Cenário - Uma sala ampla com linhas modernas de escritório: mesa oval de tampo largo de madeira clara (sem equipamentos de qualquer tipo, mas com caixas plásticas); cadeiras de base de metal e elegantes espaldares de madeira; carpete cinza-chumbo; armários laterais de design arrojado. Ao fundo, um grande quadro com a imagem de um bosque. A sala ocupa a parte central do palco. Os personagens estão sentados junto à mesa. A e C, (tomando notas), estão lado a lado, e B, mais afastado, todos de frente para o público.
Ao lado do cenário da sala há uma mesa pequena, com um lap top fechado e uma cadeira simples, encostada.
(A) Mr. Slang (olha para o jovem, incisivo) – Boa tarde, como vai? Então, faz algum tempo que você espera para ser recebido, não? Muito bem. Hoje você vai ter a oportunidade que queria.
(B) Jovem (delicado, mas firme) – Ótimo!Eu agradeço muito.
Mr. Slang (tom ufanista, meio fanfarrão) – Para começar, gostaria de entender melhor o que o senhor espera realizar em nossa organização. Pelo seu currículo, vejo que tem experiência maior com projetos próprios. Aqui, temos oportunidades para gente capaz. Desde que esses supostos capazes não se mostrem incapazes diante da primeira tempestade. Aqui, a gente olha para frente, para depois do horizonte, lá no lugar onde o céu encontra o mar. Como as águias, não queremos ter limites de ação. Mas nunca abrimos mão da responsabilidade social.
Jovem - Na verdade, busco exatamente me inserir melhor. De fato, andei bastante tempo sustentando meu próprio emprego. Mas, gostei da metáfora do senhor! A natureza é algo que sempre me atraiu. Acho que tenho mesmo muito de instinto animal. Eu gosto de ir até depois do horizonte, farejar oportunidades.
Mr. Slang – Então, por que pensa desistir de seu próprio negócio?
Jovem – Não creio que precise desistir. Uma das minhas habilidades é conciliar as coisas. Gostei de desenvolver espírito empreendedor. Mas, o senhor sabe: a longo prazo devo precisar de uma situação mais fixa.
Mr. Slang – Pois é, mas... Uma situação mais fixa me lembra uma planta parasita que gosta de se imobilizar. E, essa história de “instinto animal” assusta um pouco.
Jovem – Ah... Sei. Bom, mas o que quis dizer, Mr.Slang, é que tenho um bom faro negocial. Me viro pra sobreviver bem na selva, na voracidade desse mundo acelerado.
Mr. Slang – E, que tal passar as férias praticando esportes radicais numa floresta?
Jovem – Esportes radicais.... Eu... Parece interessante. Acho que talvez eu seja mais praiano, Mr. Slang.
Mr. Slang – Dá para ver que a sua cor não esconde isso não.
Jovem - Por sorte, nasci bem moreno.
Mr.Slang – Algum problema com quem tem a pele branca? Acha que somos mais frágeis, menos empreendedores?
Jovem – Não, não! Os brancos dominaram o mundo.
Mr. Slang – Dominaram, foi!? E o senhor atribui esse domínio à capacidade de realizar projetos próprios, como o seu?
Jovem – Não senhor. Foram políticas de Estado.
Mr. Slang – Nesse caso, os Estados seriam mais preparados para empreender que organizações privadas, não? Por que o senhor não pensa, então, num emprego público? Já que pretende uma posição mais fixa.
Jovem – Mas eu gosto do risco, como já comentei ao senhor... Acho que o mercado disciplina a vida do mundo e...
Mr. Slang – E seu lhe enviasse à China para empreender ações? Eles são amarelos, e as decisões cruciais são tomadas pelo governo.
Jovem - Nesse caso, eu me adaptaria a essa floresta, como diz o senhor.
Mr. Slang – Veja bem: o que chamo de ficar à vontade numa floresta é a capacidade de enxergar cada árvore, um conjunto de árvores da mesma espécie e o ambiente da floresta como um todo. Entende a perspectiva? É visão do detalhe e do todo. Fundamental no ambiente em que vivemos.
Jovem – Concordo com o senhor. E acho que o instinto funciona como uma bússola nessa floresta confusa.
Mr. Slang – Estou falando de entender a cultura do outro para se situar.
Jovem – Sim, sim! Estou acompanhando o senhor. Sinto que tenho habilidade para me situar onde for. Sou capaz de me adaptar, pelo menos me esforço muito.
(C) Secretária – “Uma das minhas habilidades é conciliar as coisas (..)”
Mr. Slang – Você conhece a Amazônia?
