



junho/2011
Trecho do romance inédito OWNED - Um novo jogador
por Simone Campos
Cerca de quinze minutos depois, eu chegava à minha rua sem ter tocado no
chão. Eu me balançara em barras, quicara entre paredes próximas, me equilibrara
sobre cabos de aço, deslizara por cordas e até correra pelo muro. A chuva estiava.
Minha rua era transitável. Caminhei em direção ao horizonte avermelhado e ao meu
apartamento. O dia terminaria sem maiores acontecimentos não fosse Rosana me
chamar para jogar Wisdom.
Fiquei vagando pela minha casa no escuro. Não podia dizer que estava odiando
o que vinha se passando na minha vida. GOSTOSAS – CARROS – DINHEIRO – SUCESSO. As possibilidades. Experiências passageiras, arrebatadoras e acessíveis que
me tirassem o peso de viver a vida por uns tempos. Eu tremia. Delirei a noite toda e,
quase que de manhã, engoli uns tranquilizantes e caí duro.
Desde bem pequeno meu padrinho me fornecia jogos e livros, mas tive minha
própria parcela de culpa no cartório. Foi uma conversa que tive comigo mesmo
quando entrei na puberdade:
"Eu não quero pensar demais, o que você sugere? Como ocupar minhas
tardes?" – perguntei.
"Baixe uns joguinhos..." – respondi.
Baixar era uma das poucas opções, o país era pobre, meus pais também e eu
não menos. Mas, graças a isso, hoje pago por eles. Na maioria das vezes.
A cada jogo que eu zerava, uma âncora tinha sido largada num ponto distante
da realidade. Usá-los como fuga deliberada, depois de algum tempo, deixara sequelas
permanentes – era o que eu via agora.
Em parte, eu jogava porque não queria pensar demais. Não queria ser um
garoto-problema, queria só me aplicar e vencer – e isso se aplicava até mesmo ao
entretenimento que escolhi. Ali, era possível vencer a copa, conquistar a menina e ser
astro do rock.
Mas também isso estava cobrando o seu preço. Eu não imaginava virar o típico
louco ele-era-tão-quietinho aos 25 anos de idade.
De repente era a falta de sono.
Fácil de resolver. Rolo para o colchão, fecho os olhos e durmo.
O iPod é um mod da alma da pessoa. Você mantém sua alma organizada? A
dela era. De uma limpidez impressionante também. A criatividade dos conceitos das
listas, o tamanho acurado de cada uma delas... Bem, não vou me estender. Sei
quando as pessoas não estão me acompanhando, elas reclinam a cabeça para a
esquerda e surge essa ruga na testa, essa.
O que aquilo confirmava era a minha teoria sobre estar num dating sim. Pela
dinâmica de um dating sim, eu não precisava arrumar qualquer pretexto. Os pretextos
vinham e viriam sem que eu precisasse forçar barra nenhuma. Forçar a barra seria
necessário caso eu quisesse me esquivar deles. Você está com o iPod da menina e ela
com o seu; é preciso se encontrar para destrocá-los. Segundo a dinâmica cordial
vigente no país, encontrar-se apenas para trocar pertences perdidos, virar as costas e
ir embora seria uma perda de tempo e uma falta de educação; faríamos ao menos um
lanche, entraríamos ao menos numa livraria.
Não só Mayumi me ligou para destrocarmos os iPods (numa livraria perto do
meu trabalho) como também me trouxe um estranho presente: um tuperware com
um salgadinho dentro.
– Eu que fiz.
– Você que fez?
Fiz menção de abrir o pote e ela me tocou com sua mãozinha:
– Não coma agora. Você só deve comê-la num momento especial.
Guardei o salgado na mochila. Agradeci e voltei para o trabalho.
Assim que Fernando some de vista, abro a porta e corro atrás dele.
Mesmo sem mapa, eu pensava que pelo menos a parte GTA já tinha acabado.
Eu era um pouco menos pior em jogos de estratégia militar. Era isso mesmo. Terreno
recortado, ensombrecido e fétido. Pseudobarracos espaçosos e vazios de civis. Súbita
submetralhadora sofisticada à mão.
