abril/2010 Cacos de um personagem por Guilherme Mazzocato
Nunca tinha lido nada do Marcelo Mirisola antes e, talvez por isso mesmo, por chegar tão desavisadamente assim a um escritor que faz letras impressas a laser parecerem nitroglicerina pura, devesse ter me preparado melhor. Mirisola, para definir em uma frase, faz Woody Allen se parecer com Poliana. Tudo o que o baixinho quatro-olhos e tímido de Nova Iorque conseguiu, ao transformar seu sarcasmo, suas dores de cotovelo e autocontemplação egocêntrica e comiseratória em uma espécie de décima arte, foi ultrapassado por Mirisola, já que este conseguiu adicionar aos méritos mencionados boas doses de humor negro verdadeiramente grotesco (nem sei se pode ser considerado humor) - como um comentário sobre o estupro de uma garota de treze anos, em uma das histórias do livro. Memórias da sauna finlandesa, último trabalho desse escritor paulistano e nômade (que nasceu em São Paulo, cresceu em Santos, morou por muito tempo em Florianópolis e hoje em dia se divide entre São Paulo e Rio de Janeiro), contém 21 contos-crônicas-pseudo-biografia-com-boa-dose-de-mentiras divididos em seis partes que talvez possuam certa lógica funcional na cabeça do autor.

Nessas histórias, misturam-se a linguagem da crônica, doses cavalares de surrealismo (sonhos que convivem com a realidade, poltergeists e cachorros que andam de skate e tocam piano) e uma atmosfera enevoada de autobiográfico e fictício, nunca clara – cacos de Mirisola, talvez. Cacos em que destila veneno para quase todas as convenções da sociedade moderna, mesmo as mais inofensivas; no elenco, constam os traumas de infância, as musas sexuais da juventude, a filosofia de botequim (claro), a alta cultura (apesar de resguardada pela postura cínica de iconoclasta e canalha) e, principalmente, dores de cotovelo por diversas mulheres que, a sua vez, também parecem cacos aleatórios. Apesar do sarcasmo, da culpa reprimida e do veneno preponderantes, ele se permite, por vezes, arroubos de sensibilidade e sentimentalismos em alguns contos, como o “Pai”, ao evocar a memória do seu, e “Valentina e o laranja intenso”, no qual narra as experiências como padrasto de uma garotinha com cuja mãe ele mantém um caso amoroso. E assim vai se quebrando um pouquinho a cada uma das histórias.

A maior virtude destas, a meu ver, é serem escritas de uma maneira que se apresentam como crônicas, que são contos sem, no entanto, quererem sê-lo. E, suspeito, inclusive, que essas crônicas tampouco se importam muito em serem crônicas. São simplesmente histórias, “relatos”. Desmiolados, que Mirisola vai desfiando com sua verborragia e imagens, quase sempre sem nexo, onde tudo, porém, acaba se unindo no final, muitas vezes de forma surpreendente. “Histórias” (ok, vamos chamá-las assim, entre aspas) que seguem um estilo, arriscaria batizar, de “hipertexto”. Uma coisa desenrola outra que desenrola outra, assim por diante e, quando você nem se lembra mais do mote inicial, do pretexto que iniciou aquilo tudo, inesperadamente, Mirisola volta ao começo, fechando um ciclo, e como dizendo ao leitor que “tivera de contar tudo aquilo, para finalmente chegar até ali, o ponto aonde chegou, o ponto realmente importante em tudo aquilo”.

Passeamos por conversas de bar estilizadas, tagarelas e criativas. Um dos contos (inclusive o único que apresenta algumas pouquíssimas linhas de narração em terceira pessoa) retrata justamente um bêbado numa mesa de bar contando uma imensa história a um garçom. A sua “estética de bar”, ainda, se reflete na própria construção do texto. Quando o narrador-autor-personagem (vamos defini-lo assim) se refere, em “A Casa das Pedras”, a um personagem de nome Caíto (por quem ele não parece nutrir muita simpatia), lá pela terceira ou quarta menção ao sujeito, ele se confunde e o chama de Caíque, como se deliberadamente errasse o nome, ratificando a falta de consideração. Outro exemplo do estilo narrativo despojado se evidencia na forma como constrói os seus (poucos) personagens-narradores em primeira pessoa: de forma nenhuma! Quer dizer: nas poucas vezes em que Mirisola resolve ser outro, e não o seu próprio alter-ego literário e canalha, continua sendo o mesmo, em sua forma de falar e pensar. Não há absolutamente nenhuma contrução da personagem nenhuma preocupação em se “botar na situação de outra pessoa, tipo, ou categoria social”. Não é possível afirmar se por incapacidade ou intenção do autor. Mas me parece a segunda opção.

