julho/2011 silenciosamente por Marcos Vinícius Almeida
O homem passou a corda na canela da porquinha miúda, fez uma volta, enfiou a ponta da corda no círculo e puxou de uma vez, até acochar. As unhas da porquinha rasparam na laje de pedra, tentava correr, mas os joelhos do homem estavam sobre a barriguinha do bicho, despejando todo o peso sobre o pelo cinzento colado ao couro, ainda sujo de barro do chiqueiro onde as outras porquinhas se refrescavam numa lama verde escurecida e excessivamente pastosa, em meio à varejeiras, gravitando ao redor das tetas da porca maior, que de tão grande, apenas se arrastava, embicada no rumo do cocho.

O homem pegou a mangueira das mãos do menino e foi expulsando o barro da barriga da porquinha, de canelas presas, juntas, imobilizada. Um caldo encardido escorria sobre a laje de pedra e tremulava com os raios de sol escorrendo secos do céu.

O homem soltou a mangueira e enfiou a porquinha debaixo do braço. O menino catou a mangueira no chão e foi enrolando, sem pressa nenhuma, enquanto via o homem se afastar, com passos duros, na direção de uma laje de pedra maior, onde a bacia de alumínio e o punhal aguardavam, descansando sobre o sol.

Ao se aproximar da laje de pedra maior, ao centro do quintal, o menino constatou que o homem já havia ajeitado tudo. Ajeitar tudo não ajudava em nada. O menino hesitou, espiando, reparando no focinho do bicho fungando ansiosamente, dando a impressão de farejar o que estava por vir. Teve pena, e medo. Porque o pai disse que devia aprender a fazer, aprender a dar jeito sozinho.

O homem fez um gesto com a cabeça e o menino soube que deveria ocupar o lugar dele. Agachou-se, apoiou os joelhos na barriga da bichinha e apertou a cabeça dela contra a pedra. O corpo da porquinha se arrastou, forçando o menino a apertar com mais empenho, com força mesmo. De pé, o pai disse que ia buscar o maçarico, no vizinho. Quando chegasse, avisou, devia estar pronto.

“Viu”, disse o menino.

O pai se afastou.

A porquinha fungava muito. As bolinhas dos olhos da porquinha não ficavam paradas. Mexiam sem parar, como mexia o papo à medida que inalava desesperadamente o ar de tristeza. O menino olhou para a bacia, reluzindo debaixo do sol, enquanto os urros de porcos antigos reverberavam atraídos pela memória. E que as vezes demorava demais, agudos, estridentes, a saliva escorrendo na pedra, o cabo do punhal palpitando, como se fosse parte do bicho. Não fossem os gritos, talvez suportasse bem. Precisava dar um jeito nisso.

Sentou-se sobre a porquinha e foi soltando a corda.

***

Fazia tempo que homem queria comprar seu próprio maçarico, mas o dinheiro era a conta dos gastos, e mesmo um pouco constrangido, bateu à porta do vizinho, perguntou se tinha como emprestar, que era coisa rápida. O vizinho disse que tudo bem. E depois de sumir no interior da casa, entregou o maçarico ao homem, recomendando que tivesse cuidado com a chavinha, porque estava meio frouxa desde a última vez. O homem reparou na chavinha, apertou, desapertou, apertou de novo. Disse que da última vez a chavinha tava funcionando direitinho, e que se tivesse problema, ele dava jeito de arranjar outro, ou sapecava o porco com palha e sabuco, como antigamente. Não é questão disso, disse o vizinho, é só prestar atenção na chavinha. Mas se tiver com defeito, deixa pra lá, disse o homem. Não é defeito nenhum, só ter cuidado com a chavinha, disse o vizinho, pode levar tranquilo.

O homem atravessou a rua com o maçarico debaixo do braço, um pouco contrariado. Já estava passando da hora de comprar seu próprio maçarico. Se economizasse na luz, que tava vindo alta demais, talvez no próximo mês ele conseguisse comprar o maçarico, e não precisaria mais pedir emprestado. Mexer com as coisas dos outros era sempre uma amolação sem tamanho. Quando abriu o portão, pensou que se vendesse aquelas três outras porquinhas pelo preço justo, e não aquela mixaria que costumavam lhe pagar, seria mais fácil ainda comprar o maçarico, e até colocar aquele forro na cozinha, que há anos ele vinha planejando, chamando o rapaz das madeiras pra medir, fazer orçamento e tudo, mas, ao final, sempre dizia ao rapaz, quando eu folgar, eu te chamo; e nunca folgava. Ao fechar o portão, esses pensamentos se dissiparam. Estava tudo quieto demais. E se o menino tivesse dado jeito na coisa, como deveria ser, a essa altura, a porquinha deveria estar urrando seus últimos lamentos, com o punhal encravado no sovaco, estocando o coração. À medida que avançava no caminhado por detrás da casa, conduzindo ao quintal, o homem intuiu que alguma coisa não estava certa. Então se apressou, já imaginado alguma merda, afinal, o menino só sabia dar gasto. Encrencava com tudo. Estorvo.

O estorvo não estava no quintal. A bacia e o punhal descansavam do mesmo jeitinho, intocáveis. O homem avançou silencioso, pensado que o menino tinha deixado a porquinha escapar, e se embrenhar no matagal aos fundos do terreno, o que era um prejuízo desgraçado. Seria obrigado a matar uma daquelas três porquinhas já encomendadas, em com uma porquinha a menos, nada de dinheiro a mais, nada de maçarico.

Foi aí que ele viu a copa da jabuticabeira balançando, em curtos espasmos, quase encoberta pelo paiol.

Deixou o maçarico no chão e deu a volta no paiol. E ali estava o menino. De pé, puxando a corda que subia tremulando no galho da jabuticabeira, enquanto a porquinha, patas no ar, presa à forca, esperneava e salivava; cuspindo silenciosamente os últimos grunhidos, sufocados pelo laço, pela corda roçando cada vez mais estreita no pescoço.

Marcos Vinícius Almeida nasceu em 1982, em Taboão da Serra, na grande SP. Viveu desde sempre em Luminárias-MG, com breves passagens por São João del Rei-MG e Porto Alegre-RS. Autor do livro Inércia, (Ed. Multifoco, 2009). Publicou contos em antologias, sites, jornais e revistas: Cult, Suplemento Literário de MG, entre outros. Venceu o Prêmio UFES de Literatura 2009/2010, na categoria contos. Edita o Selo Terceira Margem (Ed. Multifoco). Site: http://www.quebracorpo.com.br
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