Paraty, 02 de Julho de 2009 Sobre Separações por Juliana Pamplona
Rodrigo Lacerda Rodrigo Lacerda
Domingos de Oliveira Domingos de Oliveira
Mesa 2 - Separações
Autores: Rodrigo Lacerda e Domingos de Oliveira
Mediador - Paulo Roberto Pires


Os dois autores foram reunidos para discutir o tema ‘separações’ presente no livro recém lançado de Rodrigo Lacerda "Outra vida", e o filme "Separações" de Domingos de Oliveira (ampliando-se também a outras obras de Domingos não raramente atravessadas por sua vida pessoal).

A mesa teve início com a leitura de Rodrigo de um trecho do livro "Outra vida" e com uma breve apresentação das premissas do romance em questão pelo autor. Rodrigo optou por dois personagens anônimos: um casal - ela é vendedora de loja e ele, funcionário público - na tentativa de fugir de um lugar comum da escrita de alguns contemporâneos (e não-tão-contemporâneos assim) onde os personagens tendem a ter o mesmo background que os autores: pertencentes a uma mesma classe social, com profissões afins etc. O romance se desenrola a partir de uma briga banal deste casal numa rodoviária. As motivações que desencadeiam esta briga são gradativamente reveladas através de flashbacks da relação ao longo do livro. Rodrigo diz ser o seu objetivo "extrair um significado profundo dos momentos banais" explorando a tragédia latente no corriqueiro e no cotidiano.

Domingos apresentou a leitura de um texto seu, escrito especialmente para a palestra da FLIP, onde fez uma espécie de ensaio sobre "o fenômeno das separações", disponível aqui no Fórum Virtual para a sorte dos que não puderam presenciar esta ‘perfomance’ ao vivo. Digo ‘performance’ porque o autor-ator valeu-se de recursos tanto dramatúrgicos quanto de atuação num monólogo que, se não fosse constantemente desestabilizado por depoimentos de dor (de amor) nos seus limites mais insuportáveis, seria uma típica ‘stand-up comedy’ com direito a "chavões" que se repetem e tudo mais. Ao contrário do que se pode supor, não eram “chavões” de humor - tratava-se de uma repetição dentro de seu relato de falas pouco alegres como, por exemplo: "sofri muito", com um timming de mestre. Com muito carisma e adesão de uma platéia ávida para ouvi-lo, seu monólogo passava a sensação de que apesar do texto na mão, cada palavra lhe ocorria no momento da fala.

Quanto ao seu processo criativo, Domingos falou sobre algumas etapas pelas quais costuma passar atualmente, que consiste em experimentar um momento inicial de "escrita solta", deixando que as idéias fluam no computador; em seguida, a etapa da ‘organização’ na qual utiliza todo o seu conhecimento de dramaturgia; depois viria a crise de achar "que é tudo uma merda, tudo muito racional" e, com insistência, esta fase crítica passa. É quando se dá a parte mais interessante do processo: os personagens passam a escrever a peça (ou filme, ou romance) para o autor. "A obra é ruim quando é o autor que escreve", diz explicando em seguida sua teoria da "terra das peças prontas", na qual existe uma dimensão onde todas as peças estão prontas e o autor só tem que se conectar com esta outra dimensão ‘fantástica’ que, então, terá a sua peça escrita.

A partir de uma indagação de Paulo Roberto Pires sobre a dosagem do racional e do emocional presentes na criação das obras de ambos, Rodrigo falou da escolha de escrever sobre pessoas ‘diferentes’ dele. Disse também ser perseguido por leitores que insistem que tudo o que ele escreve é autobiográfico, por mais estapafúrdia que seja a escrita ficcional. Já Domingos escreve sobre pessoas "muito parecidas com ele" como, por exemplo, o protagonista "Cabral" do filme "Separações" vivido por Domingos de Oliveira no... filme. Segundo Domingos, no próximo filme, "Cabral" fará o papel de “Domingos", também interpretado por... Domingos. Até quando Domingos escreve sobre personagens distantes de sua realidade, acredita que há identificação (mesmo que não a partir de uma experiência direta).

Entre suas muitas afirmações provocadoras, Domingos diz que "toda arte boa é auto-ajuda" e, ainda expôs que adoraria escrever "auto-ajuda". A arte, segundo ele, deve dar motivos para viver e não para morrer, "a arte só tem valor quando te ajuda". Ao mesmo tempo, seus exemplos de literatura de auto-ajuda (lê-se: de literatura que o ajudou) é Moby Dick e Dom Quixote. Acrescenta ainda: "Se um filme não me ensina a viver, a melhorar a minha vida - é um filme ruim". Domingos se coloca "a favor da vida", o que para ele, não se passa pelo viés do que a pessoa sente e sim por uma decisão racional. Não é para sentir e decidir, “é pra decorar.”

A mesa "Separações" termina com uma homenagem de Rodrigo Lacerda a Domingos de Oliveira, com a leitura surpresa de um texto do próprio Domingos.

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Segue um trecho da palestra-performance de Domingos de oliveira cedida para o Fórum virtual de literatura e teatro:

PALESTRA DA FLIP (02.07.09)
SEPARAÇÕES
De Domingos de Oliveira


Há pessoas que sofrem com separações, outras, muito mais raras, se alegram com isso.
Realmente, uma separação é sempre um alivio. E alguns logo encontram a "solidão magnífica", conforme chamou Freud; Mas não sou esse tipo de pessoa e para os homens comuns, separação dói muito.

O assunto não me é estranho porque já fiz um filme sobre ele e também porque tive cinco casamentos e cinco separações. No entanto não tenho nada a dizer sobre o assunto. Há coisas assim, quanto mais se vive ou mais se pensa, mas obscuras ficam.

Na primeira separação, tinha uns vinte e poucos anos. O nome dela era Eliana. Me desarticulei tanto que não podia sair na rua, achando que os edifícios cairiam sobre mim. Lembro também que foi nessa época que descobri a psicanálise, e logo depois o álcool. Na boemia, no tempo sem tempo de boemia, procurava aflitamente o Amor. Quebrei minha mão dando um soco na parede e fui à seção de psicanálise tocar uma flauta de plástico que alguém me deu, com a mão engessada. Quero dizer que sofri muito.

Na minha segunda separação sofri muito. Tinha três namoradas ao mesmo tempo, e brochava com as três. O nome dela era Leila. Em vez de tocar a flauta, fiz um filme, “Todas as Mulheres do Mundo”. Ninguém duvide disso: Períodos de separação são em geral altamente produtivos.

Minha terceira separação, Nazareth, eu tinha quarenta e poucos, sofri muito e não teve graça nenhuma. Eu estava sem dinheiro e vivia nos corredores dos bancos adiando promissórias, parcelando dívidas, movido por anfetaminas. Naquela época eram vendidas como remédio para emagrecer.

Meu quarto casamento, Lenita, durou dez anos e tive uma filha. Maria Mariana. Na quarta separação tinha quase cinqüenta, tive poucas namoradas, poucas porém boas.

Até que há vinte e oito anos atrás, casei com Priscilla, adorável criatura que me acompanha até hoje. E lá pelo oitavo ou décimo ano de casamento, passamos um ano separados. Se eu tinha desarticulado na primeira, nessa ultima desagreguei, quero dizer, sofri muito. Mas sempre produtivamente; Essa experiência resultou num filme, "Separações".

Eu cito esses dados biográficos nesta palestra, é apenas para tentar perceber o que há de comum entre essas cinco malditas porém necessárias passagens. Na verdade pode ser dito que todo homem solteiro quer casar assim como todo casado quer ficar solteiro. Não conheço nenhum casal decente que não nutra um sólido desejo de separação. Faz parte de um bom casamento, creio. Afinal, o amor tira a liberdade, sem dúvida. O que é inadmissível. E a solidão muitas vezes é desagradabilíssima e vazia. Enfim, vamos todos amando e desamando, carneirinhos a espera do corte.

(...)

Hoje tenho 72 anos, continuo querendo me separar da Priscilla, e ela de mim naturalmente, posto que somos normais e tenho a impressão que poderíamos fazer isso alegremente sem nenhum ciúme e nenhuma dor. Tenho esta exata impressão com a mesma convicção que não acredito absolutamente nela. Morro de medo de me separar da Priscilla. Creio concluindo, que é uma questão genética. Há homens que nasceram para viver sozinhos, e certamente não sou um deles. A verdadeira arte de viver talvez seja tentar ser aquilo que você é. O que evidentemente é muito difícil.

Me aguardem no meu próximo filme, é uma espécie de continuação de ‘Separações’. Acompanhando o casal, até digamos assim, o fim. Título: “Inseparáveis”.