



janeiro/2011
Paisagens sem drama
por Beatriz Resende | resenha publicada no caderno Prosa e Verso do Jornal O Globo
Algum lugar.
Paloma Vidal
RJ, Sete Letras
Algum lugar, de Paloma Vidal, narra uma história aparentemente muito simples, quase minimalista. Na primeira parte do livro: “Los Angeles”, a narradora muda-se para os E.U.A. onde espera a chegada de M. O casal precisa preparar suas teses, sobreviver com o dinheiro curto, tentar alguma relação com outros estrangeiros à sua volta falando mais espanhol do que inglês e, sobretudo, amarem-se e desamarem-se na difícil tarefa de viverem juntos na relação inexorável que existe entre amor e melancolia. M. fecha-se cada vez mais num mundo próprio. A narradora precisa trabalhar, estudar, lavar a louça e buscar o que a sábia companheira Virginia Woolf chamava de ‘um teto todo seu’, ou seja, um mínimo de espaço/tempo para seus próprios interesses. M. não aguenta e volta ao Brasil. A segunda parte, “Rio de Janeiro”, recebe mais um personagem, o bebê, mais adiante C. Na parte final, “Los Angeles”, a cidade americana é apenas lembrança. A narradora está sozinha com C e o deslocamento espacial vai apenas do Catete a Buenos Aires onde reencontra a cidade da infância “é como se visse tudo espelhado: de um lado Buenos Aires, do outro, o Rio”. Montado num cavalo de pau, C. acena para a mãe como se partisse para um longa viagem. Fim da narrativa, sem nenhum drama, sem sensações de depaysement , sem saudades de feijoada, sem elogios ou queixas ao mundo do capitalismo global. É na melancolia seca da narradora e na construção do narrar que estão a beleza, a originalidade e a provocação deste texto que não é para ser lido, é para ser relido.
Na escolha pela simplicidade contundente está o resultado de difícil trabalho de rejeição de efeitos espetaculares, de desrealização do quotidiano quase óbvio, construindo o ficcional com os recursos não dramáticos possíveis no biografismo e aliando tais recursos à reflexão permanente sobre a condição da existência trazidas ao texto sem qualquer exibição dos conhecimentos teóricos que a autora detém.
Quando trata do narrador em ensaio com este título, de 1936, Walter Benjamin identifica aquele que troca experiências, passando-as de pessoa a pessoa, e faz isso num momento em que “as ações da experiência estão em baixa”, o da Europa em guerra, quando os narradores emudecidos não têm o que falar diante de um mundo ético destruído. Apesar da constatação de que “quem viaja tem muito que contar”, este narrador de experiências desmoralizadas não tem o que narrar. Nesse mundo, a narração é substituída pela informação em trânsito, nova forma de comunicação e, segundo Benjamin, um dos mais importantes instrumentos do alto capitalismo. O pensador mostra que apesar de a cada manhã recebermos notícias de todo o mundo e de os fatos apresentados já nos chegarem acompanhados de explicação, o mundo já era pobre em histórias surpreendentes. Não é difícil perceber que em nosso tempo-espaço globalizado, onde as informações chegam não a cada dia, mas a cada instante, a tarefa do narrador não é mais fácil.
Na oposição que estabelece entre a narração e o romance, Benjamin identifica na narração uma espécie de forma artesanal de comunicação onde o narrador imprime sua marca como o faz um artesão ao moldar um objeto, ao contrário do romance, pertencente à era das formas técnicas de comunicação. Dessa cadeia de tradição que transmite acontecimentos sem a pressa das informações faz parte fundamental a “reminiscência”, o evocar da memória. E é propósito da memória que o pensador faz uma das mais interessantes observações do ensaio ao afirmar que quanto maior a naturalidade com que o narrador renuncia às sutilezas psicológicas, mais facilmente a história se gravará na memória do ouvinte.
Esta espécie de roteiro do trabalho do narrador serve como norteador da leitura da obra de Paloma Vidal. O modelo de narrativa segue as possibilidades diversas de escrita íntima. O diário de viagem ou aquele mais privado onde seu autor registra um pensamento, uma impressão, um sentimento inexplicável, uma frase única que precisa ser registrada para reflexão futura: “M trocou o dia pela noite: janta diariamente às 3 da manhã”. Ou o registro de um sonhador separado do corpo que adormeceu: “Você sonha mais uma vez com o homem desconhecido...” E diários de leituras, como a registro da introdução de Susan Sontag a Rua de mão única, onde Benjamin menciona os inúmeros cadernos, cartas, diários. “Tudo vira escrita, até os sonhos, uma escrita capaz de condensar a experiência”.
A reminiscência aproxima, definitivamente, o narrador do leitor, já que uma das propriedades do narrador é poder narrar, com dignidade, a própria vida. É isso que o faz um mestre.
Fique porém, bem claro, que em Algum lugar não há qualquer pacto autobiográfico. Nem uma linha sequer se apresenta como não sendo ficcional. É na forma escolhida, na condução da escrita literária e não na sedução da confidência ou no espontaneísmo testemunhal que está a habilidade artesanal deste romance, qualidade a distingui-lo, a atribuir-lhe uma aura de unicidade.
resenha publicada no caderno Prosa e Verso do Jornal O Globo