Personagens:
Cliente
Costureiro
Numa sala de costura. O cliente entra. O costureiro está trabalhando em algum tecido.
Cliente - Com licença...
Costureiro - Sim?
Cliente - O senhor está muito ocupado?
Costureiro - Um pouco.
Cliente - É que eu tenho uma emergência.
Costureiro - Emergência?
Cliente - Sim, uma emergência.
Costureiro - Grande?
Cliente - Sim.
Costureiro - Sim! Diga-me: o que não é emergente neste exato instante? É só o senhor dar uma olhada em volta e perceber que todas as coisas que estão aqui possuem uma carga de emergência, de certa maneira.
Cliente - Bom, a emergência que tenho é apenas um pedaço de tecido rasgado, mas que impossibilita o percurso habitual de meu dia.
Costureiro - Entendo... Tudo bem, diga-me o que deseja. Posso me interromper nos meus serviços para lhe atender. Mas apenas por um breve momento!
Cliente - Tudo bem.
Costureiro - E então?
Cliente - Como eu havia lhe falado, há um pedaço de tecido rasgado que impossibilita o percurso habitual de meu dia.
Costureiro - E então?
Cliente - (Apresentando o rasgo) Você poderia costurar este pedaço de manga?
Costureiro - Costurar este pedaço de manga? Eu não sei se...
Cliente - Exatamente, costurar este pedaço de manga.
Costureiro - Na própria camiseta que você está vestindo?
Cliente - Sim, costurar este pedaço de manga nesta camiseta que estou vestindo.
Costureiro - Em quais cores?
Cliente - Em quais cores o quê?
Costureiro - Em quais cores a costura?
Cliente -Cores? Eu não havia pensado sobre isso. Bom, algo que se assemelhe à cor da antiga costura.
Costureiro - E qual seria a cor da antiga costura? É a mesma cor da que está costurada no braço direito?
Cliente - Sim, a mesma cor. Porém já está um pouco desbotada.
Costureiro - Em qual delas?
Cliente - Desculpe-me?
Costureiro - Qual das cores há o desbotamento?
Cliente - As cores da minha camiseta, na verdade, são apenas uma. O senhor parece enxergar duas cores por causa do desbotamento de que lhe falei.
Costureiro - E então você quer uma cor desbotada para a nova manga?
Cliente - Não exatamente. Eu quero uma nova cor que se assemelhe ao que já existe. O fato de ser algo semelhante não significa que seja a mesma coisa, apenas que se aproxime de alguma coisa que já exista.
Costureiro - Eu não compreendo muito bem.
Cliente - Eu disse que a cor da costura pode ser algo que se assemelhe a cor desbotada, até mesmo porque eu não acredito que haja uma cor desbotada especificamente agora neste local. Portanto a nova cor é semelhante, não exatamente a mesma.
Costureiro - (Duvidoso) Mm...
Cliente - Você poderia simplesmente costurar este pedaço de manga?
Costureiro - Eu preciso decidir a cor da linha. E como se trata de uma camiseta que não é minha, então a decisão depende somente do senhor. Eu poderei costurá-la, sim, mas só quando esta decisão estiver sido apresentada.
Cliente - A costura não depende de cor alguma.
Costureiro - Está certo, não depende.
Cliente - Então costure de qualquer forma.
Costureiro - Você não está preocupado com a cor que isto pode ficar?
Cliente - Desde que eu tenha uma manga costurada, não me importa mais nada. A cor não é tão importante assim para este pedaço de tecido que me veste.
Costureiro -Eu tive a leve sensação de que o senhor estava interessado em cores há alguns instantes. Estou enganado? Não posso, simplesmente, ignorar qualquer padrão que já esteja impregnado na camiseta. Isto seria retorcer uma essência preexistente.
Cliente - O senhor esqueceu-se que esta camiseta pertence a mim? Pois então a essência é minha também, assim como a preexistência de qualquer coisa que esteja colada ao meu corpo.
