julho/2011 Figura com braços desnudos De João Cícero
Conto inspirado no quadro Figura com braços desnudos, do pintor Lucien Freud (1922 – 2011).

Ela segurava com seus braços a nuca, desfazendo-se numa incerteza de pensar se era vista ou se via o artista. Ou se era quem continha o quadro, porque enxergava a imagem daquele homem exterior. Ou se era ele quem a mirava como núcleo de um gesto aleatoriamente calculado. A modelo refletia sobre isso de modo embaçado, pois não tinha clareza de pensamento para tanta especulação. Celina, assim, paralisou-se, inquieta, durante o minuto inicial da pintura de Lucas. Nada importava. Um encontro indiferente. Sabia apenas que não aguentaria a naturalidade do gesto por muito tempo. "Tire uma foto. Estude-a. Depois me pinte", disse a moça de tinta ao rapaz pintor. A moça não era tão moça, nem totalmente senhora. Havia nela uma meiguice quase amargurada. O quase era fruto de uma timidez que, no seu rosto, ia, pouco a pouco, se tornando um leve e profundo desespero. Isso porque no fundo dela não existia nada: nem fé, nem luz e nem escuridão densa. Eis o contrassenso: a existência de uma profundidade sem fundo. O que a movimentava era o susto, o arrepio e um nervosismo que tomava conta de sua pele, avermelhando-a levemente. Olhar para o outro, para aquele que contém a sua imagem nas mãos, nos olhos, configurando-a no quadro, era lisonjeador, mas também intimidador. "Agora que você me fotografou... eu preciso ir embora daqui", com um beijo seco no lado esquerdo da face de Lucas, saiu do ateliê. Assim seguiu, imediatamente, por uma rua cheia de cruzamentos, e, ali, esqueceu-se dessa experiência tão importante de deixar-se retratar. Tirou o acontecimento da memória porque não o viveu plenamente, não entendia o sentido de ter sido ela, mulher comum, parte principal de um quadro.

Numa outra hora do dia, caminhando pelas quadras de Botafogo, Celina percebeu que os seus brincos não estavam na bolsa. Era provável que tinha perdido em algum lugar, mas como não recordava do momento que fora retratada, não podia imaginar que os deixara na beirada do banco do ateliê daquele pintor. Assim, a vida continuava sem brinco e sem pintura.

Em casa, às cinco da tarde, sentiu a falta e prontamente perguntou ao irmão, Célio, se ele, quando havia arrumado a mesa do café da manhã, dobrara a toalha sem perceber a presença do brinco. O irmão deu uma resposta incerta. Celina foi então ao cesto, onde estava a toalha, desdobrou-a e notou ali somente um quadriculado marrom num pano de prato caído. Daí, imediatamente, veio a lembrança de que às dez horas da manhã daquele dia havia sido retratada por um artista que a abordara na rua. E lembrou-se também de notar que no fundo do quadro existia muito marrom claro e pastoso. Deste modo, amarronzado, o episódio matinal retornou aos seus sentidos. O pensamento passeou e ela especulou. "Por que tanto marrom? Será que sou uma mulher marrom? Mulher de tons terrosos? Uma mulher sem cor? Acho o marrom tão triste... tão comum.", indignada, sentiu-se usada e até mesmo enganada.

Havia uma esperança de sentir-se bela e atraente àquele homem tão bonito e talentoso. Aceitava sempre a imagem de ser uma mulher comum apenas pra sossegar a sua extrema vaidade. O comum acalma. No entanto, seu desejo era o de ser uma mulher vermelha, flamejante, com bastante brilho e alegria. "Será que ele retirou os brincos por que eles eram verdes?", melancólica, a figura assombrou-se. "Quis deixar-me mais marrom?" A inquietação tomou conta dessa mulher de 35 anos. Esquecera até que não vira o desenho do seu rosto concluído. Logo, devia acalmar-se porque a pintura estava ainda no seu início. Poderia talvez ganhar outras tonalidades até o momento do seu arremate. E quem sabe daquele ocre original, Lucas alcançasse um vibrante vermelho. Contudo, sua mente obtinha somente a lembrança da tonalidade da tinta como um insosso amarronzado. E era o suficiente para deixá-la agoniada.

