11 e 12 de setembro de 2008 EXERCÍCIO DE FRAGMENTAÇÃO Por Marcos Arzua Tema: "Seqüestro" ou "Anestesia Geral" – optei pela mescla.

Cenário: uma escada central e larga que conecta três plataformas (sendo a do meio a mais baixa). Do lado direito do palco haveria um balcão de madeira circular, encimado por um cartaz onde se lê: Delegacia de Polícia. Sobre o balcão, uma tela sustentada por fios metálicos - em que se projetariam imagens. Diversos personagens, espalhados pelo cenário, ganham destaque de luz quando suas ações se dinamizam.

Rubrica 1 / Antônia, uma portuguesa de meia-idade, na frente do palco, e vestida de forma conservadora, descreve um objeto que têm em mãos, antes de subir para a plataforma do meio.

– Adoro sentir tua pátina, pequeno cachimbo. Apesar de quase roliço, és áspero, marcando a passagem do tempo, que tonteia a gente como o tabaco, se calhar. Escuro, longo e estreito. Com todas as ranhuras mínimas da vontade humana. Achei-te enterrado aqui, sujo e rachado em teu destino oloroso de sublimar os homens através do tubo estreito e escuro da escravidão.

Rubrica 2 / Bacana e Cruzada - dois garotos sentados no início da escada, interrogam hostilmente a Demente – outro menino, que está sentado no chão, diante deles - sobre um sonho que este teve.

Beleza – Tu vai confirmar essa parada agora! Nessa porra de sonho aí, tu sabia direitinho onde tinha que passar! Essa que é a merda de pegar peidão pra fazer serviço!

Cruzada (aponta para cima na segunda frase) – E não é só isso não! Tu disse que sonhou que ia ter uma geladeira e um montão de comida, que esses moleque, bacana se entope todo dia!! Tá tudo vazio lá na cantina de cima! Como é que fica, porra!!

Demente (intimidado) – Calma aí! Calma aí! Eu passo aqui todo dia. Já tava com vontade de fazer um ganho. Acabei sonhando. Mas eu via tudo...

Cruzada - Via porra nenhuma!!! Tu tá metendo a gente em furada porque não é do movimento! E come é que fica a porta da escada lá pra cima, foda de arrombá, que tu não sonhou?!

Beleza – E a mulher que tá lá em cima?! Isso tu não sonhou, né não, seu filha da puta? No sonho, o colégio tava vazio por causa do feriado? E agora? Tu vai subir lá em cima, arrombar as porta e arrombá a mulher também?

Demente (ainda intimidado, mas meio alterado) – Calma aí, caralho! Eu só sonhei, e era fácil de chegar lá em cima, não tinha mulher não!! Vai ver que os cara mudaram tudo aí tem só dois dias, sei lá! Mas eu sonhei que a polícia não ia dá as cara, que dava pra arrombar o cadeado do portão molinho, e pra invadir pela porta da frente aqui (aponta para baixo), e deu mesmo. Ou num deu?

Cruzada – Só quis acreditar em tu por causa que contaram que tu sonhou com o bicho e ganhou o trocado lá no Cerro-Corá! Sem falar que aqui não é longe demais do movimento!

Beleza – E ficou com esse nomezinho de Demente porque vive sonhando as parada. Mas nessa aqui tu não fechou não! Por isso (olha para Cruzada) que tem que excluir os cara de fora, de outras favela. E, tu (aponta Demente), nem preto direito é para ser homem de raça!

Rubrica 3 / Eulália, uma senhora de cabeça branca, postada na plataforma da esquerda, fala, nervosamente, ao telefone celular, olhando várias vezes para a plataforma central (a mais baixa).

Eulália (em alguns momentos da fala, desloca o aparelho para cima e para baixo) – O senhor está me ouvindo? Ouve, ou não? Como? Não ouço quase nada... Por caridade, diga se está ouