março/2010 O Degrau por Victoria Saramago
Pensar, pensar e não poder viver!
Pensar, sempre pensar, perenemente,
Sem poder ter mão nele. Ah, eu sorrio
Quando por vezes noto o inconsciente
Riso vazio do bandido
Rindo-se da inocência! Se ele soubesse
O que é perder a inocência toda...
Fernando Pessoa, Fausto




Eu não tinha a menor vontade de pensar demais. Por isso fiz do jeito que fiz.
Minha universidade tem duas entradas. A primeira em frente a uma imensa passarela cuja outra ponta é a estação de metrô. A segunda, a principal talvez – esta a servem os ônibus. A primeira começa com uma escada de vinte degraus, depois um caminho de pedras portuguesas, depois uma descida de dezoito degraus para em seguida uma subida de três e por fim um último, o tiro de misericórdia. Vou dizer, é muito degrau, joelho meu não aguenta.
A segunda entrada não tem degraus, nenhum, do início ao fim: o portão de ferro, a entrada-saída dos carros, a calçada baixa e o enfim edifício. Por essa mesma que eu havia de entrar. Detesto degraus.
Meus joelhos doíam. Peguei o metrô, não suportava mais subir nos ônibus. No metrô ao menos há como que elevadores – só para os de cadeiras de rodas, é verdade, mas os funcionário me observam, me compreendem, me permitem a entrada. Tenho medo de um dia ficar paralítico. É o seu destino, me dissera certa vez um moleque que eu odiava. Não acreditei. Mas por mancar tanto agora, e por meus joelhos me mobilizarem tão intensamente a atenção, e por estar há tantas semanas longe das salas de aula e me parecer às vezes a universidade um grande amontoado de blocos amorfos a me espiarem curiosos, por tudo isso eu desci a rampa no susto de um perseguido por uma penca de fantasmas. E por isso mesmo talvez me tenha vindo de novo à cabeça o fantasma de meu pai me implorando para seguir em frente. Pois em frente eu seguia, mas o fantasma eu o afastava. Não quero pensar.
Desci a rampa vagaroso, as memórias rentes aos meus calcanhares, atingi a primeira entrada evitando lançar um olhar que fosse à escadaria – isso não é para mim, repetia comigo, não posso mais – e contornando a metade do terreno pela rua, as grades de ferro e os muros rentes aos meus calcanhares pois neles agora eu me apoiava para seguir em frente até a segunda entrada, a entrada sem degraus. O sol me batendo na cara dava vontade de deitar e ficar calado o resto da vida. Não deve ser tão difícil trancar uma matrícula, parar a faculdade. Meia dúzia de documentos, assinatura e pronto liberdade. Você já é maior de idade, Ícaro, você sabe, eu não posso fazer mais nada – e eu o afastava. Meus calcanhares queriam doer com os joelhos e por isso mesmo eu apressava o passo querendo entretanto andar lento e mais lento.
Atingi afinal o grande portão de ferro que nem tão grande era assim, e dentro do edifício por ser tão mais fresco subi a primeira rampa tranquilo e sentei um minuto numa grande rodela de concreto cravada no chão. Era um alívio. A matrícula se trancava em instantes quem sabe. Meu joelho doía menos, já quase dava para me importar mais com o calor e com as coisas da faculdade.
A coisas da faculdade.
Minha universidade tem doze andares. Divididos em seis blocos que se interligam por meio de rampas e pequenas passarelas. Minha universidade é cinza e completamente cinza, mas de um cinza claro. Um bloco maior fica num nível um pouco acima dos outros, de modo que o caminhante pode ir subindo pelas rampas passando de um bloco a outro e de outro a um, como se fora uma escada espiralada. A escada aliás de fato existe, e fica bem do centro do centro de toda a universidade. Para ser sincero, o umbigo da universidade é a escada, as rampas lhe correndo soltas ao redor por todos os cantos, pelos dois lados da escada, pelos blocos menores. A escada, como qualquer um lá dentro o sabe, é, depois dos elevadores, a locomoção mais rápida, ainda que normalmente preterida: os passantes despreocupados deslizam suaves pelas rampas, o vai-vem a lhes escorregar sob os pés como escorrega também o tempo quando a gente se põe a descer e descer interminavelmente por tantos andares e tantos institutos e lanchonetes e lojas e estudantes de todas as espécies por cada nível, a gente espia esses como que outros universos abaixo de nós, as outras universidades, a descida, os andares inferiores sucedendo-se até o primeiro andar onde não há nada senão uma meia dúzia de secretarias e por fim o térreo onde há o que interessa: a saída.
