junho/2011 A rua é o mar por Francine Jallageas
Desaparece e reaparece – se lança ao mar, se balança, se espirra e se retira – sobe escorrido. As gotas redondas pesadas se afobam, querem todas jamais se separar do todo, juntam-se umas às outras e voltam aos saltos velozes à água compacta. O braço cai uma vez mais e se arrasta vagaroso agarrando as algas presas à madeira. Depois se interrompe no ar – suspenso – se abandona um pouco desmembrado e em seguida se recolhe decidido. Nada muda por alguns instantes, a casa inerte como se estivesse em terra firme. A água parada – quase parada – como alguém que imóvel respira e aparenta não ser atravessado nem mesmo pelo ar.

Quem, como Sedna, espera as cores minguarem pouco a pouco escapando ao dia, verá talvez, em poucas horas, vazar pelas frestas de madeira outro indício de vida. Um fósforo que venha a iluminar qualquer coisa, que empreste fogo a um pavio encerado, será o suficiente. E quando não mais ressoar à mercê do fluxo dos carros o extenso asfalto que avança roubando aos delimites entre terra e mar a imprecisão; quando a ladainha que desfiam os pescadores e seus ajudantes enquanto amarram cordas às suas pequenas embarcações não for mais que um murmúrio submerso nas poucas horas que separam, uns dos outros, cada um de seus dias; quando o incansável estribilho – plac-plac das solas dos pés insulados sobre a estreita passagem reservada aos pedestres – enfim se recolher adormecido; quem sabe aí, sob o silêncio que se produzirá da ausência de movimento, uma história animada que libere uma risada incontida de dentro da casa se faça ouvir. Mas se o dia é longo a noite é curta, Sedna quase esquece os motivos todos que teria para manter-se firme como uma observadora perspicaz o faria, ela diria, acaso pretendesse não se entregar ao cansaço. Recosta-se numa pedra áspera, mas suficientemente reclinada. Cobre o rosto com a dobra entre braço e antebraço, solta o ar largando a boca entreaberta e se põe sem forças; deseja esquecer isso para que veio.

A nitidez da paisagem é mais um excesso que ensurdece. O brilho é de cegar. Se houvesse menos mar onde o céu refletir. Se houvesse um infinito menos largo para o céu recortar. O vento sopra as beiradas do plástico preto que encobre a casa. O plástico enverga e se debate sobre a madeira, as redobras zunem irritantes como as janelas bambas de uma casa quando dançam às lufadas, mas são incapazes de despertar completamente Sedna. – Nada aqui é seguramente impermeável – ela parece ter dito, não sabe bem se de si para si ou se em sonho a alguém, quem sabe? A rua é o mar, pretende anotar Sedna, quando finalmente reabrir os olhos. E também Flutuar, flutuar, devo escrever, ainda se lembra nalgum pensamento sonhado.

“A curiosa história do caixote flutuante” – a frase borra respingada no jornal enquanto Sedna se enxuga às pressas assustada com o avanço do mar, com o avanço das horas. Recolhe recortes de revistas, copos plásticos, papéis de bala, o que pensa ser lixo seu, recupera os óculos esquecidos dependurados sobre o peito. Pouco em pé, bordeja entre as pedras que se alinham à sua esquerda contornando de longe, e o mais próximo possível, a casa ao mar resguardada na escuridão. Está já na lateral de uma grande rocha quando avista varas de pesca empunhadas por uma porção enfileirada de homens sentados às beiradas, os pés ao ar, pendendo da rocha. Vocês pretendem peixes com este falatório? – os corpos se alinham segundo o desenho da pedra como arbustos ladeando a ribanceira de um penhasco. Os que não falam escutam a música chiada de um rádio de pilha sem sintonia. Planejo uma noite chuvosa de onde eu possa assistir a instabilidade da casa – contra a encosta se lança volumosa a água, quebra-se violentamente, ergue-se revolta e, sempre mais retorcida, investe recortando, ameaçadora, o ar. Planejo um mergulho que me leve ao revestimento submerso; planejo encontrar a âncora, a espécie de âncora que de algum modo os mantém aportados; as fezes, a urina, o banho – planejo procurá-los; planejo estar aqui enquanto flutuar a casa no mar – o sal, o suor, as bebidas que os fazem despertos, a quantidade enorme deles, os peixes que conservam em caixas improvisadas, a noite sem lua – Sedna atravessa escorando-se na parede da rocha erguida por trás dos homens o caminho que cresce espiralado e um tanto infinito como o percurso de uma embriaguez dos sentidos. – Exigência do delírio, o fortalecimento do corpo; necessidade do transe, o tônus psíquico – Sedna resmunga alto para que seja também a sua uma das vozes que nascem densas e empapadas da garganta e que logo, orvalhadas, se dissipam na ligeireza com que se movem os vapores marítimos.  Quer chegar até o outro lado da pedra, contorná-la para conhecer-lhe o fim. E a Terra, enquanto desloca-se lentamente em seu eixo, coberta em sua maior parte de água, insistentemente é terra firme, segue voltando a si.

