



março/2010
Tele-visão
por Rômulo Cyríaco
Rômulo Cyríaco

0025AM. Fernanda Poeta, âncora do telejornal da madrugada da maior emissora de televisão do país apresenta as notícias mais importantes do dia 11.12.2010, seus olhos azuis-escuros lendo com perfeição as palavras rolantes, verdes e eletrônicas do teleprompter.
Por alguns tridimensionais segundos ela sente uma incômoda e crescente sensação de vertigem ao acompanhar o movimento horizontal das palavras no TP e simultaneamente perceber no fundo do estúdio, fora de foco, o incessante corrimento vertical das escadas rolantes que levam ao 4º andar do prédio. Pisca os olhos com força, como para limpar a retina, pressiona a visão focando no texto a ser lido
(...) Pesquisa realizada em Londres revela que em 2010 a quantidade de imagens produzidas diariamente no mundo é 6 bilhões de vezes maior que há 50 anos, 10 bilhões de vezes maior que há 100 anos, e que a tendência é que estes valores se multipliquem cada vez mais (...)
e tenta ignorar o eterno retorno das escadas rolantes.
No curto break, ela ordena à produção que providencie o desligamento temporário das escadas que, hoje especialmente, perturbam o seu equilíbrio no espaço-tempo e deslocam a sua atenção do teleprompter.
Fernanda é uma mulher estonteante, ainda que sua imagem, em píxeis e linhas, seja equilibradamente real. Isso faz com que o espectador consiga imaginá-la nas situações mais comuns do cotidiano de uma pessoa normal, em vez de conectá-la somente a uma imagem ideal, fixa e inalcançável. Ela é alcançável, e uma vez alcançada, forças cinematográficas se desdobram em milhões de possibilidades imaginárias. É possível, sem muito esforço, imaginá-la em atividades absolutamente desprovidas de glamour. Almoçando. Suando. Defecando. Transando. Porém, nessa imaginação se descobre um novo glamour, de uma outra ordem. No instante do término do jornal, créditos rolando verticalmente em alta velocidade na tela, todos os telespectadores, em suas camas e sofás, continuam mirando a TV com o olhar perdido, fascinado, imaginando que, após o último corte que leva aos comerciais, Fernanda fala calmamente algumas coisas para a equipe que se escondia por trás das câmeras, faz algumas anotações, dá boa noite a todos, o estúdio em silêncio, as pessoas do turno da noite ainda trabalhando em seus computadores, ela junta suas coisas e segue para o estacionamento escuro e deserto.
Talvez em sua bolsa LV haja um pacote de camisinhas. Ninguém sabe.
Fernanda sai do prédio da emissora à 0122AM, entrando sozinha em seu Chrysler 300C preto, impecavelmente vestida e maquiada. Saia preta, longa, justa, blazer verde-cinza foscamente brilhoso sobre uma camisa de botão colorida, uma boina cinza-claro confortavelmente apoiada sobre seus cabelos, dos quais cada cacho parece ter sido produzido a mão por um escultor extraordinariamente talentoso, ou fabricado por máquinas sensíveis, perfeitamente configuradas. Na face, base e corretivo escondendo leves olheiras, blush realçando suas já proeminentes maçãs do rosto, olhos bem demarcados com delineador, lápis preto e sombra marrom-dourado, como se seu rosto fosse uma vitrine de pele destacando dois inestimáveis, brilhantes e hipnóticos rubis azuis.
A luz azul cintilante do seu iPhone brilha bruscamente sobre o couro preto profundo e suave do banco do carona, iluminando boa parte do painel do carro. Acreditando por alguns instantes que alguém a procura, desejando ser procurada por alguém nessa madrugada de pouca novidade e muito tédio, Fernanda recebe um SPAM. Xinga, dá um soco no volante, e larga o iPhone com violência de volta no banco, como se a culpa fosse do aparelho.
Respira fundo, liga o motor do carro para sair da vaga apertada e manobra com precisão e suavidade. Tanta suavidade que ela mesma o percebe e se auto-elogia em pensamento, um pequeno sorriso desenhando-se maliciosamente em seus lábios vermelhos de (três camadas de) batom L’Óreal. É tomada de assalto por uma imagem, que reverbera com intensidade nas paredes internas dos ossos do seu crânio por alguns instantes: seu carro inteiramente lubrificado, com litros de KY, como um pênis cromado gigantesco deslizando por entre os objetos que compõem a paisagem urbana.