Na saída eu me encontrava agora mas estava na verdade é na entrada, por haver tanto o que fazer aqui dentro. As pessoas passavam e se amontoavam pelas portas dos elevadores, o início do turno da noite – a pior hora. Vou trancar a matrícula, não posso, não aguento mais.Você tem de seguir adiante, filho, tem de ir mais longe do que eu fui, tem de aproveitar as oportunidades que eu não tive, as cotas, ele estalava nos meus ouvidos. Jura que fará isso, Ícaro, jura, jura, ele repetia, e eu de fato jurara uma vez, mas só uma. Idiota. Não queria pensar. Dos oito elevadores, apenas três circulavam. Greve dos funcionários, o que seja, pouco importa. Meus joelhos não estavam tão ruins no fim das contas, daí que me deu na veneta: vou de rampa.
No primeiro andar era onde primeiro tinha de passar para me informar do trancamento. Subi um lance de rampa e depois outro, avistei lá longe uma garota que me dera uns beijos numa dessas chopadas aí da vida mas ela não me viu, ainda bem pois subi mais um lance e lá estava eu no primeiro andar. Detesto ser canalha com as pessoas, às vezes é tão necessário no entanto. Às vezes quebram-se os juramentos. Idiota. Pois era bem essa palavra me martelando a cabeça quando, alguns minutos mais tarde, já tendo chegado à secretaria após dobrar a direta ao atingir enfim o segundo bloco do primeiro andar, quando já tendo obtido de um senhor grisalho atrás do balcão a informação – inscreva-se nas disciplinas normalmente, depois espere o período de trancamento, volte aqui, preencha o formulário e está tudo certo – nesses poucos minutos depois eu pensava que não queria mais pensar que talvez no fundo fosse um idiota.
Subi pelas rampas os andares um a um, fazendo entretanto o percurso inverso ao dos meus desejos a me puxarem para baixo, para a saída. Meus joelhos prosseguiam, e doiam. Não encontrei mais ninguém conhecido. O quinto, o sexto, o oitavo andar se sucediam em máquinas de xerox espalhadas pelos cantos e estudantes como eu passando para cá e para lá, iguais e distraídos como se mancassem, como se tão doloridos os seus joelhos quanto os meus próprios. E quem me garante não mancavam mesmo?, martelava: uma pessoa parada em frente ao mural de anúncios bebendo um copo de café quem sabe não manca tanto quanto eu. O vento batia às vezes; era o início da noite, as rampas ficavam ao ar livre, eu prestes a alcançar o nono andar, ala da esquerda – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Filosofia. Vou trancar a matrícula.
- Vou trancar a matrícula – informei ao Tiago no que o reparei no canto da sala. Compenetrado examinando o teste que quase o reprovara.
- E quase te reprovou também – ele me rebateu, entregando-me a folha de papel toda riscada a caneta vermelha por cima dos meus modestos rabiscos acinzentados. A sala estava quase vazia, só o professor entregando os últimos testes do semestre corrigidos a uns poucos pobres coitados que compareciam à entrega dos resultados para verem confirmados seus receios de reprovação, ou quase.
Quase reprovado. É para qualquer um trancar qualquer matrícula.
- Vou trancar a matrícula – repeti – Não nasci para isso.
- Aparece lá na cantina daqui a pouco. O Otávio, e a Verônica, você sabe. Aparece. – e deixou a sala como se me desse uma piscadela. Às vezes odeio o Tiago, às vezes não o compreendo. E talvez fosse ele o meu melhor amigo. Ou talvez me quisesse ferrar com a vida. A Verônica, ele me dizia tantas vezes, você sabe, podia ser diferente. Seria eu um idiota de acreditar?
Tiago se foi e eu percebi ser quase o único a ocupá-la. Eu, professor e um sujeito meio anônimo, um cara duma outra turma que sabe-se lá por que volta e meia assistia às aulas na nossa e agora, depois de um longo confronto com o professor, no qual justificou o baixo rendimento com razões tão heterogêneas quanto a doença da mãe e a sua peculiar compreensão da verdade e da mentira em Nietzsche, deixou-me a sós com o professor.
- Pois então – ele me respondeu ao meu silêncio. Parecia cansado. – Estou cansado, Ícaro, muito. Já não vou ficar passando trabalhos finais imensos; vocês não merecem, eu não mereço.
- Minha perna, por isso faltei tanto...
- Eu soube da sua perna, o Tiago contou, todos contaram.
- Vou trancar a matrícula. – Eu precisava provar a todos, todos, sem exceção. Ele me tinha um olhar compreensivo.
- Eu compreendo. – e um minuto em silêncio – Talvez você faça bem. Sair daqui. Não se embrenhar nessa selva...
