julho/2011 Abduzido Por Rodrigo Novaes de Almeida
Antes que algum engraçadinho faça piada, vou logo dizendo que não, não me introduziram coisa alguma no ânus. Isso é mania de proctologista e não de extraterrestres curiosos. Sim, eles me levaram na sua nave espacial e eu vi o nosso planeta lá de bem longe no espaço sideral. Foi supimpa. Supimpa é uma palavra bonitinha que caiu em desuso. Às vezes eu solto uma palavra como essa para ver a reação das pessoas. O meu psiquiatra diz que esse comportamento prejudica a minha imagem no grupo, ou a imagem que o grupo faz de mim, ou coisa parecida, acho que ele fala da sociedade em geral, de todos vocês, deu para entender, não? As pessoas acabam me rotulando: “Olha aquele cara, ele é muito estranho. É sinistro.” E assim vai... Já me acostumei. Mas não vem ao caso. Fui abduzido, vi a Terra lá de longe, fui até Marte e depois Saturno. Em Marte conheci os marcianos, eles têm um metro e vinte de altura e são hermafroditas. Não são verdes, como dizem por aí, mas um laranja caindo para o cinza. Meio desbotados, sabe. Os marcianos adultos estão na fase oral. Um terror. É preciso tomar cuidado com isso, porque eles têm dentinhos afiados. Quase tive um acidente. Eles não entendem por que raios nós terráqueos temos tanto medo deles. Não vêem a hora de receberem mais visitantes daqui. Eles nos adoram, principalmente nós machos, nossa altura e nossas particularidades anatômicas. Em Saturno foi diferente, meus amigos exploradores pararam lá apenas para uma partida de bocha galáctica. Disseram-me que o circuito dos anéis é o mais procurado por essas nossas bandas, vem gente de tudo que é canto da Nuvem de Magalhães – da pequena e da grande – e que eles precisavam dessa folguinha para se distrair um pouco. Muito trabalho, sabe. Esqueci de dizer, meus amigos exploradores são de Andrômeda. Estão fazendo uma espécie de turismo ecológico “de negócios” em nossa galáxia, mais ou menos como os gringos fazem lá na Amazônia, “catalogando” bichos e pedras. Eles são translúcidos – ou invisíveis, como prefere o meu psiquiatra –, todos em Andrômeda são translúcidos, até seu disco voador é assim também. Coisa bonita, sabe. Depois do jogo de bocha em Saturno, eles me trouxeram de volta, mas antes de partirem para Tau Ceti eles me pediram para transmitir uma mensagem à humanidade. Disseram: “Josué, avisa ao seu povo na Terra que não adianta fazer nada.” E foram embora, sem explicar que raios de mensagem era essa. Claro que eu não entendi, mesmo assim contei para o meu psiquiatra. Ele fez cara de cu e nada disse. Tentei os jornais e até um cara lá da NASA, mas ninguém me deu ouvidos. Aí ontem o sol piscou três vezes e três vezes é o seu tamanho agora em relação ao que era ontem, e está todo mundo aqui nesse manicômio desgraçado – o meu psiquiatra diz que é casa de repouso, ainda mato esse idiota – todo mundo, cientistas, políticos, esses repórteres da tevê, todos vocês aqui na minha frente querendo saber o que aconteceu e o que está para acontecer. Ora bolas, eles disseram, não disseram? Eles disseram com todas as letras que não adianta fazer nada. Raios, eu bem que queria ter ficado em Marte... Rodrigo Novaes de Almeida - Tem textos publicados em sítios literários e jornalísticos, como Le Monde Diplomatique Brasil, Portal Cronópios, Germina Literatura e Arte, Observatório da Imprensa, Jornal Rascunho, entre outros. Publicou, pela editora Mojo Books, a ficção "A saga de Lucifere" (The Trinity Sessions – Cowboy Junkies, e-book, 2009), e, pela editora Multifoco, o livro de contos "Rapsódias – Primeiras histórias breves" (2009). É colunista do coletivo literário O Bule e do Página Cultural.
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