abril/2010 Três poemas do livro Nós que adoramos um documentário por Ana Rüsche O Grande Plugue

À nossa geração nunca nos foi permitido ver o mar pela primeira vez
Ele sempre esteve adentro, reluzente, o grande igual que nós mesmos
Rogamos tanto às noites que se faça novamente o escuro
mas quando as preces são atendidas
é só uma ilusão dos trouxas, uma ardentia nos olhos
o mar esbraveja aqui dentro, monstro comedor de rocha

Já nascemos umas baleias mórbidas
pobres diabas afogadas neste papel de luz
E é tão mesquinho de pequeno o desejo
A gente só queria ver o maldito mar
por favor, pela primeira vez



US Abdome Total

Desliza estrelas pela minha barriga gelada
e melequenta igual a de uma sapinha mirim,
ele mira as formas indizíveis na tela do outro lado
mão no mouse cheio de gel pelo abdômen da paciente
outra mão e olhos no quadro negro
pontilhado de constelações pulsantes, fórmulas matemáticas
e órgãos, canções de anjos dentro do umbigo e tantas outras coisas incríveis.
Não parecia se maravilhar.
Daí fiquei com vergonha da pergunta, engoli.
Homens com olhos apenas no escuro do céu
nunca sabem o sabor pesado do terror profundo da terra.



…, i'm only happy when it rains!

É tarde, dia claro, e num repelão há uma tempestade lá fora
‘Que barulheira’ e me beijas
Te beijo tanto, ‘eu gosto de tempestades’
Amendoeiras japonesas alastram-se pela cama em pink, em preto
É calor e chove-se tanto, nos lençóis, pelas tuas costas ensolaradas
Dormimos mais meia hora, agora já queria mais um dia, plis, mais uma noite, por favor.

Percebi que a chuva desbotou meu cabelo e todos os meus hematomas colecionados na semana
- com a tinta escorrida, logo brotaram minúsculas flores roxinhas no flanco dos travesseiros,
essas pequenas tatuagens do acaso
Sonho tanto que te explico meu sonho. Você já se foi, economizo um beijo.

Na rua, foi ao chão a árvore de 6 metros de altura e 20 anos de comprimento
orvalhando de folhas minúsculas carros, valas, a gente velha fofoqueira, os vizinhos torcedores
domingo é um mesmo dia para tombar e já se remover – caminhões, a prefeitura
Telefono: Você viu a árvore que caiu?
Agora são quatro-e-meia,
a tarde já se acabou pela metade, o dia se perdeu do prumo
Domingo é um mesmo dia para adoecer e já se recuperar

Ainda às 19h40min te mandei uma mensagem, voe bem, voo conthigo
Estendo o bilhete da sessão do filme qualquer, o leitor vermelho apita.
Seguro medrosa a mão invisível da saudade. Teu cheiro, meus cabelos, suspiro.
Adentro ao escuro.


Ana Rüsche, São Paulo, 1979. Publicou os livros de poesia Rasgada (Quinze & Trinta, Brasil: 2005; Ed. Limón Partido, México:2008, tradução Alberto Trejo, rev. Alan Mills) e Sarabanda (Selo Demônio Negro, Brasil: 2007). Em prosa, publicou o romance Acordados (Ed. Amauta, Brasil: 2007). Ministra oficinas de criação e cursos sobre arte contemporânea.
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