- Mas acho que vou voltar depois.
Ele ficou um minuto em silêncio e em seguida:
- Melhoras para a sua perna. Vai melhorar. Você é jovem, tem de melhorar. – E nunca na vida ele me parecera tão cansado. – Como te disse, não tenho mais disposição para isso tudo, a greve, o calor. Você não atingiu a nota mínima para passar de ano, preciso te cobrar um trabalho final. É necessário, entende?
- Foi um semestre difícil para mim, essa perna, as semanas em casa, imobilizado. Perdi as aulas, é verdade, mas me liberar desse trabalho, não tem como? Já vou procurar um novo emprego, vai ser difícil, sabe, ter tempo de escrever.
Seu olhar de esguelha me irritava na mesma medida em que me provocava uma certa simpatia. Estávamos no mesmo barco.
- Espero que você consiga se dar bem na vida lá fora. Mas aqui você quase foi reprovado. O trabalho, preciso dele. Você me entende. As coisas têm de ser assim, medida por medida.
Era justo, e por isso abaixei a cabeça de raiva. Não queria pensar, nunca mais. O fantasma do meu pai. Medida por medida: eu lembrava de quando um outro professor fora viajar, semanas e semanas, deixara um monitor em seu lugar. O monitor cumpria tanto as mais mínimas regras quanto o professor jamais se dera o trabalho de cumprir, entrava em sala pontualmente, cobrava as leituras. Até o monitor até se apaixonar pela Verônica. Aí a gente vê para onde vão as medidas, o bom senso. Quem gasta uma hora batendo papo no bar, perdendo o tempo de nós todos, e isso só para estar com ela, só por ela, por uma esperança. Não era justo.
O monitor era o Tiago, na verdade. Na verdade, fora naquela ocasião que ficamos amigos, ele mais velho e mais safo, tão antes de cairmos juntos nessa mesma matéria, de quase repetirmos os dois, antes dele finalmente desistir de ter qualquer coisa com a Verônica, quando éramos só dois moleques rindo e papeando. E no entanto me ocorria vez por outra, talvez fosse já por aquelas semanas primeiras que eu duvidasse poder chamá-lo amigo, melhor amigo.
- É um trabalho simples, – prosseguiu o professor – não vai te tomar muito tempo. Quero é que você faça o seguinte.
E me explicou tão bem quanto eu teria entendido se fosse capaz de lhe prestar alguma atenção. Pois acabara de mover minhas pernas e meus joelhos como que gritaram. Você vai ficar paralítico, me gritara o garoto tantos anos atrás. Você tem de pensar, você nasceu para pensar, me gritara meu pai fazia duas semanas, e mais:
- Se tem alguma coisa que você tem de fazer, Ícaro, alguma coisa para vingar a miséria toda que eu passei nesse país de merda, o tanto de terra que eu comi na vida e o tanto de peso que já carreguei, alguma coisa, Ícaro, para eu poder descansar em paz, e é só isto: você tem de ir à universidade, tem de aproveitar as cotas, tem de sentar na sala de aula, abrir um livro, e pensar. Só pensar. Esse é o teu destino, o destino que eu estou te dando, eu, teu pai. Leva isso adiante, jura.
E eu não tivera coragem de lhe jogar na cara que não, que ficar imóvel meditando feito um idiota não me dava nada mais do que asco. Mas nisso uma professora passou pela sala nos viu e entrou, eu agora sobrando e entretanto sem saber o que fazer, pois o professor no fundo não me liberara, sequer acabar de me explicar o trabalho, e eles dois ali, dois minutos dela conosco e já o papo de sempre daqueles dois. Pois era sempre que a tal professora passava na frente daquele professor era que eles começavam uns papos cada um mais doido que o outro, e era Shakespeare pra cá, e um tal de Stephen Dedalus pra lá, e o que Shakespeares foi e falou do tal do Dedalus ou vice-versa, já nem sei bem, os dois me deixavam é zonzo de dor de cabeça – os professores, digo. Sempre o mesmo tatibitati, e chegava a ser engraçado o jeito que tinham de se envolver e se empolgar na história toda, furiosos com as mesmas questões sempre as mesmas e nada vezes nada havia de mudar com tanto falatório, o jeito quase feliz deles de embarcar nos próprios argumentos tanto quanto me agradaria embarcar no primeiro metrô correndo e sair dali.
- E você concordando com Stephen Dedalus nessas interpretações biografistas – lançava a professora irada – com essa história dele ter escrito poucos meses depois da morte do pai.
- E não o esquece do filho dele.
- Hamnet.
- Tudo interligado, você vê.