Correu em direção ao banheiro e na penteadeira não achou nenhum batom vermelho. Percebeu somente a presença de um marrom escuro. Apesar de o tom diferir absurdamente daquele ocre desgastado presente na tela do pintor de sua reminiscência, a modelo quebrou o batom e continuou completamente magoada com Lucas. O banheiro ficou desequilibradamente manchado de marrom escuro. Tudo gerado pela ira de sentir-se mal interpretada, mal amada e desprezada. Ela tornou-se só instinto e sua face estava completamente vermelha, tomada pela fúria da vaidade. Era uma fera ferida. O grau de auto-referência que lhe acometeu a impedia de ter qualquer pensamento amenizador. Não conseguia ver as nuances nas cores e nem a transformação de coloração da cólera em seu rosto. Por isso, pegou, de súbito, a bolsa que estava em cima do sofá da sala e saiu para rua. Quis ir depressa a um salão. Cortou os cabelos, pedindo um corte esvoaçante a Victor, e, seguiu para a mais requisitada das lojas de produtos de beleza. Lá comprou batons vermelhos, alaranjados, e até mesmo um azul. Experimentou esse e assim foi ao ateliê de Lucas com o intuito de pedir-lhe os brincos.

Ao chegar ao prédio do pintor, cumprimentou o porteiro que não conhecia, apenas pela intimidade adquirida naquela manhã, e foi ansiosa pelas escadas até o terceiro andar, onde mora e trabalha o artista. Ali, Lucas estava limpando a sala, pegando fotografias jogadas no chão, recortes de papéis diversos, jornais encardidos com tinta, colas enegrecidas pela poeira, cotocos de madeira, tecidos em pedaços, etc. Num segundo, o olhar da senhorita retratada fez uma listagem maior do que a descrita aqui.

Esfregou consciente a sapatilha do pé esquerdo no chão cheio de pedrinhas, sentindo um arrepio de nervoso em seu próprio corpo e provocando uma irritação momentânea no pintor desatento, o que transformou imediatamente o incômodo em convite de atenção. "Oi?". Daí ele respondeu também oi. Ofegante, a moça pediu silenciosamente uma pausa. "Quer um copo de água?", disse Lucas. "Nunca". "É bom não dizer isso... você pode morrer totalmente seca.", carinhoso e sarcástico, o artista, depois de advertir a fala de Celina, vai à cozinha e lhe traz um copo de água. Ao beber o líquido, ela notou que o batom azulado tinha se fixado um pouco no recipiente transparente. Entregou o copo ao pintor, abriu sua bolsa, retirou o batom azul e avisou ao rapaz que iria ao toalete se maquiar. Voltou e em vez de pedir para ver o quadro antigo, exigiu do artista um retrato novo.

Lucas animado pelo prazer da figura em deixar-se pintografar, correu em direção das tintas, de uma tela virgem e arrumou rapidamente o ateliê para a execução da pintura. Adotaram somente a regra do mesmo gesto das mãos segurando a nuca. Havia algo nos braços nus da mulher que agitava emocionalmente o jovem. Dessa vez, Celina resolveu ficar ali por mais tempo. Queria controlar as cores. Olhava um pouco sem entender a presença do amarelo, do verde, do vermelho nos coloridos do pintor. Mas estava disposta a discutir com ele o resultado final.

"Pronto!". Lucas mostra pra Celina a sua figura de tinta. Embaralhada com a imagem dela no espelho do ateliê e com a sua figuração na tela, desespera-se por não reconhecer-se em nada. Não é aquela mulher colorida, um clown de lábios azulados, cheia de maquiagem conforme diz a imagem do espelho. Nem tampouco se identifica com aquela palidez verde e amarelada do quadro de Lucas. Chora intensamente no seu interior. Os intensos ecos de desespero a faz entontecer. "Como uma mulher sem fundo pode ser tão instável na superfície?", pensou algo próximo a isso. Nenhuma lágrima deu a Lucas. Ficou ali pálida e totalmente maquiada. Radiante com a sua obra, o pintor amou por instante aquela mulher. Tocou-lhe as mãos, acariciou-lhe os braços. Ela sem força pra sair dali, mortificou-se e entregou-se aquele homem.

