



14/11/2009
Sobre Leite Derramado
por Juliana Pamplona
‘Leite derramado’ de Chico Buarque de Holanda acompanha a narração de Eulálio Montenegro d’Assumpção, que aos 100 anos de idade relembra a sua história como pode, acreditando que uma das enfermeiras que anota algo num bloquinho, está escrevendo suas memórias. Nem sempre, porém, seus relatos coincidem com a presença da tal enfermeira. Seus interlocutores são variados e móveis, estando o próprio narrador a embaralhá-los na medida em que o Alzheimer se manifesta. O “você” é endereçado pelo narrador a diferentes personagens, passando da enfermeira, para a filha, a outros pacientes do hospital, médico e neto, bisneto, tataraneto, até o ponto em que nem ele próprio sabe quem está presente.
Alguns efeitos de narrativa se tornam recorrentes em Leite Derramado tais como as gafes cometidas por Eulálio gerando humor em torno de falas e endereçamentos inapropriados. Eulálio faz comentários freqüentes para a filha contando algo escabroso jamais dito a ela ao longo da vida, por pura distração. Há momentos em que Eulálio critica a filha severamente enquanto ainda revela detalhes íntimos constrangedores sobre o passado dela, achando que está falando apenas com outros pacientes para perceber subitamente que uma das pessoas presentes no recinto é a própria filha. As gafes são resolvidas geralmente com um estranhamento pela parte de Eulálio quanto ao mau humor da filha em seguida de um pedido (cobrança) de um beijo, indicando que o próprio talvez nem tenha se dado conta do que fez ou talvez tenha esquecido rapidamente. A repetição desta situação é um exemplo que marcar a “respiração” do texto, assim como outras repetições contribuem para a criação de um looping de tempo e espaço dando a sensação de uma dinâmica constante sem, porém, sair do lugar. O narrador conta sua história num lugar fixo: o hospital.
Curiosamente, o uso deste recurso narrativo de embaralhamento de tempos, espaços e interlocutores funciona como um elemento de equilíbrio do tom e impede que a dor seja pungente e que o humor se exceda. O fluxo segue medidas precisas que podem ser observadas, desde o tamanho dos capítulos que não são nunca muito curtos ou muito longos em relação aos demais capítulos (curtos). No miolo de cada capítulo há sempre uma dosagem mais ou menos equilibrada de humor, e alguma referência a decadência física e mental do narrador, sem que por isso se torne pesado. O enfado é evitado a qualquer custo, o timming do texto se equivaleria a uma construção musical, com ritmo preciso e ao mesmo tempo fluidez. Isso significa que esta mesma leitura que pode ser agradável, pode ser também pouco exigente. Este não ultrapassar dos limites na extensão e no aprofundar-se nas situações vivenciadas pelo personagem funciona como um freio no tratar de acontecimentos mais trágicos, tanto os do passado quanto nos do “presente”, do personagem no hospital. É como se a distância do passado o salvasse na rapidez que pode passar de um relato mais desconfortável a outro menos desagradável, com a desculpa da má memória, fazendo com que o mental se descole do emocional com agilidade. E paralelamente, as dores do presente são também administradas com a fuga ao passado – criando assim uma espécie de equilíbrio quase matemático – e às vezes musical, pensando nos ritmos criados, e na estrutura.
Os pontos mais confortáveis no pacto de recepção da obra se constroem, em parte, por este equilíbrio no “tom”, além de uma referência clara de narrativa de base: o modelo conhecido do ‘velho ao final da vida que reconta sua história’, o que propicia um “porto seguro”, pois esta premissa nunca se desfaz. O próprio final é “o grande final esperado”: a morte. O que importa aqui é a maneira como este “porto seguro” é trabalhado para que não revele a todo tempo a linearidade que orienta esta narrativa do início ao final da vida de Eulálio.