- Não vejo nada – daí ela se virou para mim feito um trator, eu com cara de besta – Ele quer provar por álgebra que o neto de Hamlet é o avô de Shakespeare e que ele próprio é o fantasma de seu próprio pai.
A vontade que me dava era de lhe jogar na cara que de fantasma de pai já bastava o meu, mas continuei na minha cara de besta, saindo porém de fininho, um passo aqui outro ali feito uma besta e logo me encontrava ao pé da porta, dali para o corredor era um pulo, e no que meu corpo desaparecia lentamente do campo de visão do professor ele me atirava furioso de alegria sem nem raciocinar mais nada:
- Então, Dedalus, daqui a uma semana o trabalho aqui na minha mesa.
Acenei alegremente com a mão e me livrei. Ainda deu tempo de ouvir um “ele era e se sentia o pai de toda a sua raça!” gritado a plenos pulmões pelo professor já sem nenhum cansaço como se estivesse prestes comandar a frota de um navio. Mas naquele navio eu não embarcava, sorri. É tanta viagem da gente fazer na vida, e até eu retomar a faculdade podiam bem passar uns dez, vinte anos, se é que voltaria. Ao menos tinha certeza de que em qualquer época acabava era esbarrando com uma meia dúzia de professores sempre fazendo e desfazendo os mesmos argumentos, como se pretendessem tecer um grande manto para o qual entretanto nunca encontrassem o desenho certo. Nisso minhas pernas deram um estalo, bamboleei. Teria eu um futuro paralítico?
Dedalus. Que ideia. Como se esse sujeito, Dedalus, como se tivesse mesmo algo a me dizer. Como se desse para aproveitar na vida um pouco que fosse do que esse pessoal todo fica aí falando, esses filósofos, essas histórias. Tudo mito. Porque as pessoas ficam lendo demais e no fim não sabem nada da vida. Porque os livros não ensinam nada da vida, não ajudam ninguém a viver. Dedalus nunca que ia me ensinar nada sobre como lidar com meu pai, aposto. Dedalus devia de ser mais algum deles, aposto, um desses filósofos que ficam aí, querendo todo mundo imóvel na sala de aula raciocinando, até que parecido com o meu pai, aliás, criando altos labirintos para todo mundo é se ferrar mesmo na hora da prova e ter de perder tempo com trabalho final depois. Aposto, devia de ficar cortando as asas da galera, os desejos. Eu quero é vida, e pensar não é vida – taí, essa frase podia botar numa camiseta.
Meus joelhos fraquejaram no que abri a porta da biblioteca. Tinha de ser breve: o pessoal me esperava na cantina e não seria por muito mais tempo, já tinham demorado séculos ali enquanto eu ouvia os professores de filosofia falando e falando de literatura – que cisma que esse pessoal de filosofia tem com literatura: aposto que na faculdade de letras ninguém ficava assim, falando de filosofia o tempo todo. Por isso cada coisa no seu lugar, eu repetia sempre, e o meu lugar pelos próximos dez minutos eram as estantes empoeiradas da biblioteca.
A biblioteca do nono andar não tinha ar condicionado, não tinha ventilador. Era o final de janeiro, uma noite do auge do verão. Eu, se já não costumava frequentá-la durante todo o ano, nessas épocas fugia ao máximo daquele abafamento, o ar parado por entre os livros, mofando como eles todos, o sol passando através das estantes e a gente suando em bicas em meio ao mofo. Porque estante de livro velho é mofo, e muitas estantes de livros muito velhos era mofo demais. Eis a biblioteca.
Quando entrei achei-a até bem vazia para um fim de semestre. O que, longe de me inspirar uma qualquer tranquilidade, me dava era a impressão dum desolamento total. Deixei minha pasta no armário, dispensei a consulta no computador e, entrando na sala principal, fui direto a dois bibliotecários que, aboletados num canto, repassavam os livros de um carrinho para as estantes.
- Quer ajuda?
- Sabe onde acho as Meditações?
- Descartes?
- Isso.
- Um minuto.
