outubro/2008 VERMUTE COM AMENDOIM - Peça inacabada sobre um amor de Carnaval. por Walter Daguerre
Walter Daguerre
Quarto de motel. Um homem e uma mulher que acabaram de transar estão deitados na cama, um ao lado do outro, calados, cada qual mergulhado nos próprios pensamentos. A cena não expressa, nem êxtase, nem tristeza; talvez uma certa indiferença.
Ele começa a fingir que está fumando, dando longas e prazerosas tragadas.

ELA - O que é que você tá fazendo?

ELE - Fumando, não tá vendo?

ELA - Não. E você não fuma.

ELE - É, mas eu queria.

ELA - Bobagem...

ELE - Sempre tive inveja dos fumantes...

ELA - Heim?

ELE - O prazer de um cigarro depois de uma boa refeição, depois de uma boa xícara de café, depois de uma boa trepada...

Silêncio.

ELA - Fuma, então. De verdade.

ELE - Faz mal pra saúde.

ELA - Mas pelo jeito o prazer compensa.

ELE - Aos 12 anos eu tinha um amigo, a gente juntou uns trocados e comprou um maço de Craque...

ELA - Craque?

ELE - Um mata-rato que tinha um jogador de futebol desenhado na embalagem, coisa pra macho, não pra moleque de 12 anos. Enquanto eu fingia que fumava, tava tudo certo. (fazendo a mímica) Eu acendia meu cigarro como macho; chupava a fumaça fazendo olhar de macho; ficava um tempo com a boca fechada e depois expulsava a nuvem branca da boca, sempre com pose de macho. Até que meu amigo resolveu me ensinar a fumar de verdade. Ele me disse uma parada que eu não vou esquecer nunca – nunca!

Pausa.

ELA - O que foi que ele te disse?

ELE - Esqueci. Eu sei que na hora que eu traguei o estômago embrulhou, a cabeça começou a girar, senti falta de ar, vomitei, desmaiei...

ELA - Desmaiou?

ELE - Sei lá, tô exagerando, não importa. O que importa é que daquele dia em diante eu tomei uma ojeriza tão grande de cigarro que nunca mais coloquei um na boca.

ELA - Então foi bom pra você, a experiência foi boa.

ELE - Meu amigo começou a fumar de verdade – o bolso da camisa de escola sempre exibindo aquele volume quadrado – e eu passei a ter uma puta inveja dele.

Ele finge dar um longo e prazeroso trago. Silêncio.

ELA - Não queria que tivesse sido dentro.

ELE - Você não tá tomando pílula?

ELA - Tô, mas é que agora eu vou ficar toda – ah! você sabe.

ELE - Sei… Você não falou nada.

ELA - É, eu esqueci.

Pausa.

ELA - Tá ouvindo?

ELE - Não, o quê?

ELA - O bloco.

ELE - Outro?

ELA - Tem bloco toda hora, em tudo quanto é lugar.

Ela se levanta e começa a vestir suas roupas, na verdade uma fantasia de Colombina.

ELE - O que você tá fazendo?

ELA - Não tá vendo?

ELE - A gente não gastou nem uma hora do período.

ELA - Não quero perder o bloco.

ELE - Você vai pegar mais uns dez blocos até o final do carnaval.

ELA - Tô com fome, vamos comer.

ELE - Eu peço comida pra gente aqui no quarto. Não é lá grande coisa, mas...

ELA - Quero ir embora daqui, ir pra rua, ver gente, sei lá...

ELE - Mas a gente acabou de sair de um bloco lotadaço, com gente saindo pelo ladrão; não dava nem pra coçar o nariz! A gente veio pra cá pra se curtir, só nos dois... ELA - Então, a gente já fez isso.

Pausa. Ele se levanta e também começa a se vestir, de Pierrot.

ELA - Você quer ficar mais, é isso?

ELE - Não, tudo bem, vamos nessa.

ELA - Você não vai brigar comigo agora, né! (Ele não responde) Não vai falar comigo?

ELE - Não tenho nada pra falar.

ELA - Eu sabia que essa idéia não ia dar certo.

ELE - Que idéia?

ELA - Essa de vir pra esse motel.

ELE - Você fala como se eu tivesse te dado uma porrada na cabeça com um tacape e tivesse arrastado você pelos cabelos até aqui.

ELA - A idéia foi sua.

ELE - E você topou.

ELA - Por sua causa.

ELE - Como assim "por minha causa"? Você não queria?

ELA - Eu sabia que não ia dar certo.

ELE - Então por que você veio?

ELA - Já disse, por sua causa. A idéia foi sua.

Pausa. Ele se senta na beirada da cama para por os sapatos.

ELE - Nossa primeira vez foi aqui. A gente veio direto do bloco pra cá...

ELA - (sentando-se ao seu lado) Eu sei. (cantando baixinho) “Mamãe eu quero, mamãe eu quero / Mamãe eu quero mamar / Dá a chupeta, dá a chupeta / Dá a chupeta pro bebê não chorar…” Quando começou esse movimento de blocos no Rio?

ELE - Sei lá... De uns cinco anos pra cá – dez...

ELA - (volta a se vestir) Eu adoro passar o carnaval no Rio – é a festa que eu mais gosto, disparado. E você querendo viajar...

ELE - Porque tinha um lugar legal pra gente ficar...

ELA - Subir a Serra no carnaval, vê se pode!

ELE - Eu só te perguntei se você ficava a fim, só isso.

ELA - Passar frio, tomar vinho e comer foundi – no carnaval!

