



março/2010
De quando vivemos em guerra
por Leonardo Villa-Forte
Que cada um matasse ao menos quatro vezes e não morresse uma única vez.
Essas foram suas ordens após saber que os seus 400 homens batalhariam contra uma multidão de dois mil inimigos. Os jogos justos se iniciam com o placar de zero a zero.
Sem que sua tropa soubesse, enviou uma solicitação ao inimigo na qual muito educadamente sugeria o suicídio de 1600 dos seus dois mil homens, um corte de 80%. O inimigo prontamente respondeu à sua ousadia desta maneira: “Se temos dois mil homens é porque treinamos e alimentamos dois mil homens. Não deixaremos de tirar proveito de nossas condições.”
Quando dos seus 400 homens voltaram apenas 23, perguntou quantos deles haviam matado ao menos quatro vezes. A maioria ficou em silêncio, uns poucos ousaram um balbucio; o que todos queriam dizer era: fiquei na retaguarda, se fosse para a linha de fogo, não estaria aqui.
“Descumpriram minhas ordens”, ele disse.
“Como aqueles que morreram.”
“Por isso vejo que não comando mais ninguém aqui”, concluiu.
As coisas precisam ser testadas. Deu uma nova ordem:
“Suicidem-se.”
Não foi correspondido.
“Agem como inimigos, pois que me matem então!”
Continuou vivo.
Privado de aliados, privado de inimigos: existiria em nome de quê?
Leonardo Villa-Forte mora no Rio de Janeiro, tem 24 anos e pretende lançar em 2010 seu primeiro livro de contos, recentemente terminado. É tradutor e colaborador editorial em diversas frentes. Formado em psicologia pela UFRJ, Leonardo morou em Salamanca, na Espanha, onde estudou literatura espanhola. Em 2009 seu conto “Monólogo a dois” recebeu Menção Honrosa no Prêmio Off-FLIP, cuja coletânea dos premiados está prevista para publicação este ano. Ele mantém o blog www.catarsecontrolada.blogspot.com e colabora com o www.curabulalivroclube.blogspot.com/