09 de setembro de 2008 Exercício: O EMPREGO Por Renata Mizrahi A Glória de Bia

(Uma sala toda branca, com uma mesa no centro, atrás da mesa uma grande janela, uma cadeira em frente a mesa e cadeiras ao lado da mesa. Um microfone numa ponta da sala e um aparelho se som.
A, um homem na faixa dos 40 anos está trabalhando na mesa. Após alguns instantes, entra BIA. Uma mulher na faixa dos 30 anos, loira pintada, roupas decotadas e colada no corpo, sapato alto. Tipo as mulheres que tem um prazer muito grande em chamar a atenção.)

BIA- Com licença?

(A olha para Bia de cima a baixo.)

A- Toda.

BIA - Eu vim para a entrevista.

A- Ah, sim. Entre.

BIA- (Entrando) Obrigada.

A- Senta.

BIA (sentando) – Obrigada.

A- Quer uma água?

BIA- Não, obrigada?

A- Um café?

BIA- Não, obrigada?

A- Um Gim?

BIA- Não, obrigada.

A- Gim não temos (ri)

BIA fica sem graça. Silêncio.

A- Com todo respeito. Você é muito bonita.

BIA- Obrigada, eu me esforço.

A- Está preparada?

BIA (insinuadora)- Eu estou sempre preparada.

A- Ótimo. Vamos começar.

(Nesse momento entra CECILIA, uma mulher com roupas antiquadas, cabelo preso, óculos. Nada atraente, o oposto de BIA)

CECILIA (meio tímida)- Com licença?

A- Pois não?

CECILIA- Aqui é...

A- Sim está, atrasada.

CECILIA- Desculpe, eu espero lá fora...

A- Entre.

CECILIA (entrado)- Com licença.

A- Espere aqui nessa cadeira.

CECILIA (sentando) – Licença.

(BIA olha ara CECILIA de cima a baixo. CECILIA senta no canto da sala, tira um bloco de notas e uma caneta da bolsa. A volta para CECILIA. )

A- Vamos continuar. Você sabe bem o que o quer?

(CECILIA começa a anotar no seu bloco)

BIA- Sim!

A- Tem referências?

BIA- As melhores.

A- Gosta de falar?

BIA- Amo.

A- Se comunica bem?

Bia- Muito.

A- Tem prazer nisso?

BIA- Demais.

A- Já comeu café mofado?

BIA- Oi?

A- Já comeu café mofado?

Bia - Ainda não tive a oportunidade.

A- É uma pessoa paciente?

BIA - Dizem que sou uma flor de pessoa.

A- Não tem medo de levar desaforos?

BIA - Eu sou muito boa com laranjas.

(Silêncio. A e CECILIA se olham.)

A- Qual foi última vez que falou no telefone?

BIA- Agora mesmo no elevador.

A- E a ligação não caiu?

BIA- Não, eu desliguei antes disso.

A- E conseguiu o que queria.

BIA- Eu costumo conseguir o que eu quero.

A- Você quer esse emprego?

BIA- É o que eu mais quero.

A- Por quê?

BIA- Por que o quê?

A- Por que você mais quer esse emprego?

BIA - Ah! sabe como é, né? No final do mês eu poderei fazer supermercado.

A- Esse é o seu único motivo?

BIA- Não! Claro que não. Sinto que aqui estarei em conexão com as minhas meditações.

A- Você medita?

BIA- De vez em quando.

A- Já teve um satori?

BIA- Vários.

A- E foi bom?

BIA- Magnífico.

A- É casada?

BIA - Não.

A- Tem namorado?

BIA- Tenho.

A- Quantos?

BIA - Oi?

A- Quantos?

BIA- No momento um.

A - Pretende ter mais?

BIA - Essa é uma questão que depende.

A- Gosta de seduzir?

BIA - Às vezes, sem querer.

A- É virgem?

BIA- Oi?

A- Você ainda é virgem?

BIA- Pra algumas coisas eu sou sim.

A- Tipo o quê?

BIA- Eu nunca precisei fazer uma operação.

A- Que mais?

BIA- Nunca fui assaltada.

A - Você nunca foi assaltada?

BIA- Tudo bem. Teve uma vez que me pediram as horas. Ma eu não dei.

A- Por que não deu?

BIA- Percebi que ele não estava armado.

A- Anda tendo pesadelos?

Silêncio

A- Não vai responder?

BIA- Desculpa, essa pergunta mexeu comigo.

(CECILIA lê uma frase de BIA)

CECILIA- “Ainda não tive a oportunidade” (leve risada)

(A e BIA olham para CECILIA. pequeno silêncio. A olha para BIA, querendo uma resposta.)

