



abril/2010
Alameda Ivana
por Leandro Jardim
O domínio da escrita pode ser avaliado sob diversos aspectos. Para abordar o mais recente lançamento de Ivana Arruda Leite, proponho a oposição que segue. Há escritores que se destacam pelo trabalho meticuloso dado à linguagem, enriquecendo-a em pensamento ou lirismo, refinando-a com vocabulário preciso e autoconsciência narrativa. De outro lado estão os escritores que cativam seus leitores pelo realismo no linguajar utilizado, privilegiando o perfil bem delineado de seu personagem-narrador. É nesse segundo caso que se enquadra Alameda Santos (Iluminuras, 2010).
Segundo romance da autora – já conhecida por seus contos e pela temática feminina, como em Falo de Mulher (Ateliê Editorial) – o livro, escrito com incentivo da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, é ambientado majoritariamente na década de 80. Seguindo a linhagem de livros que misturam autobiografia com ficção, Alameda Santos conta nove anos da história de uma paulistana, com idade na casa dos trinta e poucos, desquitada, mãe de uma menina e às voltas com a dificuldade de organizar sua vida. Ao final de cada ano ela liga seu gravador de fita cassete para fazer uma retrospectiva pessoal. Em algumas entrevistas recentes, Ivana contou que algumas dessas fitas realmente existiram, embora não exatamente com o mesmo conteúdo. É nesse ritmo, portanto, que o leitor vai conhecendo seus humores, desejos, desventuras amorosas e os outros personagens.
“(...) passei o réveillon com o Miro numa festa maravilhosa no Pacaembu. Uma puta mansão. Eu e o Miro no maior dos love”.
Se o tom confessional das vivências não apresenta um enredo tão surpreendente, o formato narrativo, porém, aliado a seu período de ambientação, são os trunfos do livro. Um de seus charmes, por exemplo, é a narradora cantarolar algumas músicas da época ao lembrar das coisas que conta. São pequenos trechos de letras das canções que provocam a memória e a cultura pop do leitor, levando aqueles que reconhecem as obras a seguir pelas próximas páginas acompanhados por uma trilha sonora a ecoar em suas mentes. Esse recurso acaba por aguçar na memória do leitor um sentimento da época em que o livro é ambientado, e talvez pudesse ser ainda mais explorado no livro. Alameda Santos às vezes faz lembrar Alta Fidelidade, de Nick Hornby, com suas referências musicais e revisitações de amores passados.
Também é interessante acompanhar no livro a evolução dos acontecimentos sociais de nossa história recente sob a ótica da classe média urbana. Desde as diretas já até o assassinato de Daniela Perez, passando pelo boom da Aids, o impeachment do Collor e a substituição do LP pelo CD.
“Perguntamos pro carro do lado e ficamos sabendo que o Tancredo tinha morrido. Fomos direto para o Incor. As pessoas choravam feito criança, nós inclusive.”
Ivana Arruda Leite utiliza bem a ideia do formato de diário anual para cativar o leitor. Ao final de cada capítulo, ele é tomado por uma sensação de que está prestes a saber rapidamente tudo o que acontece no ano seguinte, e se impulsiona para a próxima fita. Especialmente para descortinar o relacionamento com Charles, o personagem principal da vida da narradora, um bissexual boêmio e excêntrico de quem é amante. A dificuldade de entender o que leva alguém a se entregar tanto a uma relação repetidamente destrutiva também acentua a curiosidade, reforçando o fôlego da leitura. Embora não se possa dizer inverossímil o relacionamento, tal questionamento permanece ao fim do livro; talvez Ivana pudesse ter feito Charles seduzir e encantar não só a narradora, mas também seu leitor.
De um modo geral, a história não é leve, mas é contada em um tom bem-humorado e autoirônico, possivelmente porque a narração é entremeada por tragos de bebida enquanto são gravadas as fitas. Desse modo, as 156 páginas do livro fluem rápida e entretidamente. É quase como assistir a um cinemão-pipoca. Destino esse, inclusive, nada improvável para Alameda Santos.