Jovem (algo constrangido) – Muito pouco... Eh... Um pouco. Fiz uma dessas viagens de mochileiro pelo Maranhão e pela Ilha de Marajó. Até que foi bom, mas o dinheiro acabou, aí...
Mr. Slang – Mas não terá gostado por causa das praias de mar de Lençóis e Marajó, não é? Você se declarou tão praiano agora mesmo!
Jovem – Não senhor. Eu andava pelo meio do lado oriental de Marajó, onde tem mais planície, não fui para aquela área das praias, que é mais cara. Era meio perigoso, tudo muito precário, mas eu gostei de visitar as reservas onde vivem os índios. Conhecer a cultura deles, como diz o senhor.
Mr. Slang – O que o você achou das tribos de lá?
Jovem – Ah... O senhor quer dizer do ponto de vista da cultura, não é isso mesmo? Achei que eles têm muita sabedoria. Com certeza!
Mr. Slang – Defina sabedoria, nesse caso.
Jovem – Sabedoria de índio?... É... Humm... Seria acumular informação diferente; muitos detalhes que dá pra juntar num todo, isso que o senhor falou agora, eu acho... Eles, os índios, sabem fazer um monte de coisas bem diferentes: construir as aldeias, fazer remédio de plantas, caça e pesca, parto natural; essas coisas de índio...
Mr. Slang – Você se sente capaz de assimilar e repetir isso? Ou seja, se tiver que conviver com um ser primitivo, mas sábio. Fazer essa pessoa diferente de você cooperar com o que nós precisamos, com o que te pedirem.
Secretária – “(..) eu me adaptaria a essa floresta, como diz o senhor”.
Jovem – Poderia tentar... Eu gostaria, sim.
Mr. Slang – Então, você estaria disposto a viver entre os índios por um tempo?
Jovem (algo surpreso) – Viver na Amazônia!? Morar lá!? Olha, como eu disse ao senhor, eu gosto de desafios. Gosto mesmo. Mas, também, depende da estrutura que eu teria por lá. Seria por muito tempo?
Mr. Slang (irônico) – Ih... Muita pergunta para quem diz que quer uma oportunidade... O que você chama de “estrutura”?
Jovem – Dispor de bons meios de comunicação, e um plano de vantagens por conta dos riscos e da distância.
Mr. Slang – Você andou se informando se oferecemos plano de benefícios?
Jovem – Na verdade, eu procurei saber, sim. Só que não encontrei nenhuma informação. Mas tenho a convicção que a organização deve ter se preparado para lidar com situações assim.
Secretária – “(..) o instinto funciona como uma bússola”
Mr. Slang – Você saberia se orientar na selva, então?
Jovem (encolhe-se um pouco) – Acho que o senhor está fazendo outra metáfora, como aquela da águia...
Mr. Slang (crítico) – Não, rapaz! Estamos falando de selva mesmo. Você se adaptaria, ou não?
Jovem (riso curto, constrangido) – Acho que consigo encarar o desafio, se não houver risco de vida...
Mr. Slang – A questão em pauta é de-ter-mi-na-ção, entendeu? Vou precisar saber se você está mesmo convencido. Se você é um candidato que incorporaria o espírito do que eu lhe pedir.
Jovem (bem sério, buscando aparentar firmeza) – Posso lhe garantir, então, que estou disposto a encarar, Mr. Slang!
Mr. Slang – Nesse caso, vamos ver como você se sai num teste aplicado.
Jovem (aprumando o corpo) – Por mim, podemos fazer quando vocês marcarem.
Secretária (frase não dita por B)– “Estou aqui para o que der e vier, até para testar kit de sobrevivência no mato.”
Mr. Slang – Sei, sei... Isso é bom. Decisão é bom! Sabe que você até, talvez... Talvez possa ser útil para nossos interesses no Norte do país? Então: você tem disponibilidade para viajar por períodos longos e assumir riscos, não é?
Jovem – A princípio, sim.
Mr. Slang (aponta para B) – Excelente! Levante-se agora mesmo!
Jovem (meio intimidado) – Levantar?
Mr. Slang (tom debochado) – Sim, levantar! Como vocês dizem aqui: “demorou”! Vamos ver você em ação demonstrando que sabe se adaptar. Vai levantar, ou não?
Jovem (levanta, constrangido) – O que é que eu faço?
Mr. Slang (segue debochado) – Vamos começar com uma ação fácil. Para viver entre os índios você terá de ser um pouco como eles. A corzinha morena que você falou só serve para sair no carnaval. Aqui vai ser para valer! Tira a camisa e sobe na cadeira!