Um deles saiu então em busca pelas prateleiras. Normalmente eu o acompanharia para dar um apoio moral, mas naquele dia a preguiça e as minhas pernas me venceram. Respirei fundo de desânimo. O ar da biblioteca era nauseabundo, dava uma sonolência dos diabos, uma falta de ar, sei lá mais o quê. Havia algo ali de muito parado, como se um cemitério, como se aqueles dois bibliotecários diariamente curvado sobre o tanto de papel, como se dois coveiros. A ideia até me parecia divertida. Aproximei-me do carrinho e meu joelho esquerdo estalou. Segurei um gemido e segurei também um livro nas mãos. Era o livro de filosofia do meu segundo grau, dos tempos da escola. Dava até um estranhamento pegar nele agora, a capa avermelhada, e de quanta coisa dali eu gostara, quanto tirara nas horas vagas no ônibus, lendo. Nessa época ler era bom, era reconfortante. Quem sabe até essa ideia louca de estudar filosofia não começara ali – é verdade que a relação candidato/vaga no vestibular me incentivara mais. Alguma faculdade, Ícaro, qualquer uma, ele me repetia, o fantasma, o meu pai: quero te ver doutor de canudo na mão, só isso. E eu com filosofia, um idiota, com aquele livro na mão que de tão velho e remendado a base de fita crepe e com as pontas das páginas todas carcomidas mais parecia um defunto, isso mesmo, uma carcaça velha sem mais sentido algum. Suspirei, a preguiça, o desânimo. Preciso agitar a vida, e o bibliotecário voltava assobiando feliz da vida para me entregar outro volume despedaçado, coitado, mais parecia era sobrevivente dum naufrágio.
- Obrigado.
- Não tem de quê. É isso aí, penso logo existo. Esse cara é do caralho.
Concordei não muito convicto e me afastei. Penso logo existo. Filhodaputa.
A bibliotecária que fazia os empréstimos fora minha vizinha durante toda a minha infância. Dona Nanô. Eram três irmãs que moravam juntas e trabalhavam todas na universidade: uma bibliotecária, outra garçonete no décimo primeiro andar e outra ascensorista. Dona Nanô era a mais simpática, sempre puxava papo, perguntava do meu pai, da minha mãe.
- Vou trancar a matrícula. – informei-lhe.
Ela me encarou por um instante:
- Sabe, Ícaro, teu pai quer que você se forme, mas tem mais é que aproveitar que você é jovem, e trabalhar, meu filho, e fazer teu pé de meia. Depois você perde o bonde, e aí quem vai te ajudar? Agora ninguém depende de ti, mas daqui a pouco você faz família, aí a coisa pega.
- Tem a minha namorada, a gente quer casar.
- Beth, não é?
- Isso.
- Menina batalhadora também, determinada. Vocês dois vão longe, escreve o que te digo. Muito futuro pela frente.
Saí alegre com o livro-cadáver nas mãos. Tão bom os outros saberem às vezes ser otimistas. Só um pouco já basta, só pra gente se acostumar com as próprias decisões.
Deslizei dois andares de rampa para cima até o décimo primeiro, abrindo espaço por entre os passantes. Uns iam de rampa, outros pegavam a escada ao lado, a escada do centro do centro. Uns e outros, observava-os e vinha a impressão de mancarem todos como eu, de terem como eu os joelhos doloridos, os ossos estalados, as pernas tortas. Todo mundo manca um pouco, pensei, quem sabe, a gente que não repara. Se evitam os degraus é porque são prudentes, se os buscam é porque são orgulhosos. Uns chegarão lá em cima mais rápido, mas no fim acaba todo mundo no mesmo lugar. Mais uma frase para a série das minhas camisetas jamais feitas. Podia ter sido publicitário.
Na cantina do décimo primeiro o pessoal já estava num alto papo quando afinal os avistei. Larguei minhas tralhas numa cadeira e fui ao balcão, a irmã da Dona Nanô e a pergunta sobre os meus pais.
- Tranco a faculdade. – informei-lhe.
- Não devia fazer isso assim, na pressa. Dá pra levar os dois pensa bem. Depois você não perde o tempo que passou aqui, e ainda sai de diploma na mão.
- É a Beth, quer casar.
- Ela é obstinada.
- Mas não é por ela só, pelo casamento. Sou eu.
E voltei à mesa com um pastel e um refresco na mão. Pensei em pedir um joelho, mas me pareceu inadequado porque meio irônico. Na mesa todos haviam comido, meus colegas da faculdade, o Tiago, o Otávio, a Verônica.
A pessoas da faculdade.
Eu e o Otávio entramos no primeiro ano em que abriram cotas na universidade para negros e alunos de escola pública. Fomos sempre da mesma turma junto com a Verônica. A Verônica ninguém entendia como fora parar ali. Patricinha do Leblon de unhas vermelhas e cabelo alourado, filha do dono de um escritório de advocacia, esse tipo que caga dinheiro, um rei. A Verônica ninguém sabia o que ela queria. O Otávio a gente sabia. De todos nós, o Otávio era o mais pobre, o mais preto e o mais gênio. Era ele começar a filosofar e todo calava a boca para ouvir. Bizarro. O tipo de cara que nasceu com uma estrela grudada na testa. Quando começou a namorar a Verônica a gente desistiu de tentar competir com ele no que quer que fosse. E o mais engraçado é que o sujeito tinha um puta complexo de inferioridade, vivia se desculpando, como se não merecesse o que conquistara. Enfim, tem louco para tudo. E o Tiago louco pela Verônica desde aquela matéria em que foi monitor na nossa turma, o Tiago na raiva calada, na espera.