Depois daquele amor, Celina foi embora. Precisava deixar-se em paz. Não suportava aquela amorosidade cheia de superioridade poética. Nunca se sentiu tão mortificada. Sempre havia sido uma mulher cheia de vontade de vida e por um momento encontrou-se diante da incapacidade de existir. Notava que o outro não a enxergava e nem ela própria tinha a capacidade de explicar-lhe o equívoco, porque também não controlava os contornos e efeitos dos seus ângulos e das suas cores. Sentia, entretanto, algo concreto: não queria ser vista como uma mulher pálida, nem ser amada por ser uma mulher comum. Conhecia com precisão o seu desejo, pelo menos mais do que a sua imagem. Fez uma simplificação de tudo o que viveu ali, cultivando um sentimento de desprezo por aquele homem. "É um idiota", pensou alto e saiu pela rua. Jogou fora as maquiagens, fez um rabo de cavalo com a finalidade de esconder o penteado novo, e propositadamente deixou o brinco onde estava. Depois daquele dia não foi ser feliz. Foi simplesmente viver.

No seu apartamento, Lucas tentou ligar para Celina em vão. "Não atende!", repetiu isso uma centena de vezes. Sentia durante trinta dias e trinta noites o cheiro de carne e de tinta daquela mulher e não compreendeu o abandono de uma relação que parecia tão fecunda. No mínimo, poderia lhe render uma série de quadros. Sua ingenuidade de artista nunca formulou que aquela mulher não suportava ser amada como um ser comum, não suportava a ironia desse amor.

Havia em ambos uma espécie de platonismo erodido com formatos distintos. Ele precisava estar nesse lugar de ironia, sobrevoando o objeto amado como um demiurgo em busca de uma verdade prosaica, num processo de idealização de uma verdade destituída de beleza. Daí a erosão do platonismo de Lucas. Sua ação diante do mundo era idealizada. Contudo a sua busca pela verdade do real já era uma idealização rarefeita, pois se confundia com o ordinário, com o que havia de mais comum naquela mulher, os seus braços nus. Ele inventava o corriqueiro, achando, contudo, que tocava na nervura do real. Celina vivia no mundo perdida, sem saber ao certo o que é existir, pressentindo em sua ignorância um mistério absurdo. Agia presa ao axioma do mistério. Sabia trocar com os outros. Orgulhava-se de ser uma ótima irmã. Aprendera com essa prática a dividir. Os irmãos, Célio e Celina, formavam uma equipe. Era o que todos diziam e ela repetia. A moça sentia um tédio enorme de quem se achava possuidor da verdade. Odiava os pastores, os políticos, os professores e a partir desse episódio seu rancor foi dado aos artistas. Entretanto, desejava ardentemente ser amada como a Cinderela, queria ser considerada a princesa mais bela de um reino encantado. Não percebia como o seu próprio desejo a reificava. Ingênua, ela seguia a vida sentindo-se livre sendo coisa, enquanto ele iludia-se com a liberdade de ser sujeito. É provável que o desencontro amoroso seja um platonismo partido por uma erosão causadora de desencaixe. Cada um platoniza-se ao seu modo, num mundo ideal fechado sem pontos de contatos. Cada um com seu amor, com sua ideia, com sua beleza, e sem compartilhar a sua solidão. Cada um no seu quadro e vendo pelo seu enquadramento de campo.

Perdidos em suas gestalts e sem um novo encontro, Lucas e Celina se separaram para sempre.

Referência: Lucien Freud, FIGURA COM BRAÇOS DESNUDOS João Cícero Bezerra é diretor, crítico teatral, dramaturgo e teórico de arte. Formado em Teoria de Teatro e com mestrado em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), atualmente é doutorando do curso de História da Arte na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).
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