ELE - Você disse que não tava a fim e foi isso, ponto final!

ELA - Meu pai sempre levava a gente pra Região dos Lagos, Búzios, Saquarema, Cabo Frio, Angra... Depois cresci com uma galera que sempre ia pro nordeste, Salvador, Olinda, Porto de Galinhas... Mas vamos combinar que não tem coisa melhor do que tomar uma primeira cerveja às nove da matina, em Santa Tereza, encher os cornos até às duas da tarde, comer no Nova Capela, pegar o bloco das cinco em Botafogo e só terminar lá pra meia-noite no bloco de Copacabana... Fora a saideira no Baixo Gávea, Jobi, Botecotaco... (levanta, já fantasiada e canta com espontânea sensualidade) “vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval / vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval …”

Ele se levanta e segura ela pela cintura, com tesão. Os dois ficam de rosto colado.

ELE - Ano passado, antes de te conhecer... (sentindo o hálito dela) Antes de te conhecer eu peguei uma menina linda num bloco – uma menininha. Enquanto eu beijava aquela boquinha rosada, só ficava pensando: “Meus Deus, quantos anos tem essa menina? 20? 18? E se ela tiver 17 – se for menor de idade?” Nisso, me desliguei completamente do beijo e inventei uma desculpa qualquer para me afastar um pouco e pensar melhor naquilo tudo. “Vou comprar uma cerveja, meu amor”. “Você tá com uma latinha na mão”, ela disse. “Eu sei, mas essa esquentou e eu odeio cerveja quente”. Dei meia volta e fui até um vendedor que me catou do fundo do seu isopor uma lata de alumínio estupidamente gelada. Quando eu me virei, a menina de 16 anos já estava beijando na boca de um outro cara. Fiquei besta com aquilo. E sabe o que eu fiz? Agradeci. Agradeci àquela menina por tá me ensinando a maior lição de carnaval que eu já tive na vida.

Ele a beija com raiva. O beijo vai se desfazendo conforme ele percebe que ela não demonstra afeto. Ele se afasta e fica de costas pra ela.

ELE - Você tem um cigarro?

ELA - Se veste, vai.

Ele dá um longo e prazeroso trago imaginário.

ELA - (entregando suas roupas) Põe sua fantasia e vambora.

ELE - Sabe como foi que eu consegui ela? Foi no ano passado...

ELA - Sei...

ELE - (vestindo-se) Eu produzi um comercial de uma marca de vermute, que tinha um cara vestido de Pierrot – era véspera de carnaval...

ELA - É, eu sei...

ELE - Daí eu voltei na produtora de noite e peguei emprestado...

ELA - Eu conheço essa história, você já me contou.

Ele está completamente vestido. Ela o olha. Silêncio.

ELE - O comercial tinha até a marchinha do Pierrot – como é que era...?

ELA - A fantasia é a mesma, né...

ELE - (lembrando) “Um Pierrot... lá-lá-lá-lá...”

ELA - A mesma do ano passado. A minha também... Colombina.

ELE - “Que vivia lá-lá-lá-lá...”

ELA - Eu não sei o que acontece, viu... Não sei mesmo... (ouvindo) Ouve só, outro bloco! (pega a mão dele) Sente como o meu coração fica, sente como bate forte.

ELE - lá-lá-lá-lá...

ELA - Tá sentindo? É por causa do bloco, da música, das pessoas lá fora...

ELE - lá-lá-lá-lá...

ELA - E tá tudo certo, entende? Não tem nada de errado, tá tudo certo...

ELE - Composição de Noel Rosa e Heitor dos Prazeres – engraçado lembrar disso...

ELA - Não é justo pensar o contrário, não é...

ELE - “Um pierrô apaixonado...”

ELA - E, porra, sei lá, a gente tentou...

ELE - “Que vivia só cantando...”

ELA - Um ano, pô... 12 meses, uma porrada de dias, de horas...

ELE - “Por causa de uma colombina, acabou chorando, acabou chorando...”

ELA - Cada coisa tem seu tempo – a mosca da banana vive só 24 horas e é isso aí, tá valendo...

ELE - ”A colombina entrou num botequim / Bebeu, bebeu, saiu assim, assim / Dizendo: pierrô cacete/ Vai tomar sorvete com o arlequim”

ELA - Eu só quero pular meu carnaval... Na boa...

Pausa.

ELE - Vai. Pode ir. Não tem ninguém te prendendo, tem?

Pausa.

ELA - Não.

Eles ficam um tempo se olhando. Ela sai.

ELE - Lembrei! Lembrei!

ELA - Heim?

ELE - Lembrei o que meu amigo me disse quando me ensinou a tragar: “Engole a fumaça com a boca aberta, como se tivesse levado um susto”.

Ele faz o gesto e congela, com a boca aberta e os olhos esbugalhados.
Ela sai definitivamente.

Música: "Um grande amor tem sempre um triste fim
Com o pierrô aconteceu assim
Levando esse grande chute
Foi tomar vermute com amendoim"

A luz cai em resistência.

Autor carioca com 11 peças encenadas, Walter Daguerre foi indicado ao Prêmio Shell de Melhor Autor em 2006 por "Projeto K". Em fevereiro de 2009, adaptou e dirigiu o romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, no Distrito do Porto, Portugal. Em Outubro do mesmo ano, estreou "Um Navio no Espaço ou Ana Cristina César" – direção de Paulo José – como dramaturgo. Em 2010, estréia, também com direção de Paulo José, a peça "Histórias de Amor Líquido", e com direção de Bete Coelho "Chopin: romance sem palavras".
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