Fernanda penetra a auto-estrada a 72km/h, acelerando, lambendo os lábios vermelhos para lubrificá-los, molhá-los de saliva. Mesmo que ela não olhe sua boca no retrovisor, ela sabe perfeitamente – mais do que se olhasse – como está nesse instante a imagem de seus lábios vermelhos molhados de saliva, explosivamente sexuais, contendo e liberando milhares de desejos fantásticos.
Sua imaginação, não se sabe exatamente por que, se regozija intensamente com essa imagem. Ela se surpreende com a capacidade que tem de se auto-excitar com certas imagens do seu próprio corpo criadas pela sua imaginação – seu dispositivo imagético cerebral – como se a parte do seu cérebro responsável pela geração dessas imagens tivesse uma ligação direta, uma conexão física com a sua vagina.
Exercitando, dando continuidade ao ato sexual fantástico que executa consigo mesma e com o mundo que a envolve, uma masturbação poética maravilhosa, Fernanda sente, subitamente, que os elementos que compõem esse momento são uma coisa só, inseparável, individuada. Uma equação estética: seus lábios + o batom + a saliva + a arquitetura do seu corpo + o asfalto novo, quase cheiroso, da auto-estrada + a borracha do volante + o vento gelado que entra pela brecha de 15 cm deixada pela janela e faz balançar seus cachos com violência suave + o interior do carro e sua geometria metálica + as luzes fosforescentes finas e multicoloridas do painel + o verde, o amarelo, o vermelho dos semáforos + a frente espelhada dos prédios comerciais. Nesse preciso pedaço de espaço/tempo, é essa a planta baixa da sua sexualidade. Em seguida, ela se deixa fascinar pelas quase-narrativas, perdidas, inalcançáveis e vertiginosas, tremulando no interior dos outros carros que passam por ela, cheios de potencialidades, mergulhados na noite.
Muitas vezes, nessas viagens noturnas que faz ao sair do trabalho, ela olha seus próprios olhos no retrovisor como se fossem os olhos de outra pessoa, e quando volta a olhar para frente, para a rua, fica com a sensação ao mesmo tempo excitante e perigosa, atraente e amedrontadora, de que estava flertando consigo mesma – sendo ela, no espelho, outra mulher. Apenas nessas situações, dela consigo mesma, imaginando-se como outra mulher, é que qualquer impulso homossexual se manifesta nela: e trata-se de um impulso real. Ela gosta de manter os sutiãs apertados.
A calcinha de renda vermelha Agent Provocateur de Fernanda Poeta está levemente molhada, e ela o sente. São cinco superfícies, cinco camadas em contato próximo, suado: 1) sua vagina, recém depilada; 2) a mucosa, consistente, transparente, liberada pela excitação sexual; 3) sua calcinha; 4) sua saia de poliéster; e 5) o couro preto que forra o banco do seu Chrysler. Ela pensa, 0129AM, que haverá um dia em que as micronarrativas contemporâneas – que superaram a generalidade das grandes narrativas tradicionais dos séculos passados – serão tão pequenas, tão microscópicas, que somente se ocuparão de narrar o que se passa no interior das roupas íntimas das pessoas (com destaque para as celebridades): o que acontece no contato das partes íntimas de determinadas mulheres com suas calcinhas, de determinados homens com suas cuecas. Toda a ação não-vista que acontece na intimidade. A temperatura, a textura, a complexidade de cada vagina, como elas alternam, ao longo de um dia, entre a secura e a umidade.
Como a vagina de Paris Hilton, por exemplo, reage às alterações climáticas e emocionais experimentadas em seu dia a dia. Como o ânus de J.Lo se comporta, em vários sentidos, no contato com um absorvente (1º: com abas, 2º: sem abas); ou, além disso, ao ser perfumado com uma das fragrâncias assinadas pela atriz/cantora. Como o pênis de George Clooney se movimenta no interior de sua cueca Calvin Klein durante um dia em um set de filmagens: de que modo se pode notar diferenças no comportamento do pênis de Clooney a) quando ele está atuando e b) quando ele está dirigindo um filme.
Fernanda sente seu sangue esquentar, sabe que acabou de ter um pensamento brilhante, sorri, e já esboça mentalmente como será o artigo que escreverá em seu laptop, assim que chegar em casa, sobre esse assunto. Ela não pode deixar uma idéia tão original e perspicaz se desvanecer na efemeridade do pensamento: precisa materializá-la, para que tenha uma duração e uma função histórica na realidade.