- Qual era a fofoca, Verônica? - eu perdera o bonde andando da história complicada que ela contava aos detalhes desde o tempo em que eu ouvia o professor me explicar o trabalho final.
- Não é fofoca, Ícaro, é meu pai. Meio maluco ele, está ficando, tenho certeza. Não pode ser normal, não dá para dizer que ele tem a cabeça no lugar, ultimamente.
- Mas por quê?
Era um caso chato. Ela tinha mais duas irmãs, as duas advogadas, querendo o escritório todo para elas, alegando que sabiam o que fazer com ele, que a Verônica escolhera filosofia e não tinha mais nada a ver com o mundo dos negócios.
- E o pior é que ele ouve cada mentira delas, acredita, Ícaro? Pensa que eu não mereço nada mesmo da grana dele, que fico aqui o dia todo sem fazer nada, só falta me dizer que sou uma vagabunda. Eu que sempre segui o que ele no fundo mais gostava, a filosofia, os livros, e agora só porque eu não ganho rios de dinheiro feito elas, só porque eu não alimentei esse que é o pior lado da família, o mais mesquinho, o mais podre, só por isso ele agora vem me dizer que não me esforço, que não valho nada.
Estando ela a ponto de chorar, o Otávio abraçou-a forte:
- Vai passar, querida, ele vai entender.
E se acabavam os dois em carinhos e mais abraços. Nisso o Tiago me sussurrava:
- O problema verdadeiro você sabe, né, Ícaro. - Eu imaginava bem o que ele havia me argumentar. - O problema é esse caso de Romeu e Julieta que ela teima em ter com esse moleque. Eles são de dois mundos opostos, não tem como, não dá pé.
- Eles são felizes.
- Felizes até ela virar para o lado e inventar que não quer mais nada. Pode acreditar.
- Ninguém sabe o que a Verônica quer de verdade.
- Eu sei o que ela quer. Você sabe também, não vem me dizer que não. Ela quer é um sujeito tranquilo e boa-pinta, assim, tipo como você.
- Ou como você.
- Sim, mas eu já tentei e ela já disse que não. Você nunca tentou. Mas sabe duma coisa? Vocês até que davam juntos, ficava bem.
Já não era a primeira vez que o Tiago vinha com esses papos. Que você tinha futuro com ela, Ícaro, que você tinha de investir, que ela não pode ficar o resto da vida apaixonada por um sujeito feito o Otávio, que isso passa. E eu com a Beth, a gente para casar, e o Tiago me botando pilha para cima da Verônica, e pior era eu pensar vez por outra, quem sabe ele não tinha razão, quem sabe não era isso mesmo, a Verônica no fundo feita para mim e eu ali fingindo que não compreendia nada, me fazendo de idiota. Porque é tão fácil se fazer de idiota.
- Daqui a pouco acaba logo essa faculdade, meu bem. – O Otávio prosseguia no consolo à menina. - Daqui a pouco a gente se forma e arruma um emprego e cai fora desse negócio, você foge dessa tua família e fica tudo certo.
E o Tiago sorrindo de canto de boca nos sussurros por debaixo dos panos:
- Que fofo. É mesmo um caso de Romeu e Julieta.
- De repente é.
- É porra nenhuma. Agarra essa garota, cara, não perde a chance. É o que te digo.
E nisso eu observava a Verônica na pele muito branca em contraste com a pele muito negra do Otávio, e me dava uma sensação de estar tudo certo, de ser assim mesmo que as coisas tinham de correr, que direito teria eu de tentar mudar? O que não me impedia de olhar a Verônica e pensar também que tudo poderia ter sido – ou ainda ser – diferente.
- Tudo pode ser diferente se você quiser. – me confirmava os pensamentos o Tiago.
Mas tudo já fora diferente. Eu, a Beth, a Verônica, o Otávio. Muita água rolada. Eu não queria pensar. O Otávio aposto não pensava mais. Ninguém tem por que pensar na Beth tendo a Verônica do lado. Nem tem por que escolher a Beth podendo ficar com a Verônica.
