



07/02/2008
Uma nova escritora e as (im)possibilidades do romance.
Se há uma recorrência temática na literatura brasileira contemporânea (como no cinema e em certa parte da música popular) esta é a violência das grandes cidades. E não poderia ser diferente. Diria mais, na América Latina, o tema divide hoje espaço com a narrativa cinematográfica e literária da pós-ditadura. Na verdade, uma questão tem muito a ver com a outra se falamos de nossas sociedades. Se na arte que fala do luto que se seguiu ao arbítrio das ditaduras militares há, apesar de toda a dor, uma sensação de esperança, pois a democracia foi finalmente vencedora, nesta arte urbana contemporânea, entre nós, qualquer alento é afastado. Não há catarse, não há consolo, não há utopia.
Em ensaio especialmente agudo sobre a literatura da violência, "Medo e ódio na polis: o lado negro da globalização", Jean Franco chama a estes textos contemporâneos de "pós-apocalíticos", obras que, segundo a crítica, falam "de situações onde termos como cidadania, hegemonia e direitos humanos são esvaziados de sentido". Tais narrativas da violência urbana, construídas pela própria voz das periferias - espaço marcado pela ausência do estado e vítimas maiores da vigência da lei do "olho por olho"- ou por intérpretes de uma classe média que vê a ordem, mesmo a precária, de seu mundo desaparecer, expressam-se, na maior parte dos casos, pela retomada de uma estética realista. A acusação de retrocesso no processo criador tem sido queixa freqüente de parte da crítica que rejeita a dominância do uso do realismo. Parece-me, porém, que o uso do realismo é quase inevitável, como foi também durante os anos 70/80 quando a literatura tomou lugar do jornalismo cerceado. De qualquer forma, o realismo, mesmo excessivo, quando mostra o que não se quer ver, toma formas de fantástico.
Inevitável ou não, é a constatação deste realismo dominante que aponta para algo de peculiar no primeiro romance de Cecília Giannetti, Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi. Ainda uma vez, o tema do livro é a violência que escapa ao controle; as mortes e ataques inesperados, gratuitos ou quase; a fragilidade da vida diante das balas nossas de cada dia. Tudo isso, porém, se faz diferente no livro diante da recusa do realismo, do denotativo, do documental. A violência que cerca os personagens da cidade de Cecília Giannetti ataca usando um silenciador. É o universo da paranóia urbana, do temor que passa a não depender mais da situação real a que se é submetido, da ameaça que passa a ter vida própria, independente da arma que podem nos apontar ou não. O desconhecimento dos rostos, os desaparecimentos num mundo onde todos podem se perder, constroem uma narrativa da invisibilidade que, por paradoxal que possa parecer, tornam todas as ameaças mais visíveis, mais presentes. Não há fotos, não testemunhas. "No dia em que as coisas param de acontecer", Cristina, apresentadora de TV, presencia mais uma cena de violência. Seu desaparecimento será uma conseqüência quase lógica, se houvesse alguma lógica em tudo isso. Na cidade onde, segundo a narradora, o asfalto escancara os dentes para o lixo dos sacos pretos, Doca, o garoto baleado, canta seu rapzinho com as mão furadas pelos tiros e quer virar Erê. O que está em questão já não é mais a banalidade da vida, facilmente perdida por qualquer razão. É da banalidade da morte que passa a se tratar na cidade onde a morte de hoje faz esquecer rapidamente a de ontem. Diante da impossibilidade da vida, é pela validade da morte que resta lutar. Cruzando estes espaços, Baiano,um dos "moleques de mais de 25 anos", é a droga sem alternativa cuja abstinência enlouquece a mulher que desapareceu, a mulher de que falam na TV. Na relação que a narradora estabelece com o moleque que tem mãos de homem, a construção dos personagens dá um salto e supera as dificuldades freqüentes em texto dos romancistas iniciantes. A camisa, a temperatura de Baiano perturbam a mulher: "da primeira vez que toquei com as mão os ossos dos quadris dele, empurrava aberta uma janela e o sol me lambia por dentro".
Não é apenas na ousadia em atravessar a realidade sem realismo que está originalidade da obra de Cecília Giannetti. Aqui, é a forma romance que é posta em debate pela forma mesma do livro. O texto é interrompido por imagens que dialogam ou agridem as palavras nas ilustrações geniais de Chritiano Menezes. A novidade não está propriamente na fragmentação da narrativa, porque isto já não é novidade. Está antes numa espécie de autonomia de cada parte, num preenchimento de expectativa a cada episódio. Como na cidade deste nosso inadiável e terrível presente, cada momento, cada vida se passa lado a lado, numa concomitância de espaços e pessoas sem continuidade, sem contato, entremeados por vazios preenchidos pela paranóia e pelo medo. Vazios onde nos perdemos até mesmo de nós mesmos.
No ensaio citado, Jean Franco estuda outra obra a ser destacada, o romance do colombiano Fernando Vallejo La virgen de os sicários, e mostra que até a identidade do sicário (matador) desaparece. Cabe citar Vallejo: "Otra instituición pues nostra que se nos va. En el naufragio de Colombia, en esta pérdida de nuestra identidade ya no nos va quedando nada". O "método de desaparecimento" de Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi segue no mesmo caminho, atravessando a cidade do presente onde "A identidade que carrego na carteira e a que julgo ter construído numa trama de vícios, gostos mais ou menos, paixões, pessoas, lugares – seria uma identidade inteiramente falsa". Não resta dúvida: estamos diante de uma narradora de nosso tempo, de nossa cidade, pronta para a guerra.
Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi, de Cecília Giannetti.
Rio de Janeiro, Agir, 2007.