Paraty, 03 de Julho de 2009 Do avesso por Juliana Pamplona
Atiq Rahimi e Bernardo Carvalho Atiq Rahimi e Bernardo Carvalho
Mesa 7 – O avesso do realismo
Atiq Rahimi (falou em francês com tradução simultânea)
Bernardo Carvalho
Mediação: Beatriz Resende

Muito poderia ser dito, e foi, sobre a mesa “polêmica” que reuniu o afegão Atiq Rahimi (cujo romance mais recente é ‘Sygué sabour – Pedra de paciência’) e o brasileiro Bernardo Carvalho (autor do romance ‘O filho da mãe’) em torno do tema inicial “O avesso do realismo”. Tentarei, porém, focar nas questões que mais se destacaram de um coro de opiniões e assuntos literários que circularam nestes dias de Flip.

Ambos os autores têm sido publicados e traduzidos em diferentes países e línguas e possuem esta experiência de trânsito referenciada, muitas vezes, em suas próprias obras. A partir da pergunta de Beatriz Resende sobre se ainda haveria sentido, hoje, pensar em literatura nacional e sobre a experiência de recepção das obras de cada um em países diversos, Rahimi e Bernardo trouxeram para a discussão posicionamentos divergentes em relação à recepção possível e/ou desejada das obras por diferentes culturas.

Penso que é preciso situar os dois pontos de vista para não permitir que a discussão permaneça dentro de um maniqueísmo pouco justo com a riqueza produzida pelos questionamentos levantados pelos participantes da mesa. Atiq Rahimi fala de um lugar no qual uma literatura nacional “não conseguiu, infelizmente, se definir” – “No Afeganistão não conseguimos ainda nem criar uma nação, que dizer então de uma literatura nacional. Fui muito influenciado pela literatura européia, persa e árabe.”, diz. Segundo o autor, na tradição afegã, não existe a arte de escrever romance, somente a da poesia e do conto. Atiq, que escreveu dois de seus livros em francês, explica que no Irã houve um movimento em direção ao romance, e que acredita que o “romance pode puxar os limites da nacionalidade”. Conta que, com a literatura Persa, compreendeu a importância dos ‘ritos’ para a sua criação literária – o que também está presente em seu hábito de escrever ouvindo música – “o ritmo é muito importante!”. Em poucos minutos de conversa, Atiq Rahimi, traçou um panorama que situa sua formação literária revelando a singularidade de sua trajetória de vida. Tal singularidade está refletida numa fala de quem não só acompanhou os horrores da guerra de perto, como outros convidados da FLIP 2009 (por exemplo, Lobo Antunes), mas também de alguém que teve forte contato com uma literatura ‘descentralizada’ do eixo da literatura ocidental (predominante na formação da maioria dos ali presentes), não deixando, claro, de beber dos cânones ocidentais. Atiq disse querer “escrever para o outro”. Para ele, “o escritor está destinado a ultrapassar fronteiras” e ainda citou Blanchot na frase: “A palavra é errante, o escritor é condenado a ser errante”.

Quando Bernardo Carvalho discorda da fala anterior de Atiq, dizendo que “não existe essa universalidade da literatura”, parte de outros pré-supostos. “Existem modelos de literatura, e uma guerra entre eles. Não há uma passagem tranqüila e imediata de um para o outro. Ao contrário, há uma tentativa de imposição de um sobre o outro”. Bernardo exemplificou seu discurso referindo-se à resistência de uma literatura anglo-saxônica em relação a modelos diversos e atentou para a importância da existência de tais diferenças e de como isso nos enriquece. Esses atritos que não permitem que uma obra seja “apropriada” facilmente por outra cultura parece ser o seu maior interesse.

Atiq, ao esclarecer que quando fala em quebrar fronteiras não pensa em “universalismo”, e sim na procura do que pode ser partilhado com o outro, nos apresenta um novo problema que permite a reflexão sobre as impossibilidades de apropriação do conceito de uma “literatura universal” por quem já parte do lugar do “diferente”. A própria possibilidade do “universal” é considerada a partir de uma visão de quem pode se pensar do lado de “dentro” ou como herdeiro de uma cultura dominante, pois necessita poder ver-se como parte de um “todo”. Ao referir-se a sua experiência pessoal como leitor estrangeiro, Atiq disse perceber que há algo comum que diz respeito à experiência humana. A ele interessa o que pode ser partilhado: “Não falo de uma universalidade, mas de algo humano que todos temos em comum. Temos em comum nossos limites em relação à morte, à família, ao amor. O escritor, falando daquilo que é verdadeiro para uma única pessoa, pode dizer algo que será verdadeiro também para outra.”

Com ou sem o contraponto exato na fala de Atiq Rahimi, Bernardo levou à mesa da FLIP uma provocação que vai de encontro a celebradas obras inseridas no mercado editorial que não apresentam qualquer resistência ao leitor comum e que, pelo contrário, o exige muito pouco. Bernardo expôs o seguinte ponto de vista: “Tem certas literaturas que as pessoas não querem ler. Há produções culturais que são resistentes, que não são fáceis. (...) A literatura que me interessa é a da resistência, não a desse humanismo. Quando escrevi meu romance, "Mongólia", e ele foi traduzido para o francês, eu mandei o livro para os mongóis que tinham me ajudado lá, e que sabiam ler francês. Eles cortaram relações comigo, porque esperavam que eu escrevesse uma exaltação da vida nômade na Mongólia, e o livro era uma narração desesperada de uma pessoa diante do diferente, daquilo que ela não entende.” Tais observações partem de um autor que, para escrever um de seus romances, o ‘Nove noites’, saiu em busca de experiências que o desestabilizassem, na tentativa (bem sucedida) de vivenciar um “medo” que servisse de motor para o seu processo de escrita.. Bernardo foi atrás de uma tribo indígena para se aproximar de seu objeto de pesquisa, o antropólogo americano, Buell Quain, que se matou aos 27 anos de forma violenta quando em contato com a mesma tribo. “Me interessa, não o que é universal, mas as estranhezas particulares que podem ser incompreensíveis para determinadas culturas.”, acrescenta.

Enquanto Bernardo fala de uma busca pela experiência do medo fora de si e de viagens que o colocariam em choque com o diferente, Atiq, cujo pai foi preso quando tinha 11 anos e que viveu num país onde sempre houve guerra, fala de um movimento inverso, onde o exílio é a possibilidade de “não rachar-se”. Ver o seu país de fora é também uma maneira de elaborar novas perspectivas sobre seu próprio país, o que acontece quando Atiq aborda a questão feminina em meio à tradição afegã. Não é estranho que a literatura tenha significados tão díspares para estes dois autores, cujos gestos ganham, no entanto, um caráter de “resistência” nos diferentes contextos em que suas obras transitam.