A impressão é que, o tempo todo, há somente uma única construção de personagem, um enorme personagem chamado Marcelo Mirisola, que o próprio tenta, a muito custo, encontrar. Nas Memórias da sauna finlandesa, não há separação entre o cronista-autor, que inventa mentiras para aumentar sua biografia (e autofilosofia), e possíveis personagens, que nunca ficam explícitos nem sugeridos. A não ser quando o narrador (o próprio Mirisola, ou não), de maneira aparentemente súbita, decide ser um personagem. Ser outra coisa, apesar de continuar o narrador de sempre, com seu jeito de se expressar, seus cacoetes de linguagem e sarcasmo habitual.

Em “Encontro no Cervantes”, nos deparamos com um paulista radicado no Rio de Janeiro. No início, ele relata que essa cidade foi um tabu por muitos anos - devido à sua condição de neto de imigrantes italianos, criado de maneira rigorosa e tradicional -, e quão difícil fora seu primeiro contato com o Rio. Aparentemente o exemplo assemelha-se a todos os demais do livro, mais um personagem criado para si pelo autor. Mas é quando o narrador contraria radicalmente essa expectativa, revelando a natureza de seu personagem. No entanto, além dessa informação, nada muda em suas atitudes, visão de mundo, ou mesmo jeito de falar. O personagem que entra no Bar Cervantes e discute com emos moderninhos sobre Arnaldo Antunes e samba de raiz, quase criando um barraco com os garçons, tem todas as atitudes que, em todos os outros contos, o personagem-perene de Marcelo Mirisola teria. Nem mais nem menos afetado.

Isso remete a outra característica de seus contos, o surrealismo. Mudanças incríveis e insólitas acontecem de uma hora para a outra, em nada alterando a realidade “da história em si”, dentro de sua lógica própria. Como no conto “On the Road à parmegiana”, em que o narrador nos fala da vontade de nos contar uma história que se passa “na estrada” e, portanto, de uma viagem que resolve fazer, a fim de ter inspirações para o conto que escreverá. No meio da viagem, ele nos menciona uma disputa entre as cidades de Jacutinga e Ibitinga, que brigam pelo posto de “capital brasileira do bordado”. Como não quer uma história que remeta a frio, o que fica implícito em bordados e malhas, ele simplesmente resolve apagar essa história e continuar narrando sobre outra viagem a Pouso Alegre, em Minas Gerais, onde vai se encontrar com o Mago dos Magos. Ele não sai da narrativa da primeira viagem para iniciar a segunda, mas simplesmente continua viajando, em uma narrativa constante, até alcançar um posto de gasolina, onde conhece uma garota hippie (na verdade, uma alucinação) para finalmente chegar até Pouso Alegre, onde Thomas Green Morton, mago dos magos, o espera, aconselhando-o a ir até a cozinha conferir a surpresa que “elas” prepararam para ele.

Toda essa fluidez de linguagem revela um paradoxo. Apesar de extremamente rude, grosseiro e tosco em seus comentários e opiniões acerca do mundo e das coisas em geral (Mirisola o tempo inteiro se vangloria de sua canalhice, especialmente quanto às mulheres; uma espécie de intelectual na pele de um brucutu), é, no entanto, extremamente sutil e sinuoso em sua narrativa. Talvez, com tamanha rudeza, esconda uma delicadeza e um lirismo que, no fundo, tenha mas não admita. Para concluir, Mirisola é hipertextual, e retroativo. Ou seja, em seus textos que vão e voltam, retorna a fatos já contados em contos anteriores, e os modifica, ou os coloca sob nova ótica. Os mesmos fatos na boca de personagens diversos, inclusive (que podem ou não podem ser a mesma pessoa). O lixinho do biombo de depilação é referido à Derci do conto “Nunca mais o lixinho do biombo” e à piranha Simone do “Mesa 5”. Inúmeros são exemplos de personagens repetidos. A empregada negra Gessy, cujo lombo é cavalgado por diversas versões do narrador-personagem em sua infância, em diversas histórias. O Bactéria, amigo do narrador-personagem, e tantos outros. Valentina, a criança do último conto, é filha de uma de suas várias mulheres, em outro conto no meio do livro. O episódio da menina brincando na praia é relatado nos dois contos, mas sob óticas diferentes. E assim, vão se juntando, como peças de um quebra-cabeças, o humano que esse tresloucado personagem de Marcelo Mirisola procura buscar em si mesmo.
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