



27/05/2009
Critica do Livro Leite Derramado, de Chico Buarque
por Júlia Rónai
Falar sobre o livro leite derramado de Chico Buarque é complicado por dois motivos principais: o primeiro é o fato de que bastante já foi escrito a respeito, na época do lançamento no inicio do ano. O segundo é a dificuldade que se tem de separar uma obra específica do corpo da obra do autor. No caso de compositor, suas músicas são tão conhecidas - e amadas - por nós cariocas que é difícil manter a objetividade lendo seu livro. O desafio é apresentar uma visão original, que seja realmente sobre este livro, não sobre seu autor.
De qualquer forma, mesmo uma crítica que se pretenda original deve reconhecer aquilo que outros críticos já escreveram. No jornal O Globo o livro foi comparado com “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, e de fato, ao folhear suas páginas, é fácil perceber nelas notas do romance de Machado de Assis. Leite Derramado conta a história de um velho senhor que, no leito do hospital, aparentemente todas as noites, conta suas memórias de forma truncada, ora para uma enfermeira, ora para sua filha. “...o caminho para o sono é um corredor cheio de pensamentos”, nos diz o autor na página 08 do livro. E assim Chico Buarque traça as linhas de seu romance, como um caminho cheio de pensamentos. Esses pensamentos nem sempre são organizados de forma coerente. Muitas vezes o personagem principal se desmente, se repete, se perde em corredores de memórias confusas. O mais interessante dessa linguagem é que ela retrata a decadência daquele que conta a história de forma não direta, não óbvia. Embora o personagem nos conte glórias de seu passado familiar, podemos entrever por seu modo de falar e por sua confusão, pistas que nos revelam seu real estado.
Alguns criticos salientaram o aspecto histórico presente no livro. Através dos antepassados dos personagens, a história recente do Brasil fica evidenciada. Destaca-se aí a participação dos personagens negros, escravos e ex-escravos. Embora isso seja um traço presente na narrativa, não o vejo como algo tão essencial, que mereça o destaque que teve em outras resenhas.
As letras de Chico são indubitavelmente geniais. E genial não é uma palavra que deva ser usada levianamente. Talvez esse seja justamente o maior problema de Leite Derramado. Se o livro fosse lido como o romance de um autor desconhecido, ele seria um livro fabuloso. O problema é que o livro não foi escrito por um desconhecido. Foi escrito por Chico Buarque. E por isso espera-se a mesma genialidade no romance que podemos ler nas letras de suas músicas. E, ainda que a linguagem truncada, os aspectos históricos e a escrita em geral seja interessante, Leite Derramado não é genial. Não é um equivalente literário das músicas do compositor. E esse fato decepciona. Além disso, a repetição que acompanha todo o desenvolvimento da trama, embora eficaz para retratar o estado de embaralhamento da mente do ancião, torna a leitura penosa e falha em prender a atenção do leitor.