Esta mesma “temperança” é criada ao tratar de fortes preconceitos em meio a um descolamento humorado que contrapõe as falas “politicamente incorretas” com a imagem de um personagem patético que as verbaliza em situação mental e física decadente demais para ser levado a sério. Em ‘Leite Derramado’ os preconceitos de classe, racismo e machismo são atenuados pelo efeito do patético, como se fosse uma criança a pronunciar tais absurdos podendo, portanto, ser tolerada por “não saber o que diz”.
A memória é trabalhada na exploração de tempos e espaços cambiantes. Os tempos verbais se alternam nas falas de Eulálio, quando, por exemplo, no presente conta algo sobre o passado e lembra-se de algo que acontecerá no futuro deste passado relatado. Ou quando o próprio narrador se perde, confundindo o neto com o bisneto e repete histórias que aconteceram em diferentes tempos de maneiras idênticas, evidenciando também o que de fato se repete naquela família de geração em geração, a começar pelos nomes: Eulálio, a filha Eulália, os netos e bisnetos, novamente Eulálio. Enquanto tempos e espaços se alternam, alguns gestos permanecem. Além do cambio de interlocutores de Eulálio presentes no hospital quando relata sua história, há também o cambio de personagens dentro da própria história que cumprem uma mesma “função”, evidenciando assim um jogo de espelhos. Para citar apenas alguns exemplos: A morte do bisneto de Eulálio, assassinado num quarto de hotel pelo marido da amante é análoga a morte do pai de Eulálio. Eulálio descreve as duas mortes em momentos distintos do livro, usando frases e imagens idênticas, como o sangue escorrendo da boca de ambos para o tapete; Outro tipo de espelhamento é feito entre passado e presente, quando Eulálio no hospital comporta-se como o menino mimado da infância e joga seu prato de comida no chão. Nota-se que a função de quem cuida dele é a mesma, permitindo frases idênticas as da infância, agora endereçadas aos enfermeiros; E, ainda, neste jogo de espelhos, dá-se a morte de Eulálio (marcada pelo final do relato) em que, ao receber a visita do tataraneto, lembra-se de que, quando menino, fora ver seu tataravô no leito de morte e descreve esta morte até as ultimas palavras do livro.
A personagem feminina, Matilde, que marca um período curto da juventude de Eulálio e o tormenta até o final da vida, talvez, até por ser apenas memória, é um dos elementos desencadeadores de uma profusão de versões a seu respeito. Há algo sobre a história de Matilde que nunca chega a revela-se: o leitor não consegue saber exatamente o que aconteceu com esta mulher. Chico Buarque, na mesa “Seqüências brasileiras” na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) 2009, disse preferir não relatar o que “aconteceu” de fato com Matilde. Sabemos apenas que ela para de amamentar a filha, Eulália, (episódio que também está referido no título do livro) e some. O autor, Chico Buarque, transfere o problema sobre o que acontece com Matilde ao narrador, Eulálio. O que “aconteceu” é constantemente desacreditado por novas versões dos fatos. O leitor é despistado durante todo o percurso. Após inúmeras versões contadas por Eulálio, para ele próprio, para os outros, e muitas vezes para “confortar” de maneira desajeitada a filha, que por sua vez escuta vários boatos diferentes sobre o desaparecimento de sua mãe, Eulálio relata também as versões elaboradas pela própria filha. Ao final do livro, as versões já passaram por morte em trabalho de parto, doença, afogamento, suicídio etc. Há, porém, referência a uma carta do médico que internara Matilde em um Sanatório, que poderia dar ao narrador algumas pistas. Porém Eulálio conta que recebera as cartas fora de ordem, o que embaralharia a ordem dos fatos. Diz ainda que não confia totalmente no tal médico remetente das suas provas em potencial. E, por final, prefere não abrir uma das cartas que poderia conter as peças chaves para o seu quebra-cabeça. Esta carta é um exemplo desta construção que se dedica a criar pistas falsas, demorando-se em cada uma delas em promessas de revelação futura, para ao final deixá-las todas em suspenso, pois também não são desacreditadas por completo.