2009/1 A Mulher e a Poeira. por Nathalia Calmon
A Mulher e a Poeira
a Gonçalo Tavares


Só não me diga que não é pessoal, sim?

Porque é claro que é.

— A segurança é uma condição à revelia de dois corações que não conseguem pensar em vida separadamente.

bonito isso.

eu devia escrever isso.

mas não vou.

Tenho preguiça.

Aliás, eu devia escrever em geral.

Mas tenho preguiça.

E não tenho tempo, sabe?

Escrever, você sabe: é coisa para desocupados.

E eu não tenho tempo.

Tenho muitas coisas a fazer.

Não que eu as faça.

Mas.

“Escrever é coisa para desocupados”... quem foi o idiota que disse isso?

Tem toda razão.

Coisa para desocupados.

Ai, ai...

Não. Não tenho tempo.

Prefiro falar com as paredes, sabe?

Por isso fiz teatro: era atriz.

Larguei o teatro.

Falta de tempo.

O teatro também é coisa para desocupados.

Aliás, todas as artes são coisas de desocupados.

Você não acha?

Ah, mas isso é porque você é um desocupado.

Bem sei. Desocupado.

Não sei porque insisto.

Deve ser porque é bonito.

Não. Não você.

Você não é bonito.

Se bem, que...

Ok. Está bem. Você até que é bonito.

Até que é bem bonito.

Bem bonitinho mesmo.

Nossa, você é realmente...

Talvez eu esteja enlouquecendo.

Devia tirar essa poeira de baixo da minha cama, mas tenho preguiça.

Tirar a poeira de baixo da cama também é coisa de — está bem. Vou parar de imitar os outros.

Eu sei que repetindo as coisas dessa maneira específica estou imitando uma pessoa.

Imitando uma pessoa muito especial, é verdade. Mas a gente não deve imitar as pessoas, não é mesmo?

Bem, ao menos foi o que me disseram quando eu era criança:

“Pare de imitar os outros, menina!”

Sempre tive mania de imitar os outros.

Deve ser uma espécie de falha de caráter.

Algum vazio. Quem sabe?

Daí toda essa imitação que vocês estão vendo.

Mas afinal de contas, a gente não deve imitar o que presta nos outros?

Não?

Parece fazer sentido imitar-se o que presta nos outros.

Não?

Enfim, onde eu tinha parado?

(Pensa)

Ah, sim sim sim!

Essa cama.

A poeira embaixo dessa cama.

Eu devia tirar a poeira de baixo dessa cama.

Mas tirar poeira de debaixo das coisas me parece coisa de desocupados.

Sim.

Foi ai que eu parei.

Depois disso eu disse que não imitaria mais aquela pessoa, mas era mentira.

É que eu minto muito, sabe?

Mas em verdade, tirar a poeira debaixo das coisas não poderia ser uma ação, e portanto, coisa de gente ocupada?

Mas quem tem tempo de tirar a poeira de debaixo das coisas?

Tirar a poeira de debaixo das coisas é como escrever.

Melhor ficar parada.

Sim. A poeira me incomoda.

Acho que as pessoas não gostam dessa poeira sabe?

Podem não gostar.

Sim. Também acho que fodam-se as pessoas; mas é que às vezes

Não sei. É estranho.

Digo: parece muita coincidência que as pessoas não gostem da poeira debaixo da minha cama, como eu não gosto.

E isso também me incomoda.

Além da poeira, digo.

(Pensa um pouco)

Paciência.

A poeira vai ficar ali.

Não tenho tempo pra isso.

Está me faltando imaginação, sabe?

Podia colocar uma música.

E deitar.

Sempre que fico assim olhando pra poeira me dá esse cansaço.

Mas não sei... não me agrada a idéia de ouvir nenhuma música.

Talvez... não. Nem...

A gente blasé sofre —

Posso imitar só mais um bocadinho? —

Todas as gentes sofrem.

Mas a gente blasé sofrer, ouvindo assim en passant, parece uma frase estranha, não parece?

— Ah! A gente blasé sofre? (como quem recebe uma notícia)

(Pensa um pouco 2)

Foda-se a gente blasé!

O tédio é essa tristeza de não querer ouvir nenhuma música.

Nada me parece mais triste do que não querer ouvir nenhuma música.

Nenhuma.

Não pensar em nenhuma que me agrade no momento.

E por outro lado o silêncio não me agradar tampouco.

Talvez se eu cantasse...

Mas eu não sei cantar.

Nem muito menos tocar nenhum instrumento.

Não sei como nunca me ocorreu isso.

Talvez falta de tempo.

(quase ri)

E nessas horas faz uma falta...

Nessas horas em que nenhuma música parece agradar...

O problema é que nesse caso eu teria de ter aprendido a ser compositora.

E boa.

Aí é mais complicado!

Porque ruim não resolveria o meu problema.

Ruim é fácil.

É só fazer: lá lá lá

Simples assim (cantando aleatoriamente): lá lá lá

Mas isso eu sei bem que não é ser boa compositora

Não porque eu seja inteligente.

E não porque eu não seja também!

Mas simplesmente pela evidência do fato.

(Cantando novamente) Lá lá lá,

evidentemente, não é uma boa melodia.

(Suspira)

É... lá lá lá não é uma boa melodia e eu estou com tédio.

(Pensa um pouco 3)

E se eu dormisse?

Talvez eu fosse capaz de fazer isso. Mas veja só:

Não tenho vontade.

Não tenho vontade de dormir...

Posso comer.

É... posso comer pra me distrair...

Aquele bolo que está em cima da mesa.

O bolo é bom.

Eu que fiz o bolo.

Já comi muito esse bolo, hoje inclusive, pra me distrair.

