Um balcão de bar. A e B sentados em dois bancos altos. C faz anotações do lado de dentro do balcão a certa distância.
A – Tem experiência?
B – Não.
A – Por que escolheu trabalhar aqui?
B – Como se eu tivesse opção...
A – O que foi?
B – Ah, eu acho aqui... egal.
A – Legal?
B – Sim.
A – (ri) Sorte sua. Casado?
B – Só namoro.
A – E essa aliança no seu dedo?
B – Não é minha. Eu só gosto de usar.
A – Você é um garoto interessante...
B – (abaixa a cabeça) Não é o que diz a minha namorada...
A – Rapaz, acha que vai conseguir emprego com essa atitude?
B – Desculpe, não quis ser grosseiro.
A - Não... tsc tsc... Que grosseiro nada. Não to falando do lugar, to falando da sua atitude derrotista... Sem motivação fica complicado.
B – Minha namorada também disse isso.
A – Então, rapaz! Quero saber das suas qualidades. Se venda! Vamos.
B – Eu...é...Sou honesto.
A – (aplaudindo) Bravo! Que mais? Quero muito mais!
B – Eu não sou feio...
A – Nisso, eu vou ter que discordar da sua namorada... Você é feíssimo.
B – Então não vai precisar discordar da minha namorada. Quem me acha bonito sou eu.
A – Vejo que ela também é uma moça honesta. Que bom pro casal, não é mesmo?
B – Tanto faz.
A – Tem problema se tiver que matar alguém?
B – Nenhum.
A – Mora perto?
B – Sim.
A – Costuma atrasar?
B – Nunca trabalhei...
A – É mesmo... Você terminou os estudos?
B – Até o segundo ano.
A – Tem que ter mais ambição!
B – É...
A – Não vai continuar? Parou de estudar e vai ficar por isso mesmo? Na mediocridade?
B – Bem... Ora eu penso que não... Ora eu penso que sim...
A – Fraco! Muito fraco! Tem que querer mais.
B – Eu quero...
A – Cursos? Culinária? Língua estrangeira? Futebol? Que mais que tem no seu currículo?
B – Nada.
A – É assim que você pretende manter essa namoradinha?
B – Tanto faz...
A – Não gosta dela?
B – Às vezes...
A – Ela pega muito no seu pé?
B – Pegava.
A – Mudou?
B – Sim.
A - Ela não vem aqui te atrapalhar no serviço, certo? Não é pra ficar ligando e vindo aqui pra namorar. Tá entendido, garoto?!
B – Ela não vem não. Perdeu as pernas. Não anda mais.
A – (impressionado) Nossa...
B – (indiferente) Acontece.
A – Creio que sim... Ok. Pretensão salarial?
B – Dinheiro?
A – Isso. Quanto pretende ganhar?
B – Nada não.
A – Como nada? Não quer o seu salário?
B – Precisa não.
A – Por que quer o emprego?
B – Coisa minha.
A – Você sabe que são 10hrs diárias de trabalho?
B – Sei.
A – Como vai se sustentar?
B – Me viro.
A – Sei não...
B – (surpreendentemente firme) Eu é que tenho que saber.
C – (lendo frases de B) “Ela não pode mais andar. Perdeu as pernas.”
B – Entendeu?
A – Não exatamente.
B – Vai perguntar?
A – (pausa) Não. (pausa)
C – “Desculpe, não quis ser grosseiro”.
A – Desculpe, não quis ser grosseiro.
B – Tudo bem.
A – (hesitante) Tem certeza que você quer trabalhar aqui... Tão decadente... Sem graça... Nem bate sol pela manhã...
C – “Ah... eu acho aqui... legal”.
A – Perfeito. Só checando. Vamos dar continuidade à entrevista.
C – “Preferiria fazer algo que agradasse mais a minha namorada. Morar em Niterói. Fazer terapia e criar gatos, quem sabe? Talvez vire vegetariano. Planto uma árvore. Tantas possibilidades... tantas. Milhares... Enfim!”
A – Não?
B – Negativo.
A – Ok. Perfeito. Pronto para o treinamento?
B – Sim.
A - Cante!
B – Não sabia que tinha que cantar...
A – É imprescindível!
B – Aaaaa...
A – Que música é essa?
B – Não conheço músicas...
A – Nem ‘parabéns pra você’?
B – Páaaa...
A – O que foi isso?
B – Eu sou sempre a pessoa que puxa...
A – Pois, continue.
B – Não aprendi o resto.
A – Do ‘parabéns’?
B – Ninguém me ensinou. Tem problema?
C – “Não”
A – Que nada... Vamos pra próxima etapa. Dance.
B – (quebra cadeiras)
A – Que isso? Pare! Minhas cadeiras!
B – (pára) É o meu estilo.