BIA- Bom, é que ultimamente, eu ando tendo algum tipo de pesadelo.

A- Que tipo?

BIA- Sonho que estou sendo esmagada por um cortador de cebolas. Eu ainda não consegui entender essa associação.

A- Sei...

BIA- O senhor sabe?

A- Qual foi a última vez que transou?

(Constrangimento)

BIA- Essa pergunta...

A- Você quer mesmo esse emprego?

BIA- Muito.

A- Então responda por favor.

BIA- É que...

A-  Bom, se quiser responder...

BIA- Mês passado.

A- Sei... e foi bom?

(constrangimento).

A- Ouviu o que eu falei?

BIA- Sim.

A- Muito bom?

BIA- Não. Eu não quis dizer que sim, eu ouvi o que o senhor falou.

A- Então? Não foi bom?

BIA- Não, eu não quis dizer isso.

A- Você está querendo me enrolar?

BIA - Não, imagina... é que ... eu... bem...

A- Por favor, eu preciso de resposta objetivas para a minha avaliação.

BIA- Não foi bom! Não foi bom! Não foi.

Silêncio.

A- Por que não foi bom?

BIA- Bem, por que? Como eu posso explicar isso?

(CECILIA interrompe, lendo mais uma resposta de A)
 
CECILIA - "eu sou muito boa com as laranjas" (leve risada)

(A e BIA olham para CECILIA)

A (para BIA) - Por que não foi bom?

BIA - Eu não sou muito boa com as bananas.

A - Seja mais clara.

Bia (Muito nervosa) - Ele dormiu no meio, foi isso. Ele dormiu.

A- Muito bem...

BIA- Muito bem?

(CECILIA interrompe de novo uma frase inventada.)

CECILIA- "eu não sou muito boa com as bananas só com os limões" (leve risada)

(A e BIA olham para CECILIA)

A - Vamos continuar. Uma frase que gosta muito.

BIA - Uma frase?

A- Que gosta muito.

BIA - Se na vida tudo vai mal, pode ficar pior.

A- Quem disse?

BIA- Minha vizinha.

A- Uma comida.

BIA- Sorvete.

A- Animal

BIA- gato

A- Imite.

BIA - O quê?

A- um gato.

BIA- Isso é relevante para esse trabalho?

A- Você disse que consegue tudo o que quer.

BIA - É, em termos de trabalho. Foi o que eu quis dizer.

A- Você quer mesmo trabalhar aqui?

BIA- Quero muito.

A- Quer ou precisa?

BIA- Um pouco dos dois.

A- Estou esperando.

(BIA começa a fazer um gato, bem sem graça.)

A- É um gato bem tímido.

BIA- Bastante.

A- Diferente de você, né?

BIA- Bem diferente.

A- Você acha que eu contrataria esse gato para trabalhar na nossa empresa?

(BIA aumenta mia mais alto e bem forte.)

A- Obrigado. Isso foi o suficiente.

BIA (querendo chorar)- Eu posso ir?

A- Você quer mesmo ir?

BIA- se isso foi o suficiente...

A- Ainda não fizemos a parte B.

BIA- Desculpe eu não sabia que tinha uma parte B.

A- Se não quiser fazê-la pode ir embora.

Bia - Não! de jeito nenhum. Vai ser um prazer fazer a parte B.

A- senhorita...

BIA- Bia.

A- Sim, Bia. Está vendo aquele microfone?

BIA- sim.

A- vá até ele, por favor.

(BIA vai até o microfone)

A- Vamos imaginar que você já conseguiu esse emprego...

BIA- Oba!
 
A- E eu sou um cliente que liguei para a empresa e você me atendeu.

BIA- ótimo.

A- o nome dessa empresa será Chupetão.

BIA- oi?

A- está preparada?

BIA- sempre.

A- Muito bem. Liguei.

BIA- Chupetão, boa tarde?

A- Boa tarde, eu gostaria de fazer um plano.

BIA- que bacana...

A- "Que bacana?" Foi isso que eu ouvi?

BIA- desculpe senhor, é que hoje é o meu primeiro dia.

A- E o que eu tenho a ver com isso?

BIA- desculpe, senhor...

A- eu vou me matar agora, o que você pode fazer para me ajudar?

BIA- se matar, senhor?

A- o que você vai fazer pra me ajudar?

BIA- bem...

A- ok, Bia, vamos parar com essa simulação. (para CECILIA) querida, venha até aqui.

(CECILIA toda estabanada, levanta da cadeira. BIA olha para CECILIA sem gostar.)