Aliás, acabo de me lembrar que comi todo o bolo hoje pra me distrair.

O que sobrou de ontem.

A metade.

Fiz o bolo ontem.

Hoje eu não fiz bolo.

Hoje eu não fiz.

Também não tenho vontade de fazer bolo.

Já comi muito bolo hoje, sabe?

E se fizer mais bolo, vou comer mais bolo.

Ver televisão?

Não vejo televisão.

Para ver televisão é melhor ler um livro, não é assim?

Eles me ensinaram.

Eu não tenho vontade de ler nada agora.

Nem de ver filme.

Me exigiria muita concentração.

E eu não estou conseguindo me concentrar em nada.

Aliás, em nada eu estou conseguindo!

Isso foi uma piada.

Eu sei que não foi boa, mas foi uma piada.

Porque no fundo eu sou divertida.

Lá no fundo...

Tomar banho?

Ah tomar banho? (como uma criança)

Eu sei. Eu sou mulher.

Às mulheres não é consentido o direito de não tomar banho.

E se eu não tomar banho? E se eu romper com esse direito invertido? Será que terei não direito a outro no lugar?

Complicado.

Mas acho que se eu não tomar banho eu estou fodida mesmo.

Tudo bem... Ficar falando palavrão, fodida e sem tomar banho até que me parece uma condição internamente coerente.

São coisas condizentes não são?

Bem condizentes com uma mulher que está fazendo tudo errado, veja bem.

(Ri. Está deitada com um cigarro)

Ai, ai...

Que divertido!

Eu podia estar menstruada, aí mesmo que eu estaria — ou não.

Talvez a menstruação me salvasse!
Possível.

Eu teria que tomar alguma providência.

Ou não, também.

Enfim... melhor assim.

Sem menstruações posso fumar o meu cigarro sem pressa.

(O telefone toca)

A salvação.

(Dá uma risadinha)

Não. É claro que não.

Não vou atender.

Mas realmente as coisas ficam piores quando o telefone começa a tocar desse jeito insistente.

Tente mais tarde por favor, sim?

Hoje eu ainda não tomei banho.

E você sabe: eu sou mulher; no meu caso é pior. Muito pior essa ausência de higiene.

(Se ofende)

Ah peraí! Ausência de higiene também é sacanagem!

Eu tomei banho ontem quando cheguei em casa.

Dormi.

Não saí de casa.

Eu sou limpinha.

Tudo bem que eu moro num país tropical e o ar condicionado está quebrado e é verão.

Mas também não é essa esculhambação, não!

É que nós as mulheres não basta a limpeza.

É exigido algo a mais.

Todo mundo sabe disso.

E me parece mais do que justo exatamente por isso, que nos viciemos muito mais em ansiolíticos.

Parece-me óbvio.

Muitas coisas a resolver!

Unhas a fazer.

Cabelos pra tratar.

Roupas pra comprar.

Isso é de colocar qualquer ser humano fora de si!

Mas isso não acontece a todos os seres humanos.

Só às mulheres.

Todos os dias.

Logo: fumamos mais e nos viciamos mais em ansiolíticos.

Perfeitamente cabível.

Perfeitamente natural.

Estou sem ansiolíticos.

O que é um problema sério, já que não tomei nem banho, quanto mais me depilar.

Ah, sim! Porque está precisando...

Mas hoje não tenho dinheiro.

Porque gastei mais do que devia ontem.

Enfim.

Sempre detestei aquela fábula da cigarra e da formiga.

Se eu não canto hoje é por pura incompetência.

Mas bem poderia dançar.

Pena que dançar dependa tanto de música.

Não. Dançar sem música não.

Dançar sem música já é coisa de maluco.

E eu não sou maluca.

Não sou maluca e não estou com vontade de ouvir música nenhuma.

Tenho sono.

Mas não quero dormir.

Tenho sono porque tenho dor de cabeça, talvez.

E também acabaram os analgésicos.

Esqueci o telefone da farmácia.

E está looooooonge...

Está realmente doendo a minha cabeça.

Talvez seja esse calor.

Não.

Nada vem de fora.

Nada vem de fora soprando brisa.

E aqui dentro é essa confusão.

Esta poeira embaixo da cama.

Poeira embaixo da cama requer ansiolíticos.

Eu realmente tinha que chamar a farmácia.

Mas também estou sem receita.

Pros ansiolíticos.

Pro ansiolítico.

Eu também não tomo vários.

Se eu tomasse vários, eu seria maluca, e como eu já disse, eu sou normal.

A farmácia.

A farmácia podia chegar...

(Suspira)

Aqui dentro essa confusão.

Não comi direito hoje.

Só bolo.

Tudo fora do lugar.

Sim. Eu tenho fome.

Dor de cabeça.

Algum sono.

E calor.

Muito calor.

Ninguém pode enfrentar nada assim.

Pra que se comece a enfrentar as coisas é necessária alguma beleza.

Alguma beleza que nos atravesse.

Será que com essa dor de cabeça eu consigo sonhar com alguma beleza que se aproveite?

Podemos ter sonhos bons com dor de cabeça?

O sono embeleza, diz a vovó.

O sonho embeleza?

Seria prático.

Economia de ansiolíticos.

(Se espreguiça)

Queria sonhar belezas agora.

Era isso que queria.

Dormir e sonhar belezas.

Não importava que depois eu acordasse com dor de cabeça.

Desde que eu sonhasse belezas...

(Dorme (?) Nathalia Calmon nasceu em 1983, no Rio de Janeiro. É mestra pela PUC na área de Letras, com a tese "O Milagre do Corpo a Partir de 'Jerusalém', de Gonçalo M. Tavares". Atualmente, prepara-se para iniciar o Doutorado.
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