09 de setembro de 2008 Exercício: O EMPREGO Por Paulo Cesar (Sala, com paredes de espelho, totalmente iluminada por uma luz branca. Uma porta se abre e entra o entrevistador, vestido de negro, uma calça de couro e um blusão colado ao corpo, botas de soldado. Sugere um torturador, e também um policial. É um homem feio, grande, de cara quadrada e aspecto gorduroso, bem forte e arrogante. Quando a cena começa, Carmo, o escriba, está ao lado do entrevistador, tendo à sua frente uma mesa de mármore branco, como uma enorme lápide de cemitério. Há copos, à semelhança de sinos invertidos, e uma jarra de vidro com água. À frente da mesa, uma cadeira vazia, de madeira. Carmo, que usa batina, aperta um botão na mesa. Acende-se uma luz vermelha, e entra um jovem belíssimo, 20 anos, vestido com uma roupa qualquer, calça, camiseta, tênis. Traz uma pasta, parece um colegial. Ele não consegue ver direito o rosto de Arróganus, o entrevistador, porque detrás dele sai uma luz que o cega. Carmo fica sentado em um banquinho de madeira durante a entrevista).
ARRÓGANUS: - Seu nome?
CANDIDATO: - É um nome difícil, ninguém acerta.
ARRÓGANUS: - Sim?
CANDIDATO: - Meu nome é Rútor. Rútor Mira y Lopez.
ARRÓGANUS; - Rútor. Currículo, Rútor.
(Rútor tira da pasta um caderno, que Arróganus examina, virando as folhas com barulho)
ARRÓGANUS: - Tem experiência?
RÚTOR: - O que o “doutor” acha? Tenho ou não tenho experiência?
(Arróganus joga o caderno no colo do candidato)
ARRÓGANUS: - Isso é o que nós vamos ver. Mostra as mãos.
(Rútor estende as mãos)
CARMO: - Ninguém acerta.
ARRÓGANUS: - Esse talvez acerte, o que você acha?
(O entrevistador e o escriba riem)
RÚTOR: - Senhor, estou muito nervoso.
ARRÓGANUS: - Você peida sempre quando está nervoso, é isso?
(Mais risadas. Rútor impassível).
ARRÓGANUS: - Gosta de crianças?
RÚTOR: - O quê isso tem a ver, agora?
ARRÓGANUS: - Gosta ou não gosta? (Rútor dá de ombros) Onde você ficou sabendo dessa seleção?
RÚTOR: - Não estou vestido de acordo, eu sei. Foi um amigo que me disse pra eu vir aqui.
ARRÓGANUS: - Muitos querem esse emprego, o salário é bom. E muitos começam e desistem depois.
(Rútor se levanta da cadeira e se despe totalmente, sem pressa, jogando as roupas na cara do escriba)
RÚTOR: – Eu sei.
CARMO: - O que o “doutor” acha?
RÚTOR: - Posso me vestir agora?
ARRÓGANUS: - Não.
CARMO: - Ele tem um amigo, senhor. Ele disse que veio aqui por causa do amigo.
ARRÓGANUS: - Agora vamos ver suas habilidades. (O entrevistador se levanta e pela primeira vez Rútor consegue ver a cara que tem o corpanzil)
CARMO: (lendo do seu canto) – Faço tudo para ter um trabalho decente, vou todos os dias a entrevistas de emprego, as coisas não são fáceis, de modo nenhum. Tudo o que eu faço ainda é pouco. Hoje estou com fome. O que que tem? Posso trabalhar à noite porque sofro de insônia.
ARRÓGANUS: - (empurrando Rótur com um dedo apenas) Dança aí.
RÚTOR: - Não posso dançar sem música, certo?
CARMO: - Não estou vestido de acordo, eu sei.
ARRÓGANUS: - Vire-se de costas, Rútor. (olha Rútor de cima a baixo)
(Rútor impassível)
ARRÓGANUS: - Você quer ou não quer o emprego?
(Rútor vira-se de costas. Começa a tocar um som de música techno, altíssimo. Rútor começa a dançar para que os dois homens vejam)
RÚTOR: - Não sou dançarino, senhor.
ARRÓGANUS: - Masturbe-se no ritmo da música, rapazzzzz.
(Rútor se ajoelha e se masturba. Carmo também se despe, e, do nada, tira um pequeno chicote, com o qual chicoteia o chão e a si mesmo, enquanto Rútor se contorce. Por fim, Rútor tira das mãos de Carmo o chicote, prendendo-o pelo pescoço. Carmo e Rútor entram em luta livre.)
ARRÓGANUS: - Sepára! Cara, agora rebola pra alcançar seu objetivo.
(Rútor e Carmo se separam. Rútor rebola na frente de Carmo)
ARRÓGANUS: - Quero ver beijo na boca.
(Rútor e Carmo se beijam)
ARRÓGANUS: - Cospe na cara dele.
(Os dois se cospem. Reiniciam a luta livre)