Jovem (obedece, aos poucos) - Na cadeira...? (E vai fazendo mecanicamente os gestos que lhe são ordenados).
Mr. Slang - Já falei. Vai! Mais rápido! Foi? Agora que subiu, finja que está disparando uma flecha num peixe, bem na beira do rio. E agora? Flechou? Não, né? Ficou com cara de otário, deixou o peixe passar. Vai! Outra vez! Isso! E agora, pegue o peixe! Vamos ver o que você agarrou?
Mr. Slang (retira uma posta de peixe cru de uma das caixas plásticas que estão sobre a mesa) – Tá vendo, olha o que eu te arranjei, já que você pesca mal pra caralho! Pode descer! Rápido! Olha que a onça te pega!
Jovem (parece atônito com a situação, mas segue obedecendo; ao comando, desce da cadeira) – A gente têm mesmo que fazer isso?
Mr. Slang (abre outra caixa e retira uma massa verde em forma de esfera de lá) – Vamos logo, você vai comer essa peixe cru agora! O mesmo que os índios vão te oferecer quando você chegar lá. E come também esses fungos retirados da mandioca podre, típicos do costume local.
Jovem – Tenho que comer mesmo?
Mr. Slang – Claro que vai! E já! Mas, antes, vai pedir perdão ao peixe vivo antes de devorar, que é como eles fazem.
Mr. Slang (autoritário) – Assim, não! Assim é fácil! Tem que falar em língua de índio.
Jovem (inclinando a cabeça para baixo e alçando os braços) – Porra... Sei lá... Tambaqui- Pacu, ó Pirarucu!
Mr. Slang – Agora, come!
Jovem (comendo um pouco, com repulsa) – Ser índio é meio nojento, né!?
Mr. Slang – Ta bom, chega! Já começou mal... Deixe eu mudar de teste para ver se você fica mais esperto: agora você vai imitar índio, e correndo em volta da mesa, tipo dança da chuva. A seca já chegou na Amazônia, e você é um sujeito que se adapta para conseguir as coisas. Pode começar. Vai!
Jovem – (após um momento de hesitação, se põe a correr ao redor da mesa, gritando, mas sem muita convicção) Ahá! Gragoatá! Uhú! Itaipu! Avatar! Aymoré! Madeira-Mamoré!
Mr. Slang - (depois de quase um minuto de “dança da chuva na sala”) – Pára, chega menino! Pode parar! Tá uma bosta de fazer gosto! Viu como um bom teste define as coisas? Você parecia um completo cretino como pajé honorário...
Jovem (sem graça, mas algo altivo) – Bom... É que meu currículo não prometia este tipo de iniciativa...
Mr. Slang (postura interrogante, sarcástica e seca) – Rá, rá...Está tentando ser engraçado? Ou - o que é pior ainda – tentando questionar meu método?
Jovem (procurando mostrar dignidade) – Não senhor! Estou tentando me adaptar ao seu método. Só confesso que nunca vi nada parecido
Mr. Slang – Vamos desistir agora mesmo! Você me saiu um típico vacilão!
Jovem (brioso) – Não, não, eu consigo. Pode continuar.
Mr. Slang. – Não sei, não. Eu pedi uma coisa tão fácil para começar... Dou mais uma chance só porque eu som bom pra caralho... Presta atenção: a nossa secretária vai mostrar como se faz um feiticeiro que preste. Minha filha (aponta para C), faça o favor, ok?!
E a Secretária, levanta, tira os sapatos, prende o cabelo, puxa o estojo de maquiagem, retira um batom, pinta as faces e a testa, e começa a saltar como uma possessa, aos gritos, exigindo, com a maior convicção, que o deus dos índios faça chover.
Secretária – TUPÂ DO CANNÃ, MANDA A PORRA DA ÁGUA SEM DEIXAR PRA AMANHÃ!!!!!!
Mr. Slang – Ta vendo como é? Agora, garoto, continua a fazer a tua parte para puxar a chuva. Mas, faz direito, infeliz. Vai!
E, o Jovem recomeça a correr e a gritar.
Jovem – TUPÃ TOMOU NO CU, VOU PEDIR PRA BELZEBU!!!
Mr. Slang (sorriso largo) – Agora começou melhorar. Vai chover até petróleo nessa selva.
Vamos ver! Sem parar com a gritaria, vai aí ô moleque, tira a roupa toda como os índios! E você, menina, vai montar no garoto, como se fosse o Caipora trepado numa anta, que é para fazer mais efeito. Agora (orienta os dois com as mãos), isso! Gritando mais forte, quero ouvir! Continuem rodando em volta mesa que isso aqui é o caminho da selva! Isso, minha filha! Bate nele com o salto como se fosse uma espora! Anda!, fuck’n hell, caralho!!