A- Muito bem. Vamos fazer um jogo. Agora vocês duas são as funcionárias. Quem não conseguir responder, a outra responde.

BIA- Me desculpe a pergunta. Mas quem é ela?

CECILIA- Prazer, Cecília.

BIA- Você também quer esse emprego?

A- Vamos começar. Liguei.

(BIA e Cecilia disputam toda hora o microfone, uma empurrando a outra)

BIA (atende)- Chupetão, boa tarde?

A- Boa tarde, quais são os seus produtos?

Bia- É...

CECILIA (empurrando para ficar com o microfone)- Boa tarde senhor. Nós temos uma grande variedades de produtos. O senhor gostaria de conhecer a nossa linha light?

A - Sim.

BIA- (empurrando para ficar com o microfone) É, nós temos... Nós temos...

CECILIA- (empurrando para ficar com o microfone )- Yogurte dos mais variados sabores...

A- Eu estou muito deprimido.

Bia- (empurrando para ficar com o microfone)- Por quê?

CECILIA- (empurrando para ficar com o microfone)- O senhor está deprimido? Não fique assim, nós temos uma linha de produtos anti-depressão, que fará do senhor o homem mais feliz do mundo!

A- Sério? Quanto custa?

Bia (empurrando para ficar com o microfone )- Bem... é...

A- (sussurrando)- O produto custa na faixa dos mil reais.
  
Bia - Mil reais.

A- Mil reais??

Cecília (empurrando para ficar com o microfone )- Nossos preços são excelentes, irrisórios. Não custa mais que o seu bolso poderá pagar. Apenas 5 vezes sem juros de 199 reais.

A- Acho que não vai dar, eu vou me matar.

BIA (empurrando para ficar com o microfone )- Não se mate!

(CECILIA, empurrando para ficar com o microfone, começa a cantar uma musiquinha de ninar, BIA não entende nada.)

A- Hum... que musiquinha boa. Assim eu me sinto muito melhor.

CECILIA- Esse é o carinho que temos com os clientes. Sua vida é muito importante para gente.

(A interrompe a simulação. Começa a aplaudir CECILIA).

A - Bravo! Bravo! Bravo! É isso o que queremos, é isso! Qual é o seu nome?

Cecília (toda animada)- Cecília!

A- Muito bem, Cecília.

BIA- Mas...

A- Vamos passar para uma outra etapa. Precisamos de funcionárias simpáticas...

BIA- Isso é comigo

A- Bonitas...

BIA- Olha pra mim, eu estou aqui!

A- E sensuais.

BIA- Sim, eu sei.

A- Desfilem, por favor.

(BIA se coloca na frente e começa a desfila toscamente. Quase cai do salto. Cecília vai atrás e apesar da aparência e das roupas antiquadas, arrasa.)

A- Ótimo. Agora vamos simular que vocês ligam para um cliente e têm que fazer ele comprar de qualquer jeito. Eu disse: qualquer jeito.

(BIA e Cecília voltam a disputar o microfone)

BIA- Boa tarde, com que eu estou falando?

CECILIA- Boa tarde, é o senhor Roberto Gustavo?

A- Melhor assim.

BIA- O senhor quer ver nosso produtos?

A- Ver pelo telefone?

CECILIA- O senhor gostaria de obter o conhecimento de ponta de nossos produtos...

A- Bem melhor assim.

BIA- Nossa empresa é a melhor...

CECILIA- Nossa empresa tem um grande prazer em ter você fazendo parte da nossa lista vip.

A- Muito melhor assim! Tá vendo, Bia? Ela é demais, maravilhosa, poderosíssima!

(BIA finge que não ouve, com a veemência de quem quer vencer)- Venho lhe mostrar...

A- Rosna.

BIA- O quê?

A- Anda, rosna que nem um cachorro!

(BIA fica sem graça. CECILIA começa a rosnar. BIA com inveja começa a latir. CECILIA late mais forte.)

A- Agora se lambam.

BIA- “Se” o quê?

A- Você quer ou não quer esse emprego?

(BIA começa a lamber CECILIA. CECILIA- começa a lamber BIA e cuspir)

A- Isso, cuspir é muito bom. Agora faz  a dança da galinha.

BIA (já chorando)- Tem certeza que isso é fundamental para a entrevista?

A- Se quiser, pode ir embora.

(BIA começa a imitar uma galinha.)

A- Roda.

(BIA roda em prantos)

A – CECILIA, faz um galo correndo atrás da galinha

(CECILIA começa a correr atrás da galinha feito um galo)

(BIA foge de Cecília, chorando, mas sem deixar de fazer.)

A- Cacareja mais alto, BIA. (BIA cacareja mais alto) Mais alto Bia, mais altoooooo.