Costureiro - Sim, eu concordo com o senhor.
Cliente - Pois bem, costure-me agora mesmo que eu já estou ficando atrasado. Costure de qualquer forma, de qualquer cor, eu não posso sair desta forma na rua.
Costureiro - Sim, eu concordo com o senhor.
Cliente - E o que espera?
Costureiro - É que, de repente, sobressaltou-me uma questão perturbadora: como o senhor rasgou-se nestas partes da camiseta?
Cliente - Acredito que esta não seja mais uma questão que lhe diga respeito. Desculpe-me.
Costureiro - Tudo bem, só estive curioso por alguns poucos segundos.
Cliente - Eu entendo. A curiosidade é algo que está.
Costureiro - É, a curiosidade é algo que está.
(Silêncio)
Cliente - Sim, e eu estou curiosíssimo para ver o resultado deste trabalho que ainda nem se iniciou.
Costureiro - Mas o princípio está próximo, veja bem. No instante em que a cor estiver decidida. Aí então teremos uma bela manga costurada.
Cliente - Tudo bem, tudo bem. Eu escolho a linha vermelha.
Costureiro - Mas, assim, de supetão?
Cliente -Sim!
Costureiro - E está certo desta decisão?
Cliente - Nunca estive tão acertado com uma questão em minha vida como estou agora.
Costureiro - Então eu poderia afirmar que esta decisão é a mais importante de todas da sua vida?
Cliente - Bem, não foi isso que eu quis dizer.
Costureiro - Eu acho que não estou mais gostando da nossa conversa e notei que não encontrei no senhor alguém com quem eu possa me abrir e manifestar-me com totalidade. Tenho o senhor apenas como um cliente, nada mais.
Cliente - Senhor, é exatamente isto que eu sou, e nada mais. Acabei de entrar no seu estabelecimento.
Costureiro - E desde o princípio eu estabeleci que o senhor necessitaria pensar um pouco mais sobre as coisas que circundam os seus braços. Acredito que o senhor não esteja em consonância com as coisas que passam por mim. E noto que há certo enlevo forçado nesta nossa conversa. O senhor não percebe?
Cliente - Bem, eu considero que este prazer não é forçado, mas sim fingido.
Costureiro - Não seria a mesma coisa? A expressão destas duas palavras?
Cliente - Fingido e forçado?
Costureiro - Exatamente. E mais: o senhor me leva numa conversa que me deixa com dores de cabeça.
Cliente - Desculpe-me, eu não queria. E se eu me calar?
Costureiro - Pode ser uma boa solução.
Cliente - (Impondo a si mesmo) Calo-me de agora em diante, portanto. E qualquer palavra que eu possa dizer a seguir, que fique bem claro, não será uma vontade minha, mas sim uma espécie de espasmo vocal. Calo-me de agora em diante para que você possa costurar calmamente.
Costureiro - Eu agradeço o seu esforço e o mesmo será recompensado com um desconto de 15% no valor final de todo o serviço.
O cliente faz sinal positivo com a cabeça.
Costureiro - Portanto, como eu bem mesmo disse ao final de toda esta nossa conversa, eu notei uma coisa no senhor que não havia notado em outras pessoas que aqui entraram. Acredito que o senhor não nasceu para a costura assim como eu não nasci para ficar andando por aí nestas ruas escuras como faz o senhor. Cada um nasce para o que deve ser, não é verdade? E uma linha vermelha até que pode cair bem numa manga como esta. Ainda estou curioso: como se rasgou de seu braço?
O cliente faz menção de que não pode falar.
Costureiro - Como eu ia dizendo, eu ainda estou trabalhando nas possibilidades de incongruências que um pedaço de tecido mal costurado pode ter. Todas as linhas utilizadas na aquisição de novos moldes se desvanecem um dia, e o molde tende a ficar um pouco retorcido, disforme e até mesmo, ah, casual. Isto já aconteceu ao senhor?
O cliente faz menção de que não pode falar.
