige pouco ou nenhum cenário, só uma cadeira e talvez uma mesinha. A mulher, que fala, está sentada e é maquiada pela outra. Ela está perfeitamente voltada para a plateia, de forma que a mulher que a maquia está quase o tempo todo de obstáculo. Todas as falas das personagens são feitas assim, e o monólogo é desfiado inteiro enquanto a outra mulher maquia a primeira. Em função disso, a preocupação com a acústica do teatro deve ser principal, e alguns locais de apresentação vão exigir uma mudança nas marcações, sob pena de tornar as personagens inaudíveis de todo. Não é esse o objetivo.

A maquiagem deve ser extremamente cuidadosa e feita gradativamente. Começa no início da peça e termina quase quando a peça acaba. Não é necessário que durante todo o tempo a maquiadora esteja debruçada sobre o rosto da mulher, mas apenas que esteja ocupada com fazer a maquiagem o tempo todo, e não falando ou fazendo outra coisa, ou se distraindo com qualquer outra coisa, ou mesmo descansando. A maquiagem é uma ocupação sua, e a única.

Onde a rubrica marcar “Sinal”, significa um sinal comum de teatro, dos que indicam a aproximação do início de uma peça. Haverá três vezes a rubrica, como são três os sinais do teatro, o primeiro sinal único, depois duplo, depois triplo.

Onde o texto for grafado em itálico, é para marcar uma mudança de entonação ou de acento na voz, conforme o contexto, mas isso é só uma sugestão de interpretação e não aparece mais que um par de vezes. Embora seja um monólogo, no geral não deve ser dito com pressa, mas pausadamente, como numa conversa informal e despreocupada.

A MULHER está sentada em sua cadeira, em silêncio. Entra o MAQUIADOR, coloca-se diante da MULHER, de costas para a plateia ou um pouco de lado apenas, e começa a maquiagem. Começa o monólogo.

MULHER: Eu não pertenço à sociedade. Embora numa observação mais superficial assim possa parecer. Eu não nasci assim. Atingi esta posição a muito custo, e é por isso que não sou muito de me curvar. No entanto, sou gente, e compartilho de tudo o que toda gente compartilha. É por isso que, se me convidam a uma festa, a uma reunião ou a um encontro que por qualquer motivo eu considere um acontecimento, não deixo de ir. Mas isto não significa que pertenço à sociedade.

O sentimento de pertença, pertença ao que quer que seja, é muito humano, também. Por isso eu não deixo de senti-lo. Dessa forma, pertenço àquela classe de pessoas que podem ser consideradas deslocadas. Embora eu não goste dessa palavra: não é que eu tenha sido deslocada por algum acidente de percurso, ou que tenha encontrado dificuldades em me colocar na sociedade. Ao contrário, isso teria sido muito simples, eu é que não quis. Como disse, lutei muito por esta posição, e se fiz isso é porque optei por ser assim.

Gosto como vivo. Se há um evento, posso frequentá-lo como posso bem não frequentá-lo. Isto se chama liberdade. Não faço questão que me convidem; aliás, quando deixo de ir a algum lugar, não é, como fazem certas pessoas de meu conhecimento, para que minha falta seja sentida, para que valorizem mais minha presença, e que, por essa razão, eu seja convidada a um número cada vez maior de eventos. Pelo mesmo raciocínio, não faço distinção de importância entre os variados tipos de eventos, não considero que alguns me renderão mais pontos do que outros, os pontos que são computados para as listas de casamento e as malas diretas dos artistas.

Sinal.

Falo dos artistas porque tenho preferência por suas vernissages, estreias e lançamentos, e acho suas festas de um modo geral mais alegres. É evidente que não deixo também de ser convidada a um número de eventos mais restrito. Esses eventos são promovidos por empresários e industriais de áreas diversas, assim como toda sorte de indivíduos e organizações que optam por manter suas atividades mais sigilosas em relação ao grande público. Isso não os impede, como se vê, de oferecer festas em que  esses mesmos sigilos possam ser apresentados como tais.

Mas não se engane, mantenho minhas opiniões muito firmes. Sei do que gosto, e não me acanho de expressar essas opiniões quando acho que se aplicam. Não tenho medo ou pudor de ferir uns egos nem receio de ser malquista em lugar algum. As opiniões são para ser defendidas e sem elas nos resta muito pouco. Não tenho o menor respeito por aqueles que evitam uma discussão a todo custo, só para não causar um desafeto. Julgo tratar-se realmente, nesses casos, de uma deficiência moral de tais pessoas.

Desafetos, tenho muitos. Mas não perco meu precioso tempinho a falar do que me desagrada. Antes, falo só do que me agrada. Você quer saber o que me agrada?

MAQUIADOR: Sim, senhora.

MULHER: Muito bem. Me agradam os homens. Sei o que você vai dizer, que a maioria deles não passam de uns grosseiros, irritantes, e egocêntricos. Não é que eles me sirvam de outro modo, mas também não que não sirvam [ar de malícia.]. Mas essa é só a maioria, e eu sou uma pessoa distinta. Sendo assim, privo da companhia de pessoas igualmente distintas.