BLACK-OUT. No dia seguinte...

(Rútor está em um porão escuro, mal cabe de pé naquele cubículo. Há a luz de uma vela que ilumina seu rosto de sombras. Tem um interfone, com o qual Rútor dialoga)
RÚTOR: - Os caras já conheciam o meu trabalho, tio. Esses caras ficam aí pelas esquinas, vendo todo mundo. Se gostam, chamam, sabe, tio? 
TIO-off: - Você disse que tem dezessete anos?
RÚTOR: - Os caras estão interessados no meu corpo, tio.
TIO-off: - Começa quando? Quero assistir.
RÚTOR: - Não vai mesmo. Não sei ainda quando começo. Eles ficaram de ligar até sábado.
TIO-off: - Isso está mal-contado, Rútor.
RÚTOR: - Por isso não gosto de falar as coisas direito para você.
TIO-off: - Mandaram você tirar a roupa?
RÚTOR: - Só a camisa. Tirei só a camisa. Mas pus uma camiseta justa. Não gosto de mostrar o bico do meu peito, você sabe.
TIO-off: - O que tem o bico do teu peito? Você cisma com isso, cara.
RÚTOR: - Puseram um som pra eu dançar, muito louco. E teve outro rapaz que fez teste junto comigo. Dançamos muito.
TIO-off: - Ele era como você, bonito?
RÚTOR: - Era.
TIO-off: - Arróganus manda nessa turma. Liga pra ele hoje ainda e pergunta quando você começa. Vou ser teu cliente.
RÚTOR: - Você está maluco, não vai me ver mesmo. E não vou ligar porque ele disse que vai ligar. Parece que to morrendo por esse emprego. Não vou me humilhar. O tio me conhece, não passo recibo.
TIO-off: - Orgulho, teu nome é juventude.
RÚTOR: - Vou desligar. Beijo.

(BLACK-OUT. Novamente a sala de espelhos, ocupada agora por um tablado redondo, de cobre polido. No centro do tablado, um cano vermelho. Luzes coloridas se cruzam batendo nos ângulos dos espelhos. Uma arara de roupa, vazia, e duas cadeiras de madeira. Apenas de sunga, cada um em sua cadeira, Rútor e Carmo conversam)
RÚTOR: - Depois da festa vamos a um bar tomar um chopp?
CARMO: - Só se for amanhã.
RÚTOR: - Então, amanhã.
(Carmo levanta e faz poses de fisiculturismo, exibindo os músculos)
RÚTOR: - Quero te pedir uma coisa, Carmo. Não me puxa daquele jeito pelas axilas que eu sinto cócegas.

(Rútor se levanta e repete o rebolado que fez no teste. Os dois corpos se aproximam, e os movimentos de Rútor se encaixam nos movimentos de Carmo. Os dois corpos suados quase se tocam. Serpenteiam, os braços se tocam, as mãos se espalmam nas costas, começam um estreito abraço. Os dois homens se abraçam com força, como se fossem um corpo só. BLACK-OUT).

FIM