Costureiro - Ah, sim, esqueci-me: o senhor nada fala para não perturbar-me agora. Mas eu sei que, mesmo que pudesse falar, continuaria calado feito a bengala que segura.
Cliente - É uma sombrinha, veja! (Abre a sombrinha.)
Costureiro -Minha cabeça!
Cliente - Desculpe-me!
Costureiro - O senhor, por favor, faça o favor de não desgrudar os lábios?
O cliente demonstra que está de boca bem fechada.
Costureiro - Como eu ia dizendo... Eu acho que o que o senhor acabou de fazer não foi um espasmo vocal, mas sim uma fala bem intencionada, premeditada. Mas é uma bela sombrinha, isto eu não posso negar.
O cliente gira a sombrinha em seu ombro e depois a fecha, servindo de apoio novamente. Há barulho da máquina de costura. O barulho pode ser emitido pela boca do costureiro.
Costureiro - Os nomes não interessam. Eu apenas chamo-o de senhor assim como chamo quem é outro homem também. E chamo de senhora quem pode ser outra mulher. Eu já chamei a mesma pessoa de senhor e de senhora no intervalo de um dia. Não é de se espantar?
O cliente nada manifesta. Há um silêncio entre os dois. A máquina não está emitindo som. O costureiro rompe com o silêncio.
Costureiro - Como eu ia dizendo desde o princípio de nossa conversa, assim que vi o senhor adentrando esta loja, percebi que estaria certo sobre o que procurava. Certos aspectos exteriores são muito reveladores.
Silêncio.
Costureiro - Como eu ia dizendo desde o princípio de nossa conversa, assim que o vi eu percebi que poderia entender o grau de dificuldade que poderia estar envolvendo a escolha da cor de uma linha para costurar uma manga em uma camiseta rasgada sabe-se lá como. Eu sei que são questões difíceis estas que estamos vivendo.
Silêncio.
Costureiro - Noto que o senhor é de poucos gestos, não?
O cliente concorda com um movimento de cabeça.
Costureiro - Sim, é de poucos gestos, e dos poucos que faz, nota-se que são concisos, breves, quase invisíveis.
Silêncio.
Costureiro - Eu estive estudando os gestos humanos.
Máquina emite som de quebra.
Costureiro - Minha nossa, como pode ter quebrado tão rapidamente! Mas o importante é que eu já havia terminado a sua manga. Veja que bela linha vermelha envolvendo cada parte da costura.
O costureiro apresenta apenas a manga e nada mais. Cliente tenta mostrar que falta mais alguma coisa. Não consegue e rompe com o seu silêncio.
Cliente - Cadê o resto da minha camiseta?
Costureiro - A sua voz! Não!
Cliente - O senhor apresentou-me apenas uma manga. Cadê o resto da minha camiseta?
Costureiro - A sua voz, senhor. Peço que se cale.
Cliente - Eu não posso calar-me, e eu não posso, igualmente, permanecer nu da cintura para cima.
Costureiro - Oh, mas é verdade. O senhor está meio nu! Que vergonha, meu deus, que vergonha. Como eu pude permitir! Tome, envolva-se neste lençol.
Cliente - Obrigado. Mas, e agora, como fica o resto da minha camiseta? O que o senhor fez?
Costureiro - Eu peço muitas desculpas, mas creio que não posso continuar este serviço até medicar-me e acabar com esta dor de cabeça. Peço licença.
Cliente - Não, o senhor não pode me deixar aqui sozinho enquanto aguardo a minha camiseta. O senhor precisa terminar o serviço. Eu pagarei.
Costureiro - E pagará com 15% de desconto como eu havia prometido. Agora, por favor, é só um instante até eu voltar. O medicamento está no primeiro pavimento de minha casa, eu já volto.
Cliente - É no subsolo?
Costureiro - Exato.
Cliente - O senhor não tem medo?
Costureiro - Não, nunca me assustei com o subsolo.
Cliente - Pois então vá logo, porque há um bebê me esperando.