Mas o Otávio, não sei se ele lembrava. Fora no segundo período da faculdade, uma das primeiras chopadas, uma noite de verão como esta, o calor. O Tiago não estava, nunca soube de nada. A Beth já afim de mim, eu afim da Verônica, o Otávio afim da Verônica também. O Otávio podia qualquer coisa, ninguém que ia competir com ele. A Verônica não dá para saber o que se passa na sua cabeça. A Beth apaixonada por mim, loucamente. E nós bêbados, todos, tortos feito gambás, e as garrafas de cerveja abrindo faziam Puck Puck Puck. Um sonho é o que parecia, ninguém mais respondendo por si, como se só acordando no dia seguinte para resolver espremer um pouco os miolos e tirar qualquer mínimo raciocínio. A Beth me amava. O Otávio tinha ficado com a Verônica há pouco, coisa de umas semanas. Só tinha olhos para ela, óbvio. Mas o Otávio, que aliás quase nunca bebia, o Otávio estava louco. Agarrava a Verônica e eu ali na frente ainda meio ressentido de tê-la perdido, as garrafas no Puck Puck e Beth atrás de mim feito um gambá. Nisso o tempo passou e mais tanto tempo e nem sei mais como explicar, porque o bêbado também era eu, e o tempo passava à minha volta e as pessoas passavam à minha volta e de repente passou o Otávio agarrado com a Beth à minha volta e a Verônica nem sei mais onde tinha se metido, mas não estava à minha volta, porque em frente – bem em frente – aos meus olhos eu via era o Otávio nos beijos com a Beth e ela apesar de me amar e me seguir feito um cachorro, a Beth parece que gostava demais daquilo, de estar com o Otávio. Daí me deu uma raiva louca que eu pensei, ah, mais essa não dá pé, daí abri outra garrafa e mais um Puck, o último, e cheguei para o Otávio, educado porque no fim das contas com esse sujeito ninguém compete, a estrela grudada na testa, cheguei para ele e falei alto ou baixo, não lembro:
- O que tu quer com a minha mulher?
Nisso o Otávio se afastou cheio de vergonha porque percebeu ser errado, e a Beth se aproximou cheia de esperança porque percebeu meus ciúmes, e o primeiro beijo que lhe dei ali mesmo era também a sentença de morte para a minha faculdade, porque eu sabia já que a partir dali não ia mais ter filosofia nenhuma me segurando imóvel na sala de aula enquanto minhas pernas já doíam e enquanto me restasse vontade de trabalhar e viver com aquela garota.
Foi mais ou menos assim. Lembro de pouca coisa, mas disso lembro. Lembro de sairmos nós quatro quase ao mesmo tempo, o Otávio e a Verônica para um lado, eu e a Beth para o outro, e parecia tudo arranjado como se o Puck Puck Puck das cervejas nos tivesse apertando os parafusos na medida certa, pois agora cada um amava quem devia e não tinha mais motivo para pensar naquela noite de verão, ficava tudo na base do sonho que a ressaca levou embora.
O Tiago não sabia de nada, mas perturbava. Levantava sem saber a lebre adormecida naquela noite, os desejos todos segurados a duras penas há já quase um ano e meio. Porque no fundo eu gostava da Verônica, e o Tiago gostava da Verônica, e a Verônica mesmo sendo imprevisível gostava do Otávio, e o Otávio era um gênio. Daí nós quatro em silêncio por aqueles minutos e eu sentia a tensão crescer, a agonia de cada um no seu posto e não havendo mais como mudar a situação, cada qual representando seu papel no drama estático que formávamos, pois não cabia a ninguém fazer mais nada, só pensar no que poderia ter sido ou no que não mais seria, pois acontecera daquele jeito e assim seguiria pelas nossas vidas. A faculdade me deixava louco, eu às vezes sentia. Me deixava caduco. Até ali, até nos meus amigos, nos meus amores, até ali eu terminava era sentado numa cadeira com um guardanapo engordurado e um copo de plástico vazio e mais meia dúzia de pessoas que não me deixavam respirar com suas intrigas, como tudo o que ficava por detrás e que eu não ousava tocar, eu asfixiado com aquela história quase como se de volta à biblioteca, e não queria pensar, não, nunca mais, até que me deu um nervoso descomunal e levantei da cadeira num jato e me despedi das pessoas para, num jato de quem manca e uiva de tanta dor nos meus joelhos e no resto do que fosse eu, caminhar para o elevador em meio aos outros mancos.
