



2008/2
II Seminário "Literatura sem papel"
por Mariana Barcelos

Dia 24 de novembro - das 10 às 18h
Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ
Salão Moniz de Aragão
Av. Pasteur, 250, 2º Andar
O encontro colocou em discussão o uso da Internet por quem faz literatura e teatro, pratica a crítica literária e teatral ou apenas se interessa por estas expressões artísticas. Foram apresentados blogs, sites e revistas virtuais dedicados a Literatura e Artes Cênicas.
Programação:
10h - Abertura. Apresentação do Fórum Virtual de Literatura e Teatro, projeto "Cientista do Nosso Estado", da FAPERJ. Coordenação Profa. Beatriz Resende.
10:30h - "Questões da dramaturgia contemporânea"
Palestra de Mário Bortolotto, dramaturgo.
Blog: Atire no Dramaturgo.
11:30h - "Impressões Digitais"
Heloisa Buarque de Hollanda. Coordenadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea - PACC-UFRJ e
Claudiney José Ferreira - Instituto Cultural Itaú.
12:30h - A Cena e Rede: blogs e revistas virtuais dedicadas às Artes
Cênicas. Daniele Ávila e Dinah Cesare, editoras da revista Questão de Crítica. Revista eletrônica crítica e estudos teatrais.
João Cícero, crítico teatral, colaborador do Fórum Virtual de Literatura e teatro.
Apresentação da Revista Z Cultural. Amara Rocha, pesquisadora do PACC/UFRJ.
Mediação: Juliana Pamplona, dramaturga, editora do Fórum Virtual de Literatura.
13:30h às 14:15h - Brunch no Salão Vermelho
14:30h - "Vida literária em tempos de internet"
Palestra de Marcelino Freire, escritor.
Blog: Era O Dito.
15:30h - "E o livro, como vai?"
Cristiane Costa, editora de Não-Ficção da Nova Fronteira, Diana Klinger, editora da Revista Grumos e Ramon Melo, jornalista, Click(in)versos e Sorriso do Gato de Alice.
16:30h - Blogs, sites e revistas eletrônicas. O jornalismo literário on line.
Miguel Conde - Caderno Prosa e Verso de O Globo e Prosa on line.
Cecilia Giannetti, escritora e editora do Portal Literal.
Coordenação: Daniela Birman, jornalista, Doutora em Letra; Pos-doutorando do PACC/UFRJ.
17:00h - Escritores em rede:
Ana Paula Maia, escritora.
Marcelo Moutinho, escritor.
Coordenação: Beatriz Resende.
Durante todo o evento foram apresentadas publicações online em telão.
O seminário foi transmitido pela internet através da rede aberta da UFRJ no endereço http://tv.ufrj.br/fcc
O Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ promoveu durante todo o dia 24 de Novembro o evento Literatura sem papel, que pôs em discussão diversos temas da atual realidade dos escritores e editores no Brasil, a partir da relação cada vez mais intrínseca que a internet assumiu na vida das pessoas. O seminário foi transmitido através da rede aberta da UFRJ.
Os destinos que terão o livro impresso, o escritor, editor, "blogueiro" etc. ainda não são totalmente claros, mas a idéia do que se imagina que possa acontecer permeou muitas das mesas realizadas. Seguem alguns exemplos:
Mesa: Vida literária em tempos de internet.
Convidado: Marcelino Freire
Website: www.eraodito.blogspot.com
O convidado para a mesa, Marcelino Freire, falou da própria experiência com a vida literária virtual e destacou as vantagens que o veículo apresenta, como por exemplo: a maior exposição do artista, o que ajuda a propagar a sua literatura; a possibilidade de fazer um "exercício de linguagem" no blog, sem que seja necessário apresentar os textos que serão publicados nos livros; pelo fato do blog ser um meio prático – no que diz respeito à amostragem de material – pode funcionar como portfólio; além de ser um meio de divulgação de agenda, lançamentos, novidades etc.
Para o autor a Internet é uma ferramenta "extraordinária" para difundir a literatura, e não se pode ter medo de um veículo que, para o artista, só traz benefícios. Através dela a vida literária "real" (dos livros físicos) se mostra na vida literária "atual" (da Internet).
A professora Beatriz Resende questionou sobre como fica a relação com o texto propriamente, já que na Internet este tem seu tamanho, teoricamente, reduzido. Marcelino respondeu que uma das principais características da Internet é aproximar as pessoas, e que o texto também teria esta função. A Internet aproxima os autores tanto das "pessoas de literatura", quanto do público leigo, e, a partir deste primeiro encontro, essa relação poderá ser cada vez mais estreitada. O texto mais curto seria, então, uma espécie de "boas vindas" à cabeça do escritor.
Mesa: E o livro, como vai?
Convidados: Cristiane Costa (editora de Não-Ficção da Nova Fronteira), Ramon Melo, Lucas Murtinho.
Websites: http://www.sorrisodogatodealice.blogspot.com e http://copadeliteratura.com
Tão importante quanto a atual vida literária virtual para os escritores é saber exatamente as conseqüências que sofrerão os livros nesta nova fase. Para a escritora e editora Cristiane Costa é necessário olhar o livro sobre vários ângulos, para saber se ele pode adquirir outras formas que não a convencional sem deixar de ser um livro. A possibilidade de com o livro acontecer o mesmo que com indústria fonográfica – o CD que rapidamente perdeu espaço para arquivos em mp3 – é indiscutível e irreversível. Portanto, é preciso desde já estudar os novos formatos que o livro pode vir a ter. Muitos experimentos estão sendo feitos, como por exemplo, os textos gravados em um tipo de "ipod". A escolha definitiva, porém, virá do próprio leitor quando uma dessas formas se tornar a mais eficiente e se propagar. O que a indústria editorial faz, hoje, é buscar um meio de se reinventar para conseguir se manter no mercado.