Costureiro - Tudo bem. Ah, um bebê lhe esperando?
Cliente - Sim, há um parto.
Costureiro - Então o senhor é médico?
Cliente - Não necessariamente.
Costureiro - O senhor vai assistir o parto?
Cliente - Não, vou abrir uma barriga.
Costureiro - Então é médico e ponto final.
Cliente - Não necessariamente.
Costureiro - Mas como pode abrir uma barriga se não é médico?
Cliente - Só porque eu abrirei uma barriga não significa que eu seja um médico propriamente.
Costureiro - Então é assistente?
Cliente - Assistente é quem assiste. Eu vou operar de verdade. Então eu sou um operante e não assistente.
Costureiro - Um operante que não é médico?
Cliente - Exato. Mas isso não importa ao senhor. O que está nos importando agora é que o senhor costure logo para que eu possa dar início ao parto.
Costureiro - Sim. Porém, há mais uma questão: por que o senhor mesmo não costura esta manga já que pode costurar uma pessoa?
Cliente - Apenas vá e retorne em breve.
Silêncio.
Costureiro - Senhor!
Cliente - Sim?
Costureiro - Antes de ir, eu gostaria de deixar claro que há algum erro na nossa conversa.
Cliente - Desculpe-me?
Costureiro - Sim, é exatamente isto. Eu não sei, há alguma coisa que não está funcionando.
Cliente - Como você mesmo disse, a nossa relação não passa de comerciante-cliente, cliente-comerciante.
Costureiro - Eu sei.
Cliente - Então?
Costureiro - Eu acho que é algum problema na escrita, você me entende?
Cliente - Não, não lhe entendo. Não obedeço a essas coisas. O que falo é resultado de uma espontaneidade em resposta ao que me acontece em momentos antes da fala sair. Então eu primeiro vivo a parte e depois digo qualquer coisa que esteja de acordo com o que aconteceu.
Costureiro - Exatamente aí que está o problema: eu não consigo me habituar à sua improvisação.
Cliente - Espontaneidade e improvisação são coisas diferentes, não são?
Costureiro - Mas eu não posso fugir ao meu texto. Eu preciso segui-lo.
Cliente - E o que o seu texto diz para ser feito agora?
Costureiro - O texto diz que eu preciso enrolar o senhor por algum tempo e que a sua manga tardará a ficar pronta.
Cliente - Sério?
Costureiro - Sim.
Cliente - Pois então, o que eu farei?
Costureiro - A menos que não entre no meu texto, continuará sem manga.
Cliente - E o que eu devo fazer?
Costureiro - Falar o que você decorou.
Cliente - Mas eu não decorei absolutamente nada.
Costureiro - Não se lembra do texto?
Cliente - Não recebi nada.
Costureiro - Não sabe o que fazer agora?
Cliente - Não estudei coisa alguma.
Costureiro - Não foi direcionado por alguma outra pessoa?
Cliente - Não recebo ordens superiores.
Costureiro - Não se alongou antes de entrar aqui?
Cliente - Não preciso destas coisas.
Costureiro - Não se formou primeiro?
Cliente - Não. Estou aqui apenas pela manga e nada mais. Diga-me, por favor, o que faço agora.
Costureiro - Então fique com esta folha, memorize o texto e quando eu voltar do subsolo, vamos seguir o que está escrito aí. Eu já sei tudo, está na ponta da minha língua.
Cliente - Tudo bem.
O cliente está lendo freneticamente a folha. Fecha os olhos e testa a sua memorização. Passam-se alguns segundos e o costureiro retorna.
Costureiro - E então?
Cliente - Isto não está no texto.
Costureiro - O quê?
Cliente - Este seu “e então?”, isto não está no texto. Vamos seguir à risca, eu já sei tudo o que devo fazer.
Costureiro - Tudo bem. Eu já me mediquei, senhor. Agora posso terminar o seu trabalho.
A conversa que se segue é em tom de afetação, como pessoas que sabem o que vão falar, sem espontaneidade alguma, e que não demonstram nenhum espanto ou surpresa frente ao que acontece.
