



Paraty, 03 de Julho de 2009
Sequências Brasileiras
por Juliana Pamplona
Sequências Brasileiras
Chico Buarque e Milton Hatoum

Mesa 10 - Sequências Brasileiras
Autores: Chico Buarque e Milton Hatoum
Mediador - Samuel Titan Jr.
Informações redundantes: A tão esperada mesa, com ingressos esgotados no primeiro dia de venda, lotou a tenda dos autores e alterou a dinâmica da festa literária. Filas ainda maiores, público saindo no meio da mesa anterior – "O eu profundo" com Mario Bellatin e C. Tezza – para entrar na fila da "mesa do Chico", público correndo da tenda dos autores para a tenda dos autógrafos, mais fotógrafos, mais aplausos (com ou sem propósito) etc.
Chico Buarque, autor do recém-lançado 'Leite derramado', e Milton Hatoum autor de 'Os órfãos do Eldorado', leram trechos de seus respectivos livros após a breve apresentação de ambos por Samuel Titan Jr que abriu a mesa falando de pontos em comum dos dois livros e também das trajetórias dos autores. Tanto Chico, quanto Hatoum passaram pelo curso de graduação em arquitetura (abandonando-o) e estão no 4º romance. O tema dos livros recém-lançados também é similar: ambas as narrativas se dão através da voz de um senhor idoso que conta o seu passado, mesclando memórias pessoais e históricas.
Hatoum contou que ‘Os órfãos do Eldorado’ é uma novela encomendada por uma editora escocesa, cujo limite de palavras já estava acordado: 25 mil. Não poderia, portanto, ultrapassar muito de um limite pré-fixado de 100 páginas. Arrependeu-se. Disse que nunca mais escreveria nada por encomenda, “nem um bilhete”. Esta convenção proposta – que não chega a ser um “romance”, mas uma “novela” – exigiu-lhe uma restrição de personagens e também fez com que decidisse por uma estrutura (recorrente também em seus contos de ‘A cidade ilhada’) que pressupõe algo “oculto” que deve ser “revelado”. Hatoum disse que o título o ajudou muito. Eldorado é a cidade encantada, o mito, a ilha onde a personagem se encontra.
Chico revelou que ao terminar um livro, não consegue mais pensar em literatura por um tempo. Precisa de um afastamento do livro e deste modo de escrita até surgir novamente uma vontade de entrar em contato com a escrita literária. Sabia, no entanto, que depois de Budapeste não queria escrever nada parecido. Havia escrito sobre Budapeste (o local) sem nunca ter ido lá, e resolveu que seu próximo livro, Leite derramado, passaria em parte num tempo histórico que também não viveu. Encontrou o seu narrador em uma composição sua que não ouvia já fazia algum tempo: O velho Francisco. E foi assim que surgiu Eulálio, com seus lapsos de memória, repetições e fixações. “Não é um romance histórico”, enfatizou. Fala também do Brasil Império, Brasil Colônia através dos ancestrais do personagem Eulálio, e traz a história até os dias de hoje com o mesmo “descompromisso” implicado no filtro da memória falha e da parcialidade dos pontos de vista de Eulálio.
Uma das características ressaltadas ao longo da FLIP 2009 e retomada nesta mesa específica diz respeito à concisão dos textos apontada, em geral, como um tipo de valor ou mérito do autor. Chico brincou dizendo que seu livro de quase 200 páginas, não fosse pela fonte que lhe confere letras grandes, teria honestamente umas 150 e, cortando as inúmeras vezes que o personagem repete a mesma coisa, daria umas 20 páginas. Hatoum atribuiu o limite de páginas a um desafio do próprio gênero “novela”, e diz que outro desafio foi “achar a voz” do narrador. “Voz” da qual Hatoum não tem muito problema de se libertar ao terminar um livro, pois tende a emendar uma obra na outra. Já, Chico, tem mais dificuldade de se livrar da voz do narrador. Disse que apesar de Eulálio ser um personagem “preconceituoso” e não ter nada a ver com o autor, foi criando uma empatia ao escrevê-lo – “é como se fosse um parente mais velho”.
Quanto à criação de episódios de corrupção e “falcatruas” políticas presentes em ambas as obras, Chico disse: “essa imaginação não existe, já estava tudo no Google”. Confessou, no entanto que, como filho de historiador, muitas das referências históricas surgiram de coisas que ouviu o pai falar informalmente em casa. Mas não houve uma pesquisa pesada, “talvez mesmo por ser filho dele não sou um conhecedor, leitor do meu pai”. Hatoum teve acesso a diversas fontes do arquivo público do Amazonas, além de histórias, além de mitos que ouviu e referências literárias como Mario de Andrade. “Tentei ser fiel a uma tradição realista” disse Hatoum, apesar da forte presença das lendas que são incorporadas a esta estrutura realista. “Queria um relato onde o mito se tornasse uma narrativa realista de ficção.”
O que o personagem Arminto presencia nas primeiras páginas do livro Os órfãos de Eldorado (uma mulher entrando no rio até sumir), é uma viagem para a morte. Significado ainda difuso para o personagem narrador, que se revelará mais adiante com nitidez. Trata-se de um mito que “se transforma em drama humano”.
Os autores falaram também em relação às personagens femininas presentes na memória de ambos os narradores. Mulheres que marcaram um período curto da juventude de Eulálio e Arminto e os tormentam até o final de suas vidas. “Matilde é uma ferida que segue com ele (Eulálio)”, disse Chico. No entanto, algo fica por revelar-se: o leitor não consegue saber exatamente o que aconteceu com esta mulher, obsessão do narrador. Chico preferiu não relatar o que “aconteceu” com Matilde. Só sabemos que ela para de amamentar a filha (episódio que também está referido no título) e some. O autor transfere o problema sobre o que acontece com Madilte ao narrador, Eulálio. O que “acontece” está dito no romance, mas é constantemente desacreditado por novas versões dos fatos. O leitor é despistado durante todo o percurso. No caso de Dinaura, personagem feminina pela qual Arminto é obcecado, Hatoum trabalhou a ambigüidade do “real misturado com o mito”, conferindo-lhe um delineamento misterioso, quase fugidio. Dinaura não fala uma palavra, sua voz só é ouvida através de sonhos de Arminto.
Para finalizar, respondendo a perguntas da platéia, Chico diz não ouvir música quando escreve, mas precisa “sentir musicalmente as frases do livro”. Não acredita numa hierarquia entre o gênero literário e a música. Segundo ele, não se pode afirmar que Guimarães Rosa é melhor do que João Gilberto. Respondendo quanto ao possível incômodo de ser classificado como “escritor regionalista”, Milton Hatoum respondeu: “Sou o mais regionalista dos escritores.” Acrescentando que, num mundo globalizado, “quanto mais regionalista, mais universal”.