



30/03/2008
Tempo de partir
por Paloma Vidal
(adaptação de peça de Juliana Pamplona)
Paloma Vidal

Sentada numa
cadeira de plástico na área de serviço, com uma bata longa, florida, sem
mangas, chinelos nos pés, ela observa a máquina de lavar que gira e faz rodar
as roupas numa mistura de cores que a hipnotiza. Sua mente passeia por tempos
remotos. Vem-lhe um pensamento: ellos ni se falam, pero sus ropas se
entrelazan en la máquina de lavar. Lembra-se dos netos quando eram
pequenos, seus três netos, filhos de seu único filho. Para estar com eles
decidiu deixar sua casa, em Montevidéu, e vir para o Brasil; para vê-los
crescer, acompanhar suas transformações, conhecer seus desejos, para
ensinar-lhes a falar espanhol. Pero ninguno aprendió, diz, dirigindo-se
à máquina. Ninguno de los tres quis aprender esta lengua, que agora ya no me
pertenece.
Realiza
cotidianamente esse ritual. Primeiro separa as roupas, brancas e de cor. Es
preciso también verificar los bolsos. Siempre fica algo. Seu
neto mais velho costuma esquecer objetos que podem rasgar suas roupas e as dos
outros. São canivetes, correntes e outros objetos metálicos. Ele tem um
apelido: Feio. Sua mãe conta, entre risadas, que desde neném o menino sempre
foi horroroso, com um nariz desproporcional e uma cabeça ovalada. A avó sabe o
quanto isso fez mal ao menino. Não lhe deu possibilidade alguma de defesa,
então ele foi para o ataque. Desde pequeno é cruel, como só os que se sentem
injustiçados sabem ser.
Lembra-se com dor da primeira e
única conversa a sós que tiveram. Ele tinha treze anos. Tem aquele momento,
sabe, vó, que no seu íntimo você começa a desconfiar de que logo você pode ser
um feio, de que você é pior do que a maioria nesse aspecto, que não pode ao
menos se esconder, como a burrice e o mau-caratismo, porque todo mundo vê...
Poxa vida, tem tanta gente no mundo de toda a sorte de beleza, e você, veja
bem, logo você, saiu feio. O pior de tudo é que quando você se dá conta, o
resto do mundo já se deu conta da sua feiúra há muito mais tempo... Aqueles
olhares de pena dos parentes, de desprezo dos estranhos... Você se liga que,
realmente, aqueles planos todos que você fez para você quando crescesse, como
ser o Indiana Jones e tal, não vai rolar, porque a mocinha nunca sairia com
alguém assim.
Ela
não quer chamá-lo pelo apelido, mas por hábito, porque acabou virando mesmo seu
nome, também se dirige a ele como Feio. Recentemente separou uma briga entre
ele e seu irmão mais novo, Lizandro. Doeu-lhe ter que dizer: "Feio, vamos a
conversar. Vas a acabar machucando de verdad a tu hermano." Sabe que o
diálogo está impedido de antemão com ele. Todos são seus agressores assim que
pronunciam seu nome. O caçula é seu alvo predileto por ser tão frágil. Um
menino esquálido, que quase não sai de casa e passa dias inteiros trancado no
quarto, cuidando de uma iguana que reina dentro de um aquário.
Lizandro
sabe tudo sobre iguanas: o que comem, o que sentem, como sobrevivem nas
situações mais adversas. Refere-se aos humanos na segunda pessoa. Existem
algumas coisas que eu não entendo sobre vocês. Humanos não têm qualquer lógica,
são terrivelmente instáveis e emotivos. Se há uma lógica, não é o que os domina
de fato. Vocês são insanos, com vários níveis complexos, um mais improvável do
que o outro, uma coisa louca, selvageria pura, com todo o seu potencial e
prendendo-se psicologicamente nessa rede de relações altamente perturbadora.
São bichinhos tão sem propósito...
Ela
ri da avaliação de seu neto, mas inquieta-se com sua precariedade. Sabe que
está por um fio. Recentemente tem ficado horas na frente do computador
pesquisando sobre body modification. Trató de me explicar, pero
preferi no saber mucho. Espero que no esté falando en serio. Qué será de
este niño?, pergunta à máquina.
A lavadora
continua fazendo seu trabalho, chacoalhando as roupas num movimento constante.
Ela vê passar o macacão vermelho da neta. Alice sempre foi muito próxima a ela.
Sensivelmente próxima. Hoy de mañana la encontré en la cocina, sola, con la
mirada perdida, sin perceber que la leche transbordaba de la taza, conta para
a máquina. Tuve mucha pena. Le pregunté lo que estaba aconteciendo, pero
dijo palabras que no llegué a entender. Algo sobre la inutilidad de las cosas.
Algo sobre Billy, su amiga que se suicidó. Algo sobre la inutilidad del arte.
A menina fala sem
perceber a presença da avó, que a observa como se estivesse vendo sua própria
imagem desolada: você pode me dar os seus espaços íntimos da imaginação para
que se ocupem, se alimentem e transbordem das minhas cores, das minhas marcas,
dos lugares íntimos da minha imaginação, que agora já não cabe na xícara e
escorre do pires pela mesa e ensopa a toalha e se derrama a teus pés.
A mãe interrompe
a menina aos berros, dizendo o de sempre. Que é um absurdo, que é um
desperdício, que não criou filhos para isso. Uma menina inteligente, poderia
fazer qualquer coisa, ser o quisesse, mas fica desperdiçando sua juventude com
essa bobagem de ser artista. Nem parece que estudou nos melhores colégios e
teve tantas oportunidades a seu alcance.
A avó fecha os olhos como se assim
pudesse interromper o fluxo da memória. Você sabe de quem é a culpa, Edgardo?
Você sabe! A culpa é da sua mãe! A sua mãe é um E.T. nesta casa. Sempre foi
péssima influência para os meninos! Essa velha está há mais de 20 anos no
Brasil e ainda não se deu ao trabalho de aprender a nossa língua. Francamente!
A gente tem que fingir que isso é normal? Que ela realmente produz algum
sentido na sua língua imaginária? Eu não entendo o que ela fala. Para mim, não
diz coisa com coisa.
Ela
gostaria de reagir. Não reage por Edgardo, mas também porque lhe faltam forças
e porque sabe que não há nada a fazer a respeito de Marisa. Não há nada que ela
possa dizer a essa mulher tão dona de si, tão rígida, tão certa de tudo o que
faz e do que os outros deveriam fazer. Não sabe se o que lhe dói mais são suas
palavras ou a dúvida que elas provocam: será verdad? Será que soy yo la
responsable por los desajustes de la familia? Quizás sí. Com sua
forma de ver o mundo tão diferente da de Marisa, acabou provocando um
desequilíbrio dentro da casa e as crianças lidaram com ele como puderam.
Edgardo nunca conseguiu interferir.
Se
ela não tivesse vindo, talvez Marisa tivesse conseguido criar seus robozinhos,
dublês de si própria, corpos dóceis a seus comandos. Edgardo não teria se intrometido.
Com a sua chegada, abriram-se outros mundos para as crianças, mas a marca da
mãe se fez ainda mais pesada, gerando um curto circuito irresolúvel. Assim
viviam, em permanente instabilidade.
Alice encontrara uma saída.
Pintava umas telas enormes, que viviam estendidas como tapetes no seu ateliê.
Deixava que os visitantes as pisassem num descaso que era parte da obra. Pisa,
finge que sou eu, dizia com um sorriso de provocação. Cada um deixava suas
marcas no seu lixão, que era como ela chamava as coisas que fazia e ia
amontoando num canto do quarto. Não quero ver nada pronto. Quem disse que
realização vem da conclusão da obra de arte? A tela de que a avó mais gostava
chamava-se "Ensaio de tinta". Billy trabalhava ali com ela até o dia em que foi
encontrada no chão do banheiro, com os pulsos sangrando. Depois disso Alice
voltou para casa, e suas roupas para a máquina de lavar.
A
lavadora se sacode num esforço final e pára. As roupas se aquietam. Ela se
ergue da cadeira com dificuldade e se dirige até a máquina. Abre a tampa. Tira
apenas o macacão vermelho de Alice e o pendura no varal, como uma bandeira
solitária. Quando o vapor do verão tiver feito seu trabalho, será tempo de
partir.