(B cacareja bem alto chorando aos prantos)

B.O

CENA 2

(Abre a cena. vemos BIA recomposta sentada numa poltrona laranja. ela está toda arrumada e mais maquiada que a cena anterior, só que uma maquiagem mais elegante. Bia fala para o lado com seu interlocutor que não aparece. Sempre que ela ri, vira pra frente)

Bia- Eu fiquei o tempo todo calma (ri para a platéia). Parecia que já tava adivinhando que ia me pregar aquela peça. (pausa) Não, eu não estava muito nervosa, não. (pausa) O quê? Ah, eu fui muito bem tratada, muito bem. Sim, no início eu achei aquilo tudo muito estranho, muito mesmo, mas fazer o que, né?(pausa) Acho que nesse ponto a população se identifica muito comigo. Sempre fui uma mulher batalhadora, (pausa-toca uma música sentimental, ela chora) Sim. Sim, eu estava na pior. Aquele emprego de operadora de tele-marketing era a minha última esperança. Eu estava esfomeada e maltrapilha, precisava muito daquele emprego. Sim, eu cheguei lá, praticamente com uma mão na frente, e a outra atrás, mal conseguia sorrir. Afinal, todos nós sabemos que a situação anda muito difícil para todo mundo. (pausa) Ele era terrível, terrível. Mas sabe? Eu pensei assim comigo: Essas pessoas... Coitadas. Não sabem mais viver, né minha gente? Tem muita gente que não sabe mais viver. (pausa) Cecília? Uma farsa. Uma grande farsa.  Se fazia de santinha, de tímida, e foi ela quem me fez pagar esse mico.  Mas tudo bem, tudo bem. Quem vai sair na revista no final do mês, hein? Quem? Ela com aquele corpo de jaburu, ou eu? Hein? Porque eu posso ter pagado mico, mas eu sei do meu valor. Eu estudei! Eu me cuido! O convite pra estar aqui não foi pra ela, né? Foi pra mim. Eu estou aqui. (pausa) Sim, eu percebi que tinha algo estranho, aquilo tudo era muito estranho. Achei sim, muito estranho aquele cara me mandar fazer todas aquelas coisas. Achei sim. Mas não pense que eu deixei ele me pegar o tempo todo. Eu sou loura, mas tenho a minha dignidade. Muitas daquelas perguntas foram respondidas à altura, com a consciência de uma mulher digna e inteligente. Eu podia não ser boa nessa coisa de pensar rápido e atender o telefone, e tudo bem que eu tava matando cachorro a grito, mas o que eu posso fazer se de vez em quando saem uma pérolas preciosas da minha boca? Apesar de ter sido (pausa-ela chora) Sim, eu fui humilhada. (pausa) Tirar a roupa? Foi muito constrangedor. Foi horrível, pura humilhação. É a selva pedra da cidade grande que faz a gente fazer de tudo. E olha que eu faço de tudo mesmo. (pausa) Não, não. Essas imagens não foram autorizadas porque muita gente de menor assiste, mas... (chora) Mas... (se recupera bruscamente) Não tem problema não. (sorrindo falso) Eu já fechei com a revista. Em breve meu corpo vai ser divulgado (ela ri- pausa) Ele? Um homem sem escrúpulos. Eu parecia uma verdadeira mocinha das novelas, sabe? O público deve está se identificando muito comigo! (pausa) Eu já estava pelada, de quatro, imitando um macaco. (pausa) Sim, sim. Pra vocês verem o que uma mulher trabalhadora que se sustenta tem que passar nesse país. Eu tive que me submeter a isso sim, meu povo. Me submeti sim. Pra mostrar que eu não tenho medo de cara feia, que, se eu como uma empada estragada, faço cara de quem tomou um milk shake. (pausa) Bem, depois eu saí de lá arrasada mas sem perder a dignidade, sabe? Fui para casa de cabeça baixa, feito uma... uma... você entendeu.. No dia seguinte, assim como um milagre, a produção do programa me ligou e me contou tudo! Foi aí que eu entendi. Era tudo uma farsa! (ri) Tudo uma farsa. E eu caí feito um patinho. Agora você me pergunta: Por que logo eu?  Sorte. Sorte, né gente? Na vida uns tem sorte, outros não. Estão vendo? Graças a toda essa minha humilhação gratuita eu pude ter a oportunidade de estar aqui. nesse programa ma-ra-vi-lho-so, falando para todo o Brasil. Brasil te amo. E em breve ainda vou sair na revista, comprem (ri) Quem não quer isso, né minha gente? Quem não quer? Eu sou tipo a Xuxa, sabe? Uma grande sortuda. (pausa) Obrigada! Obrigada! (pausa) Sim, sim. To pensando em me candidatara a vereadora. Representar esse povo de Deus que eu faço parte, né? Quer dizer agora nem tanto (ri) Não sou mais do povo. (ri) Obrigada! (pausa) Uma frase? Acredite na sorte que um dia ela pode bater na sua porta.