O iPhone acende azul novamente, no exato instante em que Fernanda Poeta para o Chrysler preto diante de um sinal vermelho. O vermelho do semáforo (escuro e brilhante como sangue menstrual iluminado) se funde momentaneamente ao azul do iPhone – e essa mescla de luzes fosforescentes, como dois lindos e consistentes sucos tecnológicos escorrendo-se um no outro no ar, excita Fernanda sexualmente (ainda mais). Ela atende a ligação, que dura exatamente 47 segs, predisposta ao encontro sugerido pela voz masculina. A ligação custou apenas R$ 0,39, graças a um novo plano da companhia telefônica do seu interlocutor.
0152AM, a caminho do bar com ansiedade, Fernanda atravessa o sinal vermelho de uma rua deserta em alta velocidade. Todos os espelhos do Chrysler refletem, como em uma explosão silenciosa, a intensa e ofuscante luz branca do FLASH de uma das inúmeras câmeras fotográficas instaladas pela prefeitura em todos os cantos da cidade para registrar as infrações do trânsito.
Reduz a velocidade. Para o carro no acostamento, pisca-alerta ligado, nervosa, ofegante, sentindo-se tonta e ansiosa. Alguma angústia interna profunda foi despertada violentamente e cresce, e sobe, na direção de sua garganta, como uma avalanche emocional de baixo para cima. Uma crise de pânico se anuncia. Não tanto pela multa que chegaria à sua casa nas próximas semanas, mas principalmente pelo pensamento assustado de que nada mais, no século em que ela, Fernanda Poeta, vive, parece escapar do registro imagético.
São tantas imagens e dispositivos de captação/criação de imagens (e de diversas naturezas, por diversos propósitos, com diversos objetivos) que Fernanda Poeta já tem a forte impressão de que as imagens se produzem sozinhas, autonomamente. Ela imagina, em sua angústia, que se subitamente parássemos de usar os dispositivos de captação de imagens, as imagens continuariam a se produzir. Ela tem medo de ser ferida por tantas imagens.
Estaciona seu carro à frente de um bar muito movimentado no centro da cidade. Fernanda nem se dá o trabalho de entrar. Digita na touchscreen do seu iPhone o número do celular de William e envia o sinal. Eles partem, no interior do Chrysler, para o interior da cobertura onde mora Fernanda. A âncora do telejornal da madrugada recebe o pênis do colunista em seu ânus – e, apesar do fato deles estarem no conforto de sua cama, no mais aconchegante e íntimo interior do seu quarto, com todas as cortinas meticulosamente fechadas, as imagens (paradas e em movimento) desta performance de sexo anal são registradas e transmitidas em broadcasting, em tempo real, para milhões de usuários conectados à Internet, sem que o casal tome consciência disso e sem que as câmeras do iPhone de Fernanda ou do Motorola V8 de William estejam ligadas. Misteriosamente.
"As imagens já não precisam dos dispositivos de captação para serem criadas e distribuídas" – é o título do artigo que Fernanda, no interior de sua camisola de cetim rosa, escreve em seu laptop após a saída de William
Enquanto Fernanda redige o terceiro parágrafo do seu artigo
(...) Quanto mais um conteúdo imagético é, em si mesmo, efêmero e gratuito, ou seja, quando não mais serve a um princípio ou a um fim conceituais, delimitados racionalmente, menos é ele passível de ser simbolizado em termos definidos, bem resolvidos, e passa a provocar influências e consequências inconscientes, nebulosas, na sociedade que o consome (...)
ainda sentindo em sua intimidade os ecos e as imagens do orgasmo atingido há apenas 25min atrás, ela nota, às 0344AM, a luz vermelha de sua webcam se acendendo, tendo sido acionada provavelmente por um hacker voyeur, em alguma parte do planeta, querendo observá-la – com a esperança de flagrar ao menos um mínimo movimento íntimo que possa, a rigor, ser re-significado sexualmente.
Sem saber quem a observa ou mesmo se alguém realmente a observa, Fernanda, enigmaticamente, expõe um dos seus grandes e redondos seios e começa a massageá-lo, como que obedecendo à demanda de uma força superior à sua. Morde os lábios de prazer. Nesse exato instante, 9.955 imagens (fixas e em movimento, de todos os ângulos e eixos possíveis, por diferentes e desconhecidos dispositivos de captação) são produzidas com o mesmo objeto: Fernanda Poeta, a âncora do telejornal da madrugada, massageando seu seio esquerdo.
