



06/09/2008
O retorno do trágico
por Manuel da Costa Pinto // Colunista da Folha
CONTEMPORÂNEOS de Beatriz Resende

Ensaísta carioca Beatriz Resende identifica linhas de força na literatura brasileira do século 21.
O LUGAR-COMUM segundo o qual a crítica universitária não faz leituras no calor da hora, que não enfrenta a literatura atual, certamente não é válido para uma ensaísta como Beatriz Resende -autora de "Contemporâneos - Expressões da Literatura Brasileira no Século 21".
A bem da verdade, essa idéia feita se deve ao fato de que jornalistas são instados a acompanhar o dia-a-dia da produção editorial (com risco de um julgamento imediato), enquanto a pesquisa acadêmica permite insistir sobre certas obsessões teóricas - que, nos melhores casos, geram iluminações críticas. Em Beatriz Resende, a obsessão por autores e temas redundou num diagnóstico: a literatura brasileira contemporânea assiste àquilo que define como "retorno do trágico". Coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, a autora vem escrevendo sistematicamente sobre prosadores como Sérgio Sant'Anna, Rubens Figueiredo e Paulo Lins. Como boa parte da crítica, ela identifica traços recorrentes na literatura contemporânea: multiplicidade de vozes, "apropriação irônica (...) de ícones de consumo", representação da violência e de experiências traumáticas, "irreverência diante do politicamente correto" e intelectualismo. Extraídos dos livros de Marcelo Mirisola, André Sant'Anna, Adriana Lisboa e Michel Laub, esses elementos poderiam sugerir homogeneidade - não fossem duas outras características destacadas no ensaio de abertura.
O primeiro é a "presentificação radical, preocupação obsessiva com o presente que contrasta com um momento anterior, de valorização da história e do passado". Ou seja, por mais que a globalização seja pasteurizadora, a prosa pós-moderna admite variedade maior de formas de representação do que uma literatura herdeira do modernismo, catalisada pelos "momentos de construção da identidade nacional".
O segundo elemento é o "trágico radical", que ela identifica em Luiz Ruffato ("Eles Eram Muitos Cavalos") e, sobretudo, Bernardo Carvalho. Analisando "Nove Noites", por exemplo, sublinha o paralelo entre o suicídio que deflagra a narrativa e a concepção de romance que perpassa a obra: "O que há de libertário, surpreendente e imensamente doloroso no suicídio é que para este, como para a literatura, não é preciso haver nenhuma razão".
Daí o fato de, no autor de "Mongólia", as identidades instáveis serem vistas não de maneira eufórica -como talvez o sejam em livros de Joca Terron, Cecília Giannetti e Santiago Nazarian, vistos em outros ensaios do livro-, mas como artifício imprescindível para expressar nossa trágica gratuidade.
CONTEMPORÂNEOS
Autora: Beatriz Resende
Editora: Casa da Palavra