Nisso atravessei a entrada das rampas, a escada no centro imperativa como sempre, e descer de escada nem era tanto esforço quanto subir mas agora eu já não podia mais, dava raiva, isso sim, as pessoas apressadas pelos degraus morrendo por subir e subir, a stairway to heaven, era o que mais parecia, a ambição e a pressa, e às vezes me parecia que naquela universidade no fim das contas ninguém fazia mais que caminhar, que circular e circular para cima e para baixo, pelas rampas e pelos degraus, o pensamento tão pouco quanto pouca era a minha paciência de agora esperar o elevador sempre atrasado, é tanto que a gente espera e tão que anda e tão pouco que raciocina, me parecia agora, e ainda assim o fantasma do pai lá, firme como os fantasmas só eles sabem fazer, era aqui que você tinha de estar, Ícaro, esse é o seu destino e você foge dele, por quê? Você vai ficar paralítico, isso todos sabemos, o teu inimigo de infância sabia, e não vai te restar a opção nunca mais de trabalhar de atendente numa loja ou de secretário num escritório, não vai te restar opção nenhuma para o resto do mundo, teus joelhos doem, e ainda assim esta universidade tem rampas, e ainda tem você uns miolos que, se espremidos, devem render mais que umas garrafas de cervejas em seus Puck Puck Puck.
- Que tal uma cervejinha, Ícaro?
Era o Ulysses se aproximando às minhas costas. Doutorando, já, esse já subira muitas vezes aquelas escadarias desde os tempos da faculdade. Alto, a barba e os cabelos longos e grisalhos, falava de Pasolini na África e reiterava:
- Já é quase fim de semana. Uma cerveja?
- Acho que não hoje, Ulysses.
Nisso o elevador chegou, comandado pela segunda irmã de Dona Nanô. Pelo visto se comunicara com as irmãs nesse meio tempo, pois já chegou perguntando:
- Vai trancar a matrícula por quê, Ícaro?
- Estou cansado de pensar.
- Como assim?
- Quero fazer alguma coisa.
Ela me encarava cética:
- Não é assim que a gente faz as coisas, menino. Você pode se arrepender depois.
Nisso o Ulysses ouvindo nosso papo concordava e não concordava:
- Tem tempo de fazer os dois, talvez.
- De qualquer forma você é um rapaz inteligente, vai ser bom no que fizer. - As irmãs Nanô sempre tão otimistas, dava até vontade de acreditar em suas palavras e esperar um futuro grandioso.
- Só cuidado para não se enrolar demais nesses projetos grandiosos que você fica bolando e depois pôr tudo a perder. – Lembrava o Ulysses – pode levar tempo para voltar para essa faculdade, mas volte. - E nisso sorriu.
Fiquei agoniado. Era muita gente me falando muita coisa. Era o meu pai falando por cima de todo mundo. Era a minha consciência por cima do meu pai, e por cima de tudo a dor acachapante nas minhas pernas que não me deixava pensar em mais nada senão fugir, senão desaparecer dali o quanto antes e aproveitar a pouca distância que ainda me seria permitido caminhar, aproveitá-la longe, ainda que por fingimento, fingir que me cabia uma vida como a dos outros, a minha vida antes das cotas para negros me colocarem a universidade no meio do caminho, a minha vida quando eu não pensava em mais do que ser um ajudante de assistente em qualquer canto, quando essa perspectiva ainda não era tão pouca aos olhos dos outros, quando os outros a aceitavam felizes.
O elevador descia no que me desciam as energias restantes, e ao chegarmos ao térreo, despedindo-me da irmã Nanô e do Ulysses como se quiçá fosse a última vez – apesar de ter de voltar lá na semana seguinte para entregar os trabalhos – e escolhi novamente a saída sem degraus, andando novamente rápido e novamente desejando entretanto a lentidão, o caminho agora inverso que eu não desejaria refazer – apesar da certeza íntima de que não, de que voltaria ainda, na época que fosse, porque no fundo eu gostava daquilo, porque no fundo era mesmo onde eu tinha de estar, se é que minhas pernas doíam não mais por acaso, ainda que não, pensando bem, não desejasse mais nada, não desejasse pensar por enquanto talvez por saber que pensaria tanto ainda, e por isso me arrastava semi-paralítico pela última rampa a me conduzir à saída, e pela certeza íntima nem sei mais bem do quê atravessei os portões de ferro e ganhei a rua com alguma alegria.

Capa: Vik Muniz, Prisons VII, the drawbridge, after Piranesi, 2002.
(Fotografia de imagem composta de linha e alfinetes)

Carioca de 1985. Está entre a conclusão do Mestrado em Literatura Brasileira na UERJ e o início do doutorado em Iberian and Latin American Cultures na Stanford University. Teve seu primeiro romance, Renée esfacelada, publicado pela Editora Multifoco em 2007, além de contos em diversas revistas eletrônicas ao longo dos anos. Atualmente, prepara uma antologia de contos e um novo livro, a serem publicados pela Editora Flâneur.
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