Novos itens: Submetralhadora + munição
Entro na favela fantasma correndo abaixado, me meto por uma viela, adentro
um corredor que termina numa escada que leva a uma laje, pulo para a próxima e
sumo por um alçapão. Sempre em movimento, reconhecendo terreno. O único jeitoé brincar, já que eu não sei fazer a sério. Saraivas. Um grito. Áudio de alta qualidade,
hein? Percebo pelo eco que o atirador se encontra num lugar fechado. Provavelmente
atingiu alguém pelo canto da janela – macete preferido de Fernando. Meu amigo
devia, portanto, estar a poucos barracos de distância, a 10h. Passos. Me alinho com a
parede e aponto para cima: mato um (aaah!!)! RÁ! Mania de ficar no alto! Nem sempreé vantagem. Você vê todo mundo, mas numa laje nu de vegetação todo mundo te vê.
Deu mole.
Me aproximo do morto e tomo seu fuzil.
Life: 74%
Merda! Enquanto trocava de arma, sofri um atentado a faca, que repeli a
tempo com o pé. Continuo massacrando o bandido a pontapés até ele estar no chão.
Tinha granadas, fico com elas. Agora precisava pensar. Pelo que ouvia, diria que
Fernando tinha acabado com quase todo mundo, só não sabia em que estado precário
de saúde ou munição ele devia estar.
Pego algo que ficou quase esquecido na mochila por um dia inteiro.
Tem que comer a coxinha toda de uma vez pra funcionar, como num concurso
de quem come mais cachorro-quente. Sim, é nojento.
Comer item: coxinha
Me vi segurando aquela coxinha de padaria que não existe mais, feita com
recheio farto e farinha boa, de comer chorando, saborear aos pouquinhos e não deixar
farelo nem achar defeito, e a enfiar inteira na boca, garganta abaixo, deglutindo-a sem
mastigar feito uma sucuri. Imediatamente, como que por mágica, as forças me
voltaram até as pontas dos dedos, e de desfalecido passei a frenético.
Life: 100%
Durante toda a deglutição da coxinha meu inimigo permanecera estático e
abobado. Ele despertou apenas para ser despachado para o inferno.
"Por que jogo isso se eu sei melhor que ninguém que não é nada realista, você pergunta?"
"É. A rapidez com que trocam os pentes nesse jogo é ridícula, também não sei
de fuzil que nunca emperre, nem os russos. Mas é bom pra se distrair. Só sinto falta
mesmo é de aguentar coice ritmado no braço."
"Cês têm uma ideia muito errada da gente. Eu não vivo de arma na mão
procurando encrenca. Nada disso. Ando armado quando quero impor respeito ou por
segurança. Gosto de tranquilidade. Agora, por exemplo, estou na minha, jogando
videogame... Eu hoje estou jogando um violento mas também gosto de outros tipos.
Verdade que prefiro esses. Me sinto tão bem. Parece que inspirei alguma coisa, sabe?
Inspirei tudo errado, mas inspirei. É muito doido isso, cara, muito doido. E esse eu fui
na loja e comprei, original. Fiz questão. Jogar minha vida original."
Ele dá risada, ha ha ha. O teto cai sobre sua cabeça. A metralha é tão rápida
que ele ainda segura o controle, morto.
O cativeiro onde mantinham Fred foi estourado. Fred está bem.
MISSION CLEAR
Minibio
Simone Campos é escritora, tradutora e produtora editorial. Estreou na literatura aos 17 anos, com o romance No shopping (2000). Participou de diversas antologias de contos até publicar seu segundo romance, A feia noite (2006) e a ficção científica online Penados y rebeldes (2007). Amostragem complexa (2009), seu primeiro livro de contos, foi patrocinado pelo Petrobras Cultural. O patrocínio foi concedido também para o livro interativo OWNED - Um novo jogador, inspirado na cultura dos videogames, a sair ainda em 2011 em meio digital e papel pela 7Letras.