junho/2011 Texto inédito por Bruna Mitrano
Sabia medir um engarrafamento? A barra da calça molhada, os pés sobre o banco, os sapatos no banco do carona, as meias encharcadas.
Pelo retrovisor, olhou de perto a testa suada. Tirou o termômetro de baixo do braço, 39 graus. Abraçou as pernas encolhidas e descansou a cara entre os joelhos.
Do lado de fora, um menino sem camisa metia a cabeça grande demais pro corpo mirrado na água barrenta, cicatriz no peito.
Lembrou de quando, aos seis anos, teve febre. Era verão. O dia trancado no quarto. Visão turva, mal podia desenhar, os lápis cera enfileirados. Final da tarde desabou um temporal. Não se conteve, precisava deixar escorrer aquela quentura. A mãe o encontrou no quintal, deitado na lama, se contorcendo como um epilético. Levou surra, tomou banho frio e foi deitar nu.
Hoje, chegaria em casa e desejaria um tapa de mãe. Caminharia apressado até o chuveiro. Olharia, por dois segundos, sua imagem refletida no boxe: a cara lisa e exausta. (Em algum lugar, Ana enrolaria Mateus numa manta leve. Em algum lugar, Carlos riria alto com aquela forma espontânea de envolver as pessoas – manta leve).
Molhado até o cóccix, a chuva ainda caía, desde aqueles seis anos. E não pararia nunca. Sem escafandro, morreria dentro do carro. Corpo fresco, nu, chuva de verão.

***

Ana

Conheceu Ana na escola. Ela era grunge e ele o nerd da sala. Foi ela quem puxou assunto na aula de desenho, disse que ele era engraçado e o convidou prum banho de chuva. Ele podia ter dito apenas “sim”, mas. “Por que eu?”. “Você tem cara de que gosta de temporais de verão”.
Até aquele dia, escondidos atrás do pátio, ele não tinha reparado no corpo por baixo das roupas largas de Ana. Molhada, a blusa grudava no colo, deixando à mostra o sutiã azul de renda na borda.
Dois dias depois do banho de chuva, ele a pediu em namoro. Ela disse “sim” e desapareceu no grupo dos carinhas alternativos. Daí, doze anos juntos e quase um mês separados. Ana foi embora, levando Mateus. Seis meses, o filho. Seis meses sem Carlos.

Carlos

Conheceram Carlos numa festa de reveillon na casa de um amigo de Ana. Buscavam uma desculpa pra ir embora antes da meia noite, quando ele chegou com três taças de prosecco e os tratou como se fossem velhos conhecidos.
Negro, corpulento, sorriso largo, impossível não se destacar em meio a tanto branco (roupas, rostos, paredes, móveis). O homem mais bonito da festa, da cidade, do mundo –pensou quando o viu gargalhar pela primeira vez.
Trocaram telefones. Já era fevereiro quando Carlos ligou. “Estou em Botafogo, topa um café?”. “Ei, cara, claro que sim, saio do trabalho em vinte minutos”.
Não beberam café e ficaram mais tempo do que pretendiam. Sentiu vontade de levar Carlos pra casa. Diria à Ana: “veja quem está aqui, vai morar conosco”. O que, como devia de ser, não passou de vontade.
Passaram a se encontrar regularmente depois do expediente, sempre no mesmo bar. Em algum momento que não soube precisar, deixaram de mencionar o nome de Ana. Certa tarde, no entanto, o nome surgiu como um susto, logo na primeira frase, antes da cerveja chegar. “Ana tá grávida”. “E isso é bom?”. “Não sei”. “Então não sei se devo dar os parabéns”.

Mateus

Carlos foi ao hospital quando Mateus nasceu, levou flores amarelas e Ana agradeceu com um sorriso cansado. Foi a última vez que o viu, disseram que se mudou, trocou de telefone. Nos meses seguintes, Ana insistia em afirmar que marido parecia insatisfeito. Ele cuidava de Mateus e não reclamava de ter de trabalhar dobrado, mas ela percebeu o que nem bem ele havia notado: a falta que Carlos fazia. “Já pensou em procurá-lo?”. “Do que você está falando, Ana?”. Fez-se de desentendido até o dia que. “Estou indo embora”, ela disse com voz resignada. Mateus exibia os primeiros dentinhos como se ignorasse a solenidade do fim. Ele abriu a porta, ajudou com as malas, chamou o táxi. Não disse uma palavra, nem chorou quando voltou pro apartamento.

***

No dia seguinte ao da enchente, foi ao médico. “Doutor, acho que tenho aids”. “Você costuma ter relações de risco?”. Pensou no que seria uma relação de risco e respondeu. “Sim, sempre”. Fez o teste, pegou o resultado em quinze dias e marcou nova consulta. “Deu mesmo negativo?”. “É o que diz o exame”. “Há chance de erro?”. “Esse laboratório é muito confiável”. O médico, vendo que ele ainda aguardava uma resposta, prosseguiu. “Vou te encaminhar prum alergista, é comum sintomas como febre e mal estar essa época do ano”. Minibio
Bruna Mitrano tem 26 anos e é carioca de Campo Grande. Graduada em Letras, cursa mestrado em Literatura Portuguesa, pela UERJ. Participou do projeto Vida Literária e Circuitos Intelectuais, orientado pelo professor Italo Moriconi. Às vezes, escreve. Em 2010, esteve entre os vencedores do prêmio Off Flip, na cetegoria Conto. É professora da rede pública e dona de casa.

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