A – Bonito. Vamos seguir... Agora, vamos simular uma situação. Fazer um teatrinho. (para B) Você é um segurança. Ele (aponta para C) é uma moçinha sem carteira de identidade. Por favor.
B – Eu fico aqui?
A – Isso.
C – Oiii...
B - ...
C - Então, pago lá dentro?
B - ...
C – Boa noite.
A – (para B) Responde.
B – Oi.
C – Posso entrar?
B – Não sei.
C – Como não sabe!? Os meus amigos estão lá dentro!
A – (para B) Pede a carteira de identidade.
B – “Pede a carteira de identidade”.
C - (ri com desenvoltura) Você quis dizer ‘me dá a carteira’. (ri) Sabe o que é engraçado? Eu vim com ela, mas acho que caiu no ônibus. Oh! Não está na bolsa! Que coisa. Quer me revistar?
B – Tá.
A – Não, não! Você não pode tocá-la. É só não deixar ela entrar! Ninguém entra sem documento!
B – “Ninguém entra sem documento”.
C – Ai, fofura... Não tenho como voltar pra casa. Deixa...
B – Tá.
A – Não! Não! Está louco!? O seu papel é não permitir que ela entre! Entendeu?
B – Tá.
A – Então me diz por quê! Anda! Quero saber se entendeu mesmo! Por que ela não pode entrar?
B – É o meu papel.
A - Qual é o motivo? Qual a justificativa? O que você vai dizer pra ela, hein? Fala com ela.
B – (para C) Você é homem. Não adianta fingir.
C – Ai! Cruzes! Me ofendeu!
A – (para B) Ele está representando.
B – E daí? Não entra. Não deixo.
C – Me humilhou! Na porta da boate! Um insulto! Na frente de todo mundo! (B dá um tapa com força em C que cai no chão. C e A ficam assustados.)
A – Vamos brincar de outra coisa. (C se afasta revoltado)
B – Tá.
A – Venha aqui no balcão. Já viu o que temos na geladeira? Bebida. Muita bebida. Gosta?
B – Sim.
A – Está com sede?
B – Tô.
A – (abre uma cerveja) Hm... geladinha. Quer?
B – Sim.
A – Mas não pode. Você vai levar isso pra ele (aponta para C) e não vai dar um gole sequer. (B coloca a cerveja na bandeja e leva para C que a toma com gosto.) Agora pega uma pra mim. (B obedece). Está com fome?
B – Sim.
A – Vou fazer um sanduíche. Não, melhor: você vai fazer um sanduíche. Pra mim. Lava a mão seu porco imundo. (B lava as mãos e prepara o sanduíche)
C – Eu também quero um.
A – Faça um pra ele também.
B – Antes, vou no banheiro mijar.
A – De jeito nenhum. Você não sabe trabalhar? Estou te ensinando. Tem que servir. O que você quer não tem importância.
B – Tenho que mijar.
A – Só quando eu mandar. Continua os sanduíches. (B continua)
B – É emergência.
A – Não quero saber.
B – (tenta continuar, mas começa a pular) E vou... Não agüento... (tenta ir em direção ao banheiro e é impedido por A e C)
(Black out)
Parte 2
B fala no celular enquanto faz xixi em frente a um muro, de costas para a platéia. O barulho de xixi é ouvido durante toda a cena. Notamos que B está usando um par de tênis idêntico ao de A na primeira cena, e uma calça igual a de C também da primeira cena.
B – Ué, Dora? Que que tem? Consegui o trabalho por que sou bom, ora. Atencioso, carinhoso, trabalhador. E lá todo mundo gosta bastante de mim... Num ta acreditando, por que? Desde o primeiro dia a gente ficou muito apegado lá no serviço. Já cheguei falando tudo, que eu era honesto, bonitão, que matava... A gente é que nem família.... De você? Claro! Falei a verdade... Que eu nem gosto tanto de você, mas depois do acidente resolvi ficar. Já que não tinha mais necessidade de fugir. Já que você não sai mais do lugar... Normal, ué? Você acha que as pessoas ficam me julgando? Só na sua imaginação. Ninguém fica me criticando por causa dumas besteiras não. Por que eu sou honesto, não fico mentindo. Eles me contrataram por que sou muito querido... Ganhei o tênis e a calça sim. O que tem? ... Não sou obrigado a te contar tudo.
(O longo xixi termina. B desliga o celular. Fecha as calças e sai de cena. Vemos uma mancha enorme molhada no muro).
Parte 3
O mesmo local da parte 1. A e C em cadeiras de rodas.
C – Ele está atrasado.
A – ...
C – os clientes vão chegar.
A – ...
C – como vai ser? Eu não alcanço as prateleiras, você não alcança as prateleiras...
A - ...
C – Isso não pode continuar.
A - ...
C – Você tem que falar com ele.
A – Fala você.
(pausa)
C – ele também te contou?
A – O quê?
C – O irmão dele foi perdendo os dedos...aos poucos.