(Após um tempo).
Tá bom! Podem parar! Escuta só, garoto... Você, como índio, funciona muito mal. Vamos ver se melhora fazendo um bicho da floresta. Pode ir se arrastando aí no carpete, bancando a cobra. Se fizer errado, ela (aponta para C), a caçadora, vai te punir com um pisão na cabeça. Anda! De novo! Se você fizer bem o papel de serpente vou pensar em te dar uma chance, até porque uma boa serpente é sempre ágil e útil como serviçal, (rs).
E o Jovem se submete até que a cena é interrompida bruscamente pelo ruído intenso de um alarme cuja origem não se vê em cena. A luz se apaga.
SALTO TEMPORAL.
A luz incide apenas sobre a mesa pequena do espaço lateral, na qual se vê B, falando de frente para o público diante do lap top aberto. Nota-se, pelo ruído “microfonado” emitido, que B e D se comunicam por vídeo-conferência (Skype etc).
Jovem – Correu tudo bem. Acho que ele não desconfiou de nada. Banquei o destemido e arrojado o tempo todo. Esses gringos são espertos pra caceta, mas tão precisando de gente lá na fronteira para fazer o negócio andar.
(D) Agente (voz metálica, amplificada) – Ele explicou a bem você o que era pra fazer?
Jovem – No início ele ficou fazendo jogo duro. Mas, depois, insinuou onde seria mais ou menos a base de operações, e quais seriam os projetos.
Agente – Você tem que ter muito cuidado. Esse Slang é uma raposa. Já te disse que ele foi secretário do Partido Verde na Alemanha só para pegar os contatos do comércio internacional e do tráfico de essências vegetais.
Jovem – Claro que ele não vai me dar um contrato formal. Eu seria uma espécie de consultor fixo lá no Pará. Aí, quando eu reunir provas...
Agente (corta) – Não preciso repetir as regras do jogo. Você só vai receber a outra metade quando reunir provas palpáveis sobre o tipo de negócio da organização deles; a história da fachada com os escritórios de Belém, São Paulo, Londres e Berlim. Não basta se infiltrar, como você diz que está fazendo.
Jovem – Você vai ter que acreditar, porra! Eu já tô me arriscando. Mas eu sei calcular a hora de agir. Agora... Pode ser que eu demore um pouco para reunir essas provas. Vocês vão ter que ter paciência.
Agente – O problema não é esperar. Você sabe... Temos algum tempo para concluir a operação. A questão é que você vai ter que desempenhar aí, porque, agora, pelo que você mesmo falou, não tem mais volta.
Jovem (encerra a ligação; fecha o pc. Se levanta - dando uma gargalhada curta, - e se espreguiça) – Esse grupo da Federal só tem babaca! Sabia que ia usar a infra deles para chegar nesse pessoal da organização. Depois que eu pegar as essências, me arranco.
Soa um celular estridente. Black-out
SALTO TEMPORAL
A luz volta a se acender sobre a mesma (anterior) sala central. A e C estão ajeitando mudas de plantas e os potes plásticos sobre a mesa de tampo oval.
Mr. Slang – Bem que eu disse a vocês que valia a pena investir num alarme profissional. Aqui no Brasil é tudo ainda muito amador. Haviam tentado colocar um microfone de base plástica na recepção, mas o sensor de varredura acabou acusando. Mas, foi melhor não falar nada na hora.
Secretária – Óbvio que foi aquele garoto filho da puta! Nossas câmeras da entrada foram desmagnetizadas por dois minutos para ficar repetindo sinal de imagem fixa. O perito já concluiu. O cara deve ser bem treinado mesmo.
Mr Slang – Você acha que ele entrou no clima do teatrinho fingindo surpresa?
Secretária – Claro! Aliás, teatro, não! Ele aceitou a palhaçada que você gosta de fazer para desmascarar espião. A foda é que quem tem que bancar a idiota sou eu. Bom, vamos deixar ela pensar que isso aqui é uma multinacional na área de bioengenharia, preocupada só com espionagem de patente. Quando a gente descobrir quem é o contato dele, encaçapa os dois. Para isso é que tinha que meter o ministro na folha de pagamento. E cala essa boca, que você nem gringo direito é! Não é alto executivo nem fudendo! E não é chefe porra nenhuma! Se não sou eu pra montar essa fachada, o esquema todo desandava...