



maio/2010
A humanidade que se busca: a humanidade que se nega
por Guilherme Mazzocato
O mundo de Plano Detalhe, estreia do escritor carioca Rômulo Cyríaco, lembra o pessimismo das visões de filmes futuristas, tais como O Caçador de Androides,ou Inteligência Artificial, nos quais a humanidade parece rendida totalmente às tecnologias e máquinas, a ponto de atuar, também, de forma maquinal. O caráter humano torna-se mero fio condutor de todas as nossas invenções e descobertas: carros, robôs, eletrodomésticos etc.
À diferença desses filmes, no entanto, Plano Detalhe não busca explicação "científica" para a subjugação do homem pela máquina, tampouco tenta romper ou lutar contra essa dominação. Os seus contos são como relatórios e registros, com grandes cargas de surrealismo ou ironia, de uma vida completamente banalizada pelos confortos da contemporaneidade.
Com abundantes referências ao mundo das celebridades, mídia e informática, Cyríaco tece os personagens como semirrobôs – por exemplo Britney Spears engravidada pelo flash do aparelho fotográfico de um paparazzo, numa óbvia referência à Imaculada Concepção da Virgem Maria. Ou faz dos objetos – máquinas fotográficas, laptops, iPods – espécies de sujeitos, mencionando-os pelo nome completo: Geladeira Duplex Brastemp Frost Free BRM 360 ou Filme DAK GOLD 100 12 Poses.
Essa "inumanidade" atinge tudo nas histórias de Plano Detalhe. A natureza dos personagens, a trama e até a estruturanarrativa. Muitas vezes a linguagem dos textos se aproxima à daquelas mensagens de "erro no sistema"; os contos também podem ser enumerados, como se itens de um fichário, ou desenvolvido em fases numéricas, como se os procedimentos integrassem um manual útil ao leitor. Pensemos em e-mails como personagens, frases como NO CONNECTION FOUND escritas com tamanho destaque, horários apresentados ao estilo de um registro ocorrencial (0700 PM ou 0945 AM).
A narrativa de Cyríaco constrói a banalidade do mundo que se pretende retratar. E, no entanto, mesmo assim, há momentos de humanidade no meio de toda a mecanização moderna. Sim, há momentos; mas, na maior parte das vezes, eles advêm das próprias máquinas. Se, por um lado, as pessoas são meros utilitários de tecnologia ou celebridades de capa de revista, por outro, estacionamentos são descritos e refletidos enquanto espaço ou local de repouso; aviões em um aeroporto como pincéis deslizando no céu, robôs de seda acarinhando insetos mortos, e assim por diante.
A sexualidade, outro tema constante no livro, surge como fruto dessa sociedade vulgarizada pela mídia. Diante de uma stripper russa na tela de um computador, o internauta imediatamente se imagina na pele de Brad Pitt transando com ela (o gozo de Brad Pitt deve ser um gozo melhor, um gozo de celebridade). Muito simples, como se respondêssemos ao estímulo da stripper de forma quase automática. E o ser humano não faz mais sexo só com outros homens, ou consigo mesmo, mas também com máquinas.
Em suma, todo esse mundo mecânico, publicitário e mercantilizado que nos oprime parece ter as mesmas propriedades do vício. Mas que se atente ao sentido paradoxal da palavra vício: apesar de causar o mal e levar talvez à ruína, nós nos viciamos justamente por buscarmos o bem. Todas essas espirais de consumo empurradas pela televisão, a internet e o design são, na verdade, esperanças de algo novo, que nos "purificará" de todo estresse, toda rotina. Tais como, citando Cyríaco, a beleza de uma geladeira nova em folha, a "possibilidade de uma nova vida, nova imaginação". A questão de Plano Detalhe parece ser: a humanidade que busca a si e que se nega ao mesmo tempo.