03/11/2008 Crítica do livro "Os rumores imprecisos das conversas alheias", de Thiago Picchi por Júlia Rónai
Os rumores imprecisos das conversas alheias de Thiago Picchi
Thiago Picchi é autor, ator, dramaturgo e músico. A principio esta seria uma informação valiosa apenas a titulo de curiosidade, mas no caso de Thiago não é assim. Sua obra de estréia, “O papagaio e outras histórias”, vinha acompanhada por um cd com suas composições, pensadas cada uma para um conto do livro. Em sua segunda publicação, as ligações do autor com a música e o teatro são menos óbvias, mas ainda assim presentes. Personagens que pensam em metáforas de palco, e mesmo algumas reflexões sobre arte como um todo, pontuam a história levemente surreal que encontramos em “Os rumores imprecisos das conversas alheias”.

A narrativa básica é bastante simples. João é contratado pelo prefeito-governador da cidade de Vacaselva para ouvir as conversas dos cidadãos e relata-las fielmente no dia seguinte. Entretanto, a partir desse ponto de partida singelo, Thiago vai fragmentando seu enredo em diversas e deliciosas pequenas histórias, contidas nas conversas escutadas, mas também nas memórias do personagem e em suas pequenas aventuras. Essa fragmentação causa uma sensação de inação que dura por praticamente todas as 109 páginas do livro.

Parece ser endêmico que textos de autores contemporâneos contenham pouca ação. Isso tem se mostrado verdade mesmo no teatro, palco primordial de todas as ações. Mas, em muitos autores, temos a sensação de que a falta de ação vem de uma escassez inerente de histórias para contar. Carlo Gozzi dizia que toda literatura pode ser resumida em 36 diferentes enredos, e suas variações.Mais tarde, Goethe irá afirmar que Schiller tentou achar mais, mas não conseguiu listar nem mesmo as 36.

Pois ultimamente tem-se a impressão de que esses 36 enredos foram esgotados, nos deixando apenas com os devaneios dos escritores do século XXI. Thiago nos prova errados. A falta de ação em “Os rumores imprecisos das conversas alheias” vem justamente do excesso de fábulas absolutamente imaginativas que o jovem autor desfila no meio da trama principal.

Essas narrativas secundárias, por vezes, parecem se originar de uma espécie de lente de aumento interna que peneira o mundo. Essa mesma “lente” é responsável pelo tom surreal que colore a cidade de Vacaselva. Um exemplo: ao ver uma pedra portuguesa faltando na calçada, João imagina onde estaria aquela pedra. A maior parte de nós já passou por alguma situação em que imaginamos coisas semelhantes, mas em sua maioria, nós não nos detemos nesse tipo de pensamento. Aqui, personagem e narrador parecem aumentar a relevância de cada evento. O personagem fica paralisado e o narrador nos conta, em detalhes, onde a pedra se encontra e por quê. Essa mesma lógica imobiliza João diante de diversas situações, a princípio pouco importantes. As descrições de todos os que aparecem no livro se seguem por vias parecidas. Pensamos muitas vezes que uma pessoa parece um animal, por exemplo. O livro de Thiago é povoado por homens-animais, que talvez seja justamente o exagero deste tipo de descrição animalesca.

De maneira geral, o livro tem o mérito de mexer com o leitor, passando de forma clara a solidão e o caráter amedrontado de seu personagem principal. As pequenas obsessões de cada habitante da cidade criada por Thiago nos remetem às nossas próprias obsessões, nos fazendo imaginar se nós também não poderíamos fazer parte de sua narrativa estranha. Além de conter uma narrativa original e surpreendente, o livro de Thiago tem o mérito adicional de nos oferecer a possibilidade de mergulhar de cabeça em um romance numa época em que só se parece ter tempo para ler (e publicar) contos, crônicas e pequenas histórias.
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