A casa amanhece revirada, a traseira voltada até então para o horizonte, agora defronta a vida na Ilha. Deste lado, quem quiser, verá que uma fenda é a abertura de entrada e saída. Não dirão jamais, mas ali é a porta, Sedna teme ter perdido o momento em que a casa se esvaziou, ressente-se da queda no adormecimento e na deriva que a desviou para longe. Velar teria sido o suficiente? – uma zona translúcida no revestimento superior da casa se deixa notar. É uma cortina rendada que pende sem atar-se à janela alguma. Conchas do mar que se costuraram num cânhamo gasto até a transparência permitem à luz um caminho difuso ao interior da casa. Para junto dela aproxima-se ardilosa uma lancha e dois homens a bordo, portam bonés e coletes robustos.

Os agentes da defesa civil se mostram acostumados com os olhares curiosos, e se dirigem à Sedna como a mais uma moradora da Ilha. – Muita gente pergunta pelos hábitos, pela procedência e pelo destino dos dois. O que a gente sabe é que não tem condições de uma pessoa viver assim – explica-se, com jeito de quem tudo sabe a respeito do que se passa pela cabeça dos outros, o mais jovem deles. – Já disseram que os dois estão infestados de piolhos, imagine você – o rapaz repuxa as luvas plásticas e salta pra dentro da casa, arremessando em seguida, para o fundo de grandes sacos pretos, tudo o que encontra pela frente; mantas, pertences íntimos como escovas de dentes e livros, duas ou três garrafas de vidro azul claro e transparente, aparentemente vazias, tampadas com rolhas de uma cortiça ainda hidratada. O velejador de origem alemã que ali gosta de atracar à espera de bom tempo vem pra perto ladeando o murete que protege o calçamento da água do mar, disfarça a pressa de tomar parte dos acontecimentos em passos que saltitam sem correr. De dentro do bar – ali instalado sem que concorrentes lhe atrapalhem o comércio de bebidas e de refeições servidas sempre ao horário de partida e de chegada dos barqueiros e dos pescadores –, vem aproximar-se também a filha de um deles, secando as mãos por debaixo do avental ensebado. – Já era hora de alguém tomar uma providência – reclama sem se dirigir especialmente a alguém. Sedna lhes faria perguntas – ela bem poderia se aproveitar do engano em que incorrem e levianamente salpicar a falação que começara de perguntas irrefletidas – viver assim como?  acaso optaram por viver, simplesmente viver, assim viver, ou o que seja? vivem de modo proibido? ofendem, em todo caso, com suas vidas, a própria vida? e quem o será capaz de dizer? –, enterra, no entanto, as mãos nos bolsos; segura-as cerradas, antes que, sozinhas e indignadas, gesticulem tapas e ameaças ao ar. Sufoca um pouco a respiração e retoma com mansidão o diálogo mal iniciado: – Senhor, queira por gentileza informar-me o que pretendem fazer com a casa do pai e da filha que aí vivem? O homem é daquele tipo que não olha as pessoas quando com elas conversa, oferece apenas, e já toma como muito, o próprio perfil, enquanto retoma ou inventa algo de imprescindível com que se deter. – Graças a Deus não vivem mais não senhora. Já foram lá pra Santa Casa fazer exames médicos. O caixote flutuante a gente vai recolher que é pra ninguém correr o risco de se meter nele de novo.

De volta ao mar, hoje agitado, os olhos de Sedna ardem à luz dessa manhã que irrompe.

*

A rua é o mar / Mídia eletrônica - matéria de consulta:

1.
Vnews.com.br: "Em Ilhabela, pai e filha vivem em caixa no mar e despertam a curiosidade de quem passa pela balsa”, por Renato Ferezim/ Carlinhos Brasil, em Ilhabela.
Atualizado em: 10h55min - 20/11/2010
Disponível em:
http://www.vnews.com.br/noticia.php?id=84605

2.
Vídeo do Jornal Bom Dia, Vanguarda Tv, de São José dos Campos
datado de 25.11.2010, 6:30hs/6:33hs,
com a duração 2 minutos e 26 segundos.
Dados técnicos recolhidos do vídeo:
Crédito das imagens atribuído a Eduardo Marcondes e Defesa Civil,
apresentação em estúdio de Ana Paula Torquetti
apresentação e entrevista em Ilhabela realizada por Jonatan Morel
participação em entrevista de Nanci Peres Zanato, secr. assistência social
participação em entrevista de Jurandir da Cunha, 70 anos, aposentado
participação em entrevista de Janaina Moura Cunha, 34 anos, filha de Jurandir
disponível no endereço eletrônico:
http://www.vnews.com.br/video.php?id=7964
e abaixo transcrito:

Ana Paula Torquetti: A curiosa história de pai e filha que moravam num caixote flutuante em Ilhabela teve um novo episódio. Eles foram retirados do local e passaram por exames médicos. Nossa equipe conta como foi.
Off: Essas imagens mostram a retirada do caixote flutuante. [imagens DEFESA CIVIL] Dentro dele viviam duas pessoas em situação precária.
Off: Como que uma pessoa vai morar num lugar desse, cara? Não tem condições de morar num lugar desse.
Off: Jurandir de 70 anos e a filha Janaína de 34 anos moravam próximos à balsa de Ilhabela há pelo menos 2 meses. Na semana passada o Vanguarda Tv mostrou que a estrutura coberta de plástico virou uma casa improvisada. O homem alegava que estava no local para realizar pesquisas científicas com algas. Jurandir era da marinha mercante. Tem documentos como RG, carteira de trabalho e até um cartão de banco. Ele recebe um salário mínimo de aposentadoria. A filha embarcou no diferente estilo de vida do pai.
 Jonatan Morel: Com relação a comida, alimentação, como é que vocês faziam ali no mar?
Janaina Moura Cunha: A alimentação macrobiótica vegetariana totalmente integral. Fiz todos os exames de saúde eu não passei mal. Estou muito bem.
Jurandir da Cunha: Meu amigo, eu já dor/morei no Tibet em cama de prego para testar resistência do corpo. Eu já morei em uma cama de 20 centímetros de largura no tempo que eu trabalhei no treinamento de guerrilha. Isso pra mim é natural. E todos meus filhos são treinados assim.
Off: No hospital de Ilhabela os dois estavam muito irritados por terem sido retirados do mar.
Jurandir da Cunha: Ilhabela é o pior lugar da terra. Toda minha vida eu vivi no mar. Que eu tenho que continuar com minhas pesquisas. As algas estão no barco, grudadas nos barcos.
Jonatan Morel: Exames médicos feitos aqui no hospital levantaram a suspeita de que pai e filha possam sofrer de algum distúrbio mental ou psicológico. Eles foram orientados a fazer tratamento. Enquanto isso a polícia de Ilhabela deve começar uma busca com os documentos de Seu Jurandir para tentar localizar algum parente e esclarecer essa história.
Nanci Peres Zanato [secr. Assistência Social]: Hoje faz um mês e quatro dias da primeira abordagem. É um mistério. Eles cada hora contam uma coisa. Agora eles passaram pelo clínico geral. Passaram pelo psiquiatra.
Jurandir da Cunha: Se eu sei todos os clássicos que eu li. Sei contar todas as histórias. Sei todos os livros. S.. Eu sou uma pessoa normal.
Ana Paula Torquetti: A prefeitura de Ilhabela ofereceu abrigo provisório, mas pai e filha recusaram. Jurandir disse que agora vai tentar se estabelecer em São Sebastião. A embarcação improvisada foi apreendida.

3.
O Globo on line: “Marinha retira de Ilhabela pai e filha que viviam em caixote flutuante”, Plantão, atualizado em 25/11/2010, às 9:41m.
Disponível em
http://oglobo.globo.com/cidades/mat/2010/11/25/marinha-retira-de-ilhabela-pai-filha-que-viviam-em-caixote-flutuante-923104893.asp

4.
Estadão on line: “Um barraco no meio do mar”, por Reginaldo Pupo
Atualizado em 24/11/2010, 1:43.
Disponível em:
http://estadao.br.msn.com/ultimas-noticias/artigo.aspx?cp-documentid=26474304

Minibio
Francine Jallageas é artista e pesquisadora, mestre em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) com a dissertação aventura Artaud - crueldade como obra, gestos para uma linguagem no espaço, fratura como fatura. Edita e é uma das co-criadoras da revista astro-lábio de arte e literaturas.

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