



Paraty, 02 de Julho de 2009
Sobre Verdades Inventadas
por Juliana Pamplona
Verdades Inventadas
Foto: Walter Craveiro

Mesa 3 - Verdades Inventadas
Autores: Tatiana Salem Levy, Arnaldo Bloch e Sérgio Rodrigues
Mediador - Beatriz Resende
Beatriz Resende abriu a mesa apresentando os três autores e falando sobre o título da mesa: Verdades inventadas, e de como este mote está atravessando muitos dos debates da FLIP 2009. Beatriz comenta que, caso ainda precisemos de uma ‘definição’ para literatura, a mesma pode ser vista hoje como "verdades inventadas".
Tatiana Levy, nascida em 1979, a mais nova da mesa, fala sobre o seu romance estréia: 'A chave de casa'. Seu romance é marcado por misturas de experiências reais e criação fictícia de maneira que não mais se distinguem. Arnaldo Bloch (romancista, jornalista e cronista), autor de 'Os irmãos Karamabloch', relata a trajetória da família Bloch se incluindo na narrativa de maneira nada imparcial e ao mesmo tempo utilizando-se da ficção para o relato de uma saga familiar que não se pretende versão única de uma história, e tampouco uma biografia nos termos tradicionais. Sérgio Rodrigues, escritor e jornalista, além de blogueiro do www.todoprosa.com.br, falou de seu último livro 'Elza, a garota'. Este romance conta a história de uma garota pobre que, como o subtítulo diz: "o partido (comunista) matou." 'Elza, a garota' trabalha com a mistura de uma pesquisa histórica pesada com ficção e reconta a polêmica história de Elza Fernandes, assassinada, especula-se, a mando de Luis Carlos Prestes.
Sobre os processos de realização dos livros, Arnaldo conta que escreveu Os irmãos Karamabloch entre 2001 e 2007. Porém esta é uma datação "pró-forma", pois acredita estar escrevendo tal romance desde que nasceu, uma vez que a elaboração do livro está intimamente ligada a sua experiência de vida, em especial a familiar (O clã, como gosta de dizer). O livro trata exatamente desta vontade de se libertar do "clã". Algumas medidas, claro, foram tomadas ao longo de sua vida para dar andamento a este processo de "libertação", como fazer a faculdade de Comunicação Social da UFRJ – encontrando um lugar para um desenvolvimento próprio – além do trabalho no jornal O Globo, que também o possibilitou a definição de uma identidade fora do "clã". Afirma, porém, que o livro é sua tentativa mais ousada de sair desta "barriga". Seu romance parte de fontes variadas: relatos de parentes, testemunhos pessoais, gravações familiares, pesquisa etc. Estas vozes são intercaladas com a sua própria dando um caráter polifônico ao livro.
A 'Chave de casa' também comporta referências familiares, que levou a autora a pesquisar sobre suas raízes turcas, terra de seu avô. Pesquisa que logo foi abandonada, pois ao entrevistar a sua tia-avó, saiu da entrevista certa de que não era exatamente a verdade dos fatos que a interessavam, e sim, "a verdade da literatura". Para Tatiana este processo de criação é um "processo físico", no qual é preciso encarar a solidão da escrita. Citando Nietzsche, diz que para escrever é preciso transformar em sangue próprio, o passado e, no caso, os relatos dos outros. O leitor não encontrará em A Chave de casa um Romance sobre a Turquia ou a história de sua família. Sua própria família teve sua expectativa frustrada por não se reconhecer no livro.
Sergio conta que sua experiência de escrita de 'Elza, a garota' se deu em velocidade absurda. Em menos de um ano estava com o romance pronto. Trata-se de um livro encomendado pela Nova Fronteira. Dedicou-se seis meses fazendo uma "pesquisa pesada" e menos de seis meses escrevendo com uma disciplina que "nunca havia tido". Os trechos do livro que se encontram em itálico se referem a informações de cunho jornalístico e pesquisas históricas, nas quais o leitor poderá "confiar". Porém, Sergio atenta para o fato de que "a ficção pode ser mais verdadeira do que o real".
Os autores falaram ainda sobre o processo de reescritura dos textos, concordando que joga-se muita coisa fora ao escrever um romance. Mesmo Sérgio, com o pouco tempo que dispôs para escrever, disse que passava por este processo, de ter que recomeçar de um dia para o outro ao se dar conta que não estava indo num caminho certo. Falou-se também sobre a "lógica interna" presente em cada texto, e da importância do verossímil dentro desta 'lógica' própria que o texto cria.
Quando Beatriz perguntou sobre como cada um lidava com o fator exposição pessoal nas obras e a coragem que este tipo de proposta exigiria, Tatiana disse expor aquilo que é o mais "secreto" para ela, mas que isto não significava que fatos da sua vida erótica ou pessoal estão descritas ali. Conta que as pessoas às vezes perguntam se o que escreveu é algo que lhe aconteceu de fato. "É tão misturado. Às vezes nem eu sei mais o que aconteceu ou não aconteceu." Tatiana compartilhou com o público o sonho que tivera na noite anterior: sonhou que alguém da platéia perguntava se seu romance era autobiográfico. Ela respondia com veemência que não. A pessoa dizia, então: “Pior pra você. Seria muito melhor se tivesse vivido.”
Quanto a 'Elza, a garota', Sérgio acha que a coragem está implicada na iniciativa de abordar questões mal contadas da história do país. Sua vontade é "trazer estes fatos históricos para uma discussão mais arejada, o que desagrada a muitos". Preocupa-se em apresentar nuances nas personagens. "Sair do preto no branco" da história, expondo as contradições em figuras como Prestes, tido como uma espécie de herói do partido comunista em algumas versões da história do período ditatorial. Sérgio posicionou-se ainda dizendo que "a realidade não existe", acrescido por Arnaldo que também deixou claro a sua descrença em uma "biografia definitiva", ou uma única versão dos fatos.
Os três autores compartilham esta não-identificação com o lugar de legitimação de uma realidade e, ao mesmo tempo, trabalham com empréstimos de alguma versão de 'realidades legitimadas pela história' do país ou de família. O interessante é o não definir-se. Tanto a leitura pelo viés factual, quanto a abordagem das obras a partir de um viés de uma ficção livre de qualquer traço biográfico (não menos desacreditado) se mostra inviável na aproximação as obras literárias da mesa Verdades Inventadas.