Cliente - Oh, como estou feliz com o seu retorno. É necessário que eu saia logo daqui.
Costureiro - Sim, eu muito bem sei disso, meu caro senhor. É só eu costurar mais um pouco, assim que tudo isto estiver consertado.
Cliente - É mesmo uma grande máquina esta que o senhor possui. Onde foi adquirida tal preciosidade?
Costureiro - Semana passada, numa loja de liquidação. Custou o dobro do que seria a metade para uma máquina mais usada do que esta.
Cliente - Ótimo negócio.
Costureiro - É, eu sei.
Cliente - Sim.
Costureiro - Bom negócio.
Cliente - Excelente, eu diria.
Silêncio. Alguém esqueceu parte do texto. Folheiam páginas.
Cliente - Então, como eu ia dizendo, o senhor...
Costureiro - O senhor não quer tomar uma xícara de café?
Cliente - Sim, aceito com todo o prazer.
Costureiro - Sim.
Alguns segundos...
Cliente - O café, por favor?
Costureiro - Desculpe-me, não posso servi-lo agora. A máquina está pronta, vou costurar o que o senhor me pediu.
Cliente - Tudo bem.
Costureiro - Se quiser um cafezinho, se o senhor faz mesmo questão de um café, há uma padaria logo em frente. Chama-se “Prazer”.
Cliente - Belo nome.
Costureiro - Obrigado.
Cliente - O que agradece?
Costureiro - Eu pensei que fosse um elogio.
Cliente - É, é sim.
Costureiro - Está vendo no crachá? Este é meu nome.
Cliente - Sim, é belo também.
Costureiro - Acho muito doce.
Cliente - Oi?
Costureiro - O café do “Prazer”. Peça sem açúcar, se por acaso o pedir.
Cliente - Não, eu realmente não faço questão de cafezinho, eu quero apenas a minha camiseta costurada.
Costureiro - Sim, a sua camiseta.
Cliente - É, a minha camiseta.
A camiseta está pronta. Mas o costureiro costura-a totalmente, sem deixar passagem para o braço.
Costureiro - Pronto!
Cliente - Ufa, eu pensei que fosse levar muito mais tempo.
Costureiro - É, no papel parece muito mais tempo, mas o senhor vê que de verdade as coisas acontecem muito rápido. Às vezes eu acho que seria melhor se ficássemos calados.
Cliente - Sim...
Costureiro - Vista-se, por favor. Prove-se.
Cliente - Sim...
Cliente veste-se. Sente um desconforto e percebe que o braço continua por baixo da camiseta. Assemelha-se a um amputado: apenas um braço e uma mão à vista.
Costureiro - E então?
Cliente - Sinto um desconforto.
Desvencilham-se do texto memorizado.
Costureiro - O que o senhor insinua?
Cliente - Não estou insinuando nada, apenas que há um desconforto real em mim. Eu não sei explicar exatamente.
Costureiro - Bom, olhe-se no espelho e não notará absolutamente nada de errado.
Cliente - Tudo bem. (Olha-se no espelho) Sim, veja, mas é claro, é por isso mesmo. Eu não estava me sentindo totalmente. Por acaso você vê meu outro braço?
Costureiro - Não. Eu deveria?
Cliente - Como?
Costureiro - Sim, eu deveria ver mais alguma coisa?
Cliente - O que o senhor está insinuando?
Costureiro - Nada, meu senhor, não estou insinuando nada. Apenas digo que não vejo nada. Vejo uma manga costurada, como você queria.
Cliente - Sim, ela está costurada, mas está extremamente costurada, demasiadamente costurada, desnecessariamente costurada.
Costureiro - Agradeça! Assim ela não se rasgará tão facilmente. E nem precisa se preocupar: o gasto excessivo de linha não será cobrado e o senhor receberá, do mesmo modo, os 15% de desconto que eu havia prometido!
Cliente - Meu caro costureiro, o senhor só deve estar brincando comigo! Veja só: você costurou a saída da manga, o buraco por onde o meu braço deveria sair. Não está notando? O meu braço não está aqui. Não há nada.
Costureiro - Bom, desculpe-me. Eu não pensei que você fosse ficar tão ofendido por isso. Mas é que, como não há nada a passar pelo buraco, pensei que seria mais útil costurá-lo. Assim você pode prevenir-se do frio que essas partes sentem.
Cliente - Que? Como?
Costureiro - O que foi, senhor?
Cliente - Não estou entendendo o que o senhor está querendo dizer com tudo isso. Como assim, não há nada a passar pelo buraco? E prevenir-me do frio que posso sentir nessas partes? A que o senhor está se referindo?
Costureiro - Meu caro... Tudo bem, tudo bem, eu desfaço o serviço. Peço desculpas se eu o ofendi, eu só queria ajudar.
Cliente - Mas eu não entendo de que maneira o senhor quer me ajudar quando decide interromper a passagem de um membro num pedaço de roupa.
Costureiro - Olha, eu posso entender o que o senhor está passando neste exato instante. Foi muito recente?
Cliente - Muito recente o quê?
Costureiro - Parece mais difícil do que eu imaginava... Faz pouco tempo que o senhor perdeu o seu braço?
Cliente - O senhor deve estar louco, não me faça rir...
Costureiro - O que foi?
Cliente - Desculpe-me, o senhor deve estar cansado...
Costureiro - Vamos, tire a camisa. Arrumarei o que fiz. Assim o senhor aproveita para se olhar um pouco no espelho.
Cliente - Ora essa! (Tirando a camisa e entregando ao costureiro) Bom, de qualquer maneira, desfaça esta costura.
Costureiro - O espelho está logo ali (apontando).
Cliente olha rapidamente ao espelho, como que sentindo algum medo. Desvia do seu reflexo, faz uma cara de espanto e segundos depois fita-se mais longamente.
Cliente - Não é possível! (Cai sentado numa cadeira)
Costureiro - Eu posso lhe entender, meu caro senhor. Deseja um copo de água? Água com açúcar? Talvez o café doce do Prazer lhe faça algum bem agora.
Cliente - (Gaguejando) Não, não, eu estou bem!
Costureiro - Leva-se um tempo a acreditar.
Cliente - Como isso foi acontecer?
Costureiro - Não sei, mas eu já sabia, está escrito no texto.
Os dois lêem o texto. O cliente, enfim, não tem mais dúvidas: está sem um dos braços.
Cliente - Estou um pouco espantado, pra falar a verdade. Eu não tinha notado.
Costureiro - Eu já li isto em revista. Trata-se de um membro fantasma.
Cliente - Como?
Costureiro - Sim, o senhor acha que o membro ainda está aí, o senhor ainda o sente, mas na verdade ele não está mais. É um membro fantasma.
Cliente - Mas me diga: como vou fazer o parto agora?
Costureiro - Como o senhor sempre fez: com uma única mão.
Cliente - Por isso nunca fiz partos de gêmeos?
Costureiro - Pode ser uma possibilidade.
Cliente - Como não percebi antes...
Costureiro - É, leva-se um tempo. A verdade dói, às vezes.
Cliente -Meu senhor, não pode ser possível!
Costureiro - Como não?
Cliente - Eu não me recordo como isso foi acontecer...
Costureiro - Só porque o senhor não lembra, não quer dizer que não possa ter acontecido.
Cliente hesita, permanece pensativo.
Cliente - Sim, sim... É, o senhor pode ter razão. É bem convincente.
Costureiro - Vamos tentar recordar...
Cliente - Tudo bem.
Costureiro - O senhor praticou algum esporte perigoso?
Cliente - Não.
Costureiro - Sofreu algum acidente?
Cliente - Não me recordo.
Costureiro - Prendeu o braço em algum elevador?
Cliente - Também não. Isto estaria incluído na parte dos acidentes.
Costureiro - Exato. Mm, bem, vejamos: o senhor contraiu alguma doença, algum distúrbio hormonal, alguma coisa com relação a tudo isso?
Cliente - Igualmente não.
Costureiro - Bem, talvez a perda do braço tenha causado algum tipo de amnésia que atravessou alguns anos. Eu já li isto em revista também: é seu inconsciente tentando negar a inexistência de um braço.
Cliente - Faz sentido.
Costureiro - E então o senhor realiza tudo como se tivesse dois braços, e não apenas um. Vamos lá, você se acostuma...
Cliente - Não, eu não posso me conformar.
Costureiro - Tudo bem, não há nada a temer. O senhor já está vivendo desta forma por muito tempo.
Cliente - Sim. E há um parto me esperando.
Costureiro - Exatamente.
Cliente - Por favor, quanto eu lhe devo?
Costureiro - São 15% de desconto, então é de graça.
Cliente - Como?
Costureiro - É, parece matemática enganada, mas eu adotei o meu próprio modelo de descontos, portanto não questione. É de graça.
Cliente - Ah, fico muito agradecido.
Costureiro - Tudo bem.
Cliente - Bom, eu já vou indo que é meu tempo.
O cliente cumprimenta o costureiro com a mão que não há. Portanto, é um cumprimento pela metade, já que uma mão não existe.
Costureiro - Por um momento pude sentir sua mão que não existe.
Cliente - Acho que o fantasma do meu braço está nascendo na sua cabeça também...
Costureiro dá as costas. Está mexendo na máquina. Enquanto o cliente está se despedindo mais uma vez, o costureiro vira-se novamente e apresenta uma face que não existe.
Cliente - Minha nossa, o que aconteceu com sua face?
Costureiro - O que tem ela?
Cliente - Nada.
Costureiro - Sim.
Cliente - Exato, absolutamente nada. Por onde respira? Como me enxerga?
Costureiro - Do mesmo modo que estive fazendo desde o primeiro momento de nossa conversa, por esta aparelhagem toda aqui. (Aponta para a máquina de costura)
Cliente - Mas não é uma máquina de costura?
Costureiro - Também.
Cliente - E como não percebi antes essa falta de face?
Costureiro - É apenas por educação que o senhor procedeu assim. E quando aceitou realmente a inexistência de seu braço, começou a me tratar igualmente, num nível que apenas nós dois podemos entender.
Cliente - Eu sinto muito.
Costureiro - Não, não sinta. Eu mesmo não sinto mais.
Cliente - Mas e como faz para sair às ruas?
Costureiro - Apenas saio.
Cliente - E como todos se comportam? Não se assustam?
Costureiro - Fazem como o senhor fez até então. É por educação. Eu já nem me assusto com grandes narizes e bocas pequenas.
Silêncio.
Cliente - Percebe que não seguimos mais o roteiro?
Costureiro - Eu mesmo desobedeci às ordens.
Cliente - E então?
Costureiro - Nada.
Cliente - Nada?
Costureiro - Nada.
Cliente - E então?
Costureiro - É apenas isto.
Cliente - Tudo bem. Vemo-nos em algum outro momento?
Costureiro - Talvez.
Costureiro está saindo. Quem fica na sala de costura é o cliente, como se aquele local fosse o seu.
Cliente - Bem, então adeus. Eu vou começar o parto agora mesmo.
Costureiro - Adeus.
Cliente - Sim.
Costureiro - Então...
Cliente - Adeus.
Costureiro sai definitivamente. O cliente senta-se na cadeira e começa o seu trabalho. Com uma pequena agulha, vai desfiando os fios de sua manga. Aos poucos, aparecem dedos e, logo em seguida, um braço. O parto está feito.
Florianópolis, junho de 2009
Claudinei Sevegnani, 22 anos, estudante de Artes Cênicas pela Universidade Federal de Santa Catarina. Autor do blog http://cadeiragiratoria.wordpress.com/