As centenas de imagens que lutam (entre si e com as condições fotométricas do ambiente) para registrar o mesmo cobiçado objeto, cruzam-se, chocam-se umas nas outras no ar, ferem-se e, em consequência, produzem um profundo corte no braço direito de Fernanda, que, sangrando, corre apavorada para o hospital.
Volta para casa às 0513AM (...) triste, preocupada, pensando em como poderá apresentar o telejornal da madrugada seguinte com o braço direito enfaixado, e, caso o faça, se será preciso revelar aos telespectadores a bizarra causa do corte em seu braço. Considera, em seguida, irracionalmente, a possibilidade de quebrar o seu laptop – como uma defesa, como se de alguma forma o pequeno computador a ameaçasse.
Sente um arrepio tomar todo o seu corpo, inclusive cada um dos seus minúsculos pêlos púbicos, ao pensar que para os muitos milhões de pessoas que a assistem todas as noites no telejornal, ela é somente uma imagem; horas e horas, dias e dias de imagem. E ela não possui poder algum para determinar ou sequer influenciar a apropriação física e/ou mental que esses milhões de pessoas fazem dessa imagem, criando e recriando outros milhares de imagens a partir da sua.
Dois carros, um Vectra GT e um Mitsubishi Eclipse Gs-T Turbo, a ultrapassam em alta velocidade, avançam um sinal vermelho e são fotografados juntos. FLASH. Fernanda, dirigindo a lentos 40km/h, observa que ambos os carros, assim como ela havia feito anteriormente na mesma madrugada pelo mesmo motivo, param no acostamento com o pisca-alerta ligado – talvez tomados pela mesma inevitável sensação de pânico que ela teve. Fernanda estaciona seu Chrysler atrás deles e subitamente adormece, com a cabeça apoiada no volante, ar-condicionado ligado na mais baixa temperatura.
O Mitsubishi parte. O dono do Vectra, antes de partir, sai do carro para pegar seu laptop no porta-malas e reconhece a motorista do Chrysler. Para ele, é um momento iluminado. Ele pega, em vez do laptop, sua câmera fotográfica digital Nikon de 10.2 megapíxeis e faz um verdadeiro ensaio fotográfico não-autorizado da belíssima Fernanda Poeta dormindo no interior do seu Chrysler fechado, sente uma ereção se anunciar e permanece em êxtase por mais de 5min debaixo do violento temporal que se inicia conforme a noite clareia. 0549AM. Depois, parte, cantando pneus.
Fernanda, no interior de seu sono mais profundo, sonha com o seu corpo ampliado 30x num gigantesco outdoor publicitário, e endireita sua cabeça no encosto do assento de couro, como se tentasse uma nova pose para o já ausente fotógrafo amador. Os músculos de sua face sofrem pequenos espasmos involuntários.
0634AM. Fernanda Poeta acorda, subitamente, assustada com a chuva forte que ataca suavemente seu parabrisas. Esfrega os olhos, desliga o pisca-alerta, aciona o limpador, liga os faróis, dá partida no carro e segue de volta na direção da sua cobertura. No caminho de volta, ela treme violentamente de susto, aterrorizada, a cada intenso relâmpago (acompanhado de violento trovão) que clareia intensa e bruscamente os últimos minutos da escuridão noturna (...) inevitavelmente flertando com a ideia de que se tratava, na realidade, do FLASH de uma câmera fotográfica gigantesca e universal, registrando, a intervalos, imagens totais do Planeta Terra.
Rômulo Cyríaco
Parte do livro "Plano Detalhe", 2010, Editora Multifoco.
Rômulo Cyríaco é escritor e cineasta. Carioca, nascido em 1983, pós-graduado em filosofia da arte pela PUC-Rio. Além da literatura, Rômulo se dedica à realização de curtas-metragens, ao desenvolvimento de roteiros de longa, e atua como produtor na área audiovisual. "Plano Detalhe" é seu primeiro livro publicado, cujos contos exploram paisagens internas e externas compostas por imagens, tecnologias, fetiches, e muitos outros elementos que interagem e sugerem a formação de novos universos e lógicas, corpos e mentes. Possui um romance experimental já escrito, que pretende publicar em seguida - além de muitos outros projetos (audiovisuais e literários) para os próximos anos.