Adoro ser presenteada e presentear. Os presentes são a forma mais antiga de interação social criada pela humanidade, muito antes do comércio e das relações de troca direta. Os presentes são a forma que as pessoas encontraram de expressar materialmente seus sentimentos pelas outras. Deus surgiu a Abraão [sic; ainda que a figura histórica seja Moisés] e não lhe deu um conselho, não lhe ensinou uma propriedade matemática, ou uma lei da física. Isso os homens podiam obter por si próprios. Ele deu-lhe um presente, os dez mandamentos, para que assim pudesse organizar a futura sociedade. Assim Deus também não pediu que dissesse a Ele o quanto O amava, mas exigiu um sacrifício. Os presentes, minha amiga, são a base e o fundamento de qualquer relação pessoal. Qualquer sociedade depende inteiramente disso, e nem mesmo eu posso passar sem eles.

Não que se deva considerar meu modo de vida uma dádiva. Quando se recebe uma herança, não significa uma dispensa de qualquer trabalho, mas que se está obrigado a trabalhar para preservá-la.

Sinal duplo.

MAQUIADOR: Sim, senhora.

MULHER: Quando um homem lhe dá um presente, expressa tudo o que sente por você. Eu lhe digo, pelo presente sabemos com segurança se estamos sendo amadas ou não. Não que precise ser nada caro, não é o valor material que importa, aí está a beleza da coisa: importa o trabalho que ele teve para consegui-lo. Se for algo raro, melhor ainda.

Certa vez, namorei um poeta. Depois de alguns meses, ele me entregou um caderno, todo manuscrito, e disse: eu não sabia o que era a poesia até conhecer-te. De hoje em diante, tudo que eu escrever será para ti. Neste caderno estão meus melhores poemas, e são teus. Eu não possuo uma cópia desse caderno, nem poderia reproduzi-lo de memória, mas ele é teu. Faz dele o que bem entenderes, e eu te serei grato de qualquer forma. Eram os melhores poemas dele, e se eu assim quisesse ele nunca poderia sequer relê-los. Eu mesma os teria mandado publicar, mas... não eram mesmo bons, e os guardei em uma gaveta. Não me lembro onde estão, mas tenho certeza de que não os joguei fora. Eram algo precioso, de todo modo, e tratei de conservá-los comigo.

É seguindo o mesmo raciocínio que podemos perceber o quanto amamos e de que modo amamos: pelos presentes que escolhemos.

Mas há muitos anos eu escolho sempre os mesmos presentes. Vou às mesmas lojas e escolho as mesmas camisas, os mesmos relógios, ou só um pouco diferentes, os mesmos cartões postais, as mesmas flores. Isso diz algo do tipo de homem que tem me atraído, não?

De quando em quando me bate uma esperança, penso em alguém com uma ternura diferente, meu coração acelera, nessas horas me animo a procurar outras coisas, e tento escolher para meu amante ou pretendente um presente que demonstre com sinceridade o que sinto, busco coisas inéditas, coisas nunca antes vistas. A tecnologia ajuda um pouco, nesse caso. Mas inevitavelmente me decepciono, confundo minha expectativa com o estado de coisas real, e me deparo com uma realidade decepcionante. Os amantes não eram tudo o que eu esperava, tão egoístas, imaturos, preocupados com seus próprios umbigos, e não sabem tratar uma mulher. Às vezes, duram um pouco, mas a realidade finalmente se impõe e eu retorno aos amantes de sempre, aos presentes de sempre. Esses, não decepcionam nunca, pois se não são tão ruins, também nunca esperamos demais deles. E não podemos dizer que não estamos satisfeitas.

Sinal triplo.

MULHER: Estou pronta?

MAQUIADOR: Sim, senhora.

Ela levanta-se e vemos finalmente com clareza a maquiagem. Ela parece uma mulher mais velha, muito mais velha do que era ao início, não ainda idosa, mas já beirando a decadência e a senilidade. O MAQUIADOR dá a volta na cadeira, recolhe os objetos de maquiagem e faz menção de sair, na direção do fundo do palco. A MULHER, que ainda estava de frente para a plateia, vira-se e o detém, interpelando-o.


MULHER: Veridiana?

O MAQUIADOR detém-se, se vira e está agora de frente para a plateia. A mulher continua de costas para o público [é possível estabelecer-se um ângulo, caso necessário, para permitir que suas palavras sejam claramente audíveis por todos]. As duas atrizes não estão alinhadas perpendicularmente ao palco, de modo que o maquiador é perfeitamente visível e está voltado para a plateia, sem expressar emoção alguma, apenas aguarda.


MAQUIADOR: Sim, senhora.

A próxima fala é dita ainda mais detidamente que o resto, como-se se tratasse de uma lição importante.


MULHER: Escute uma coisa antes de ir, Veridiana. O hipócrita continua a sê-lo, e de boa consciência, até a hora que alguma coisa o atinja com violência, uma emoção que o comova, um fato trágico. Então, se sente desculpado, e pode deixar de ser hipócrita.

MAQUIADOR: Sim, senhora.

Sai o maquiador. A mulher volta-se para o público, mas fala para si.


MULHER: Amanhã conversamos mais.

Blecaute.


Minibio
Rafael Rocha Daud é poeta, além de psicanalista. Foi organizador da FLAP nas últimas três edições. Tem publicado em diversas revistas desde 1999 (entre elas a Cult, em São Paulo, DiVersos, em Lisboa, e Punto de Partida, em México D.F.). Seu livro de estreia, Poemas para o Século XX, aguarda publicação ansiosamente, o que deverá ocorrer nas próximas semanas.

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