maio/2010 Plano americano por Marília Garcia ainda o vê parado na
                                              estação de.
caminha lentamente: a mecha de cabelo no rosto,
um guia azul e algo que dizia
sobre a história abreviada
da literatura portátil.

essa história não cabe dentro
do nosso curto trajeto, disse entre os passos.
ela ficou no japão, enlouqueceu. estou embarcando
hoje, de charlotte, de uma rua chamada pixel.
a respiração dos passageiros se misturando à respiração de
missoshiro se misturando aos estilhaços
na parede de vidro, desce as escadas correndo
antes que o detenham. cada dia perdido
uma artéria coral, um líquido
redondo tremendo no copo (como a latitude
deste mapa na vertical)

parecia alguém chamado transition bar.
parecia a aluna do violoncelo.
parecia a polaca que encontrara no congresso de
física quântica: uma imagem de
viés e sabe que é ela.

2.
todos os dias fica no banco lendo
a partitura: apenas o pé direito marcando
o som sem som, movimento contínuo de
sobe-e-desce para esconder o que quer dizer.
na quadra as raquetes ajustando-se
à sua canção.

cada dia aprendo um pouco mais
– ou menos – desta língua. cada
dia saber menos para descobrir o caminho
de volta. trazia um dictafone na
palma da mão, mas também podia se
tornar uma warm gun, objeto escondido
embaixo da mesa quando descobre
que tudo pode sempre voltar
a desabar. Marília Garcia nasceu no Rio de Janeiro em 1979. É autora de 20 poemas para o seu walkman (cosac naify, 2007) e coedita a revista Modo de usar & co. (http://revistamodoeusar.blogspot.com).
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