Música aumenta e ouvimos aplausos em off e música de um programa de televisão acabando. B.O

 

CENA 3

(Volta da situação final da cena 1)

A- Rosna.

BIA- O quê?

A- Anda, rosna que nem um cachorro!

(BIA fica sem graça. CECILIA começa a rosnar. BIA com inveja começa a latir. CECILIA late mais forte.)

A- Agora se lambam.

BIA- “Se” o quê?

A- Você quer ou não quer esse emprego?

(BIA começa a lamber CECILIA. CECILIA- começa a lamber BIA e cuspir)

A- Isso, cuspir é muito bom. Agora  faz  a dança da galinha.

BIA (já chorando)- Tem certeza que isso é fundamental para a entrevista?

A- Se quiser, pode ir embora.

(BIA começa a imitar uma galinha.)

A- Roda.

(BIA roda em prantos)

A – CECILIA, faz um galo correndo atrás da galinha

(CECILIA começa a correr atrás da galinha feito um galo)

(BIA foge de Cecília, chorando, mas sem deixar de fazer.)

A- Cacareja mais alto, BIA. (BIA cacareja mais alto) Mais alto Bia, mais altoooooo.

(B cacareja bem alto chorando aos prantos)

(Entra D, invadindo o espaço com câmeras.)

D- Muito bemmmm, muito bemmmm.

Bia (sem entender nada)- O que é isso?  Silvio do Brasil, o que tá acontecendo?

D- Dá uma olhada para as câmeras. Você acabou de participar da nossa pegadinha do Brasil.

(músicas cafonas tocam)

Bia - Ah, meu Deus!!!

(A e Cecília vão abraçá-la. Bia está chorando.)

Bia- Meu Deus, eu estou na televisão!

D- Ela está na televisão, minha gente! Tira esse chorinho do rosto, dá um sorriso para a câmera, o Brasil todo está te vendo! Olha como ela é bonita, gente.

Bia- Obrigada, eu em esforço.

D- Você estava assustada, Bia?

Bia- Muito. Eles me fizeram cada coisa.

D - Como foi pra você ficar pelada numa situação dessas?

Bia- Pelada? Foi muito constrangedor, eu espero que o Brasil me entenda.

D- O Brasil te entende, Bia. O Brasil está com você

Bia- Obrigada Brasil. Obrigada por vocês me entenderem e estarem comigo. Beijooo

D- Muito bem telespectadores, continuem com a gente. Vamos acalmar nossa amiga Bia, que sem saber passou por poucas e boas para conseguir um trabalho. Tadinha da Bia. Olhem para ela, está acabada. E você? Será que um dia você também será vítima da pegadinha do Brasil? Desconfie, se tiver acontecendo coisas estranhas no seu local de trabalho ou entrevista de emprego, pode ser que a gente esteja por perto. Até a próxima! E não percam o programa de amanhã. Vamos entrevistar ela mesma! A Bia vai falar pra vocês como foi viver essa situação. Não saia de perto, fique com a gente.

(Música de finalização de programa, a luz diminui, ouvimos uma voz em off)

Voz: Corta. Muito bom, gente.

Bia: E aí gente, convenci?

(Chega A)

A: Cara aquela parte que você improvisou foi perfeita.

D- Minha querida, eu tenho certeza que o povo caiu feito um patinho nessa história. Amanhã nosso Ibope vai bombar!

Cecília- Gente, eu não to aguentando ficar nessa roupa. Amor, adorei te lamber em público (ela beija Bia na boca)

Bia- Gente, se bobear vai rolar até revista.

D- Alex, você tava maravilhoso.

A- Você não me achou muito canastra?

Cecíla- Que nada, tava perfeito. Eu mesma me convenci.

Bia- E você naquela hora entrando? (ri) E o pior que tem gente assim, sabia?

Cecília- É, foi difícil não rir.

Bia - To louca para chegar em casa.

D- Ih, minha filha, agora sua vida mudou. Você vai ter que simular o tempo todo. Você agora é a coitadinha do Brasil que foi pega na pegadinha. Tem que simular.

Bia- Tudo bem, eu tô ótima. É o que sempre digo: eu faço de tudo. (A luz do estúdio apaga, eles continuam conversando sobre a simulação)