O que não quer dizer que o livro convencional irá morrer, sumir de vez. A própria editora concorda que haverá sempre um best-seller para ocupar o pouco espaço que ainda sobra nas estantes para os livros. E ainda existe um romantismo, um apego ao papel pintado, por parte de muitos leitores que não deixarão isso de fato acontecer (é o mesmo caso do disco de vinil). Mesmo que nas grandes editoras as publicações de várias sessões estejam visivelmente em declínio, por causa da queda nas vendas, como poesias e livros universitários, pois ambos podem ser facilmente baixados na Internet.
E como fica o caso dos novos escritores que se tornam conhecidos nos blogs? Nunca terão seus livros "convencionais" publicados? Ramom Melo comentou que após dez anos de blog no Brasil, muitos escritores que se tornaram conhecidos por este veículo puderam ver seus livros nas prateleiras, mas que hoje, devido a enorme quantidade de "blogueiros" está cada vez mais difícil a escolha dos editores por alguém, e que a principal solução para este problema é o chamado self-published, quando o autor publica seus próprios livros para alcançar visibilidade no meio literário. Na realidade, não é apenas a quantidade de "blogueiros" que dificulta a publicação de um novo escritor, mas também, como já foi dito, a atual crise que o livro impresso enfrenta. Este autor deverá optar por entrar definitivamente na atual fase editorial, e aceitar suas obras publicadas em outros formatos, ou se permanecerá brigando por livros em papel, numa disputa em que poucos sairão ganhando.
Como alertou Lucas Murtino, "o livro (a obra escrita publicada na Internet) vai bem, o blog vai bem, as editoras que estão apreensivas". Assim, se um escritor de blog estiver atento, perceberá que fazer um elo com uma editora agora pode não ser tão vantajoso. É melhor um livro, ou um blog? Depende das pretensões do artista, mas é fato que a Internet ajuda o escritor chegar ao leitor sem mediação, sem editora. E para o sucesso de qualquer produto a melhor propaganda ainda é o boca-boca. E um blog permite uma exposição infinitamente mais ampla do que qualquer prateleira. E não é porque inúmeras pessoas possuem um que ele não seja personalizado, para Cristiane Costa o blog divulga um trabalho, como uma grife.
O amor táctil não nos permite saber como viveremos sem os livros, e nem se vamos nos adaptar aos novos formatos – uma música no CD ou em mp3, apesar de não ser o mesmo formato, ainda é a mesma música, o mesmo som que se escuta. Uma narrativa impressa em papel especial para um livro editado e o mesmo texto impresso em um papel ofício qualquer no computador não são a mesma coisa. Porque livro tem textura, tem fonte, tem tamanho etc. E se a simples troca do tipo do papel já dá diferença, a publicação sem papel se não muda a obra, muda no mínimo a linguagem.
Mesa: Blogs, sites e revistas eletrônicas. O jornalismo literário online.
Convidados: Cecília Gianetti e Miguel Conte.
Websites: http://portalliteral.terra.com.br/ e http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/
Os dois convidados apresentaram as formas interativas de blog. Chamado 2.0, que significa que todos podem usar. Um blog colaborativo dentro, claro, das regras estabelecidas pelos moderadores (e isso depende de cada site). Miguel Conte falou do blog jornalístico que coordena no site do O Globo, chamado Prosa Online, e Cecília Gianetti sobre o Portal Literal do Terra. Já que Cecília também escreve para jornal (na Folha de São Paulo), a discussão se encaminhou para as diferentes formas de relacionar as linguagens (literária e jornalística) em um blog. O que seria inevitável, pois, os dois além de jornalistas são escritores.
A grande vantagem deste tipo de blog é a proximidade com o leitor, que neste caso, opina, e tem até a possibilidade de escolher, ou dizer, o que gostaria de ler. Um blog onde se conversa sobre o próprio blog enquanto ele é atualizado. Uma outra possibilidade de experimentação.
Mesa: Escritores em rede
Convidados: Ana Paula Maia e Marcelo Coutinho.
Websites: http://www.killing-travis.blogspot.com e http://www.marcelomoutinho.com.br
Ana Paula é o exemplo de quem começou a escrever no blog, ganhou popularidade, tornou-se conhecida pelos editores, e publicou a partir daí seu primeiro livro. Hoje, porém, ela não escreve mais partes de livros em seu blog, que se transformou em um espaço-agenda, ou como ela nomeou um "diário não intimista", escreve sobre eventos dos quais participa, calendários, etc. Mas contou da própria experiência como escritora de blog, como isso afetou a linguagem da literatura que foi para o papel (no seu caso a ficção).
Já Marcelo Coutinho abre o espaço do seu blog para assuntos "extra-literários". Disse que a vantagem é uma linguagem que pode ser levada menos a sério do que a jornalística.
A última questão levantada, então, por uma das pessoas da platéia, foi se haveria uma literatura na Internet, ou da Internet. Porque a Internet tem seus recursos próprios, e não precisa ser reduzida ao "Ctrl c" e "Ctrl v", ao "copiar" e "colar" respectivamente de um programa normal de texto. Supõe-se que essa questão também será resolvida com o tempo, assim que os livros também tiverem suas resoluções, seus novos formatos definidos, a literatura que permanecerá na Internet ganhará características específicas.
A professora Beatriz Resende finalizou o encontro com a constatação de que nenhum outro autor, mesmo do século XX, tinha tanta possibilidade de ser lido como atualmente. E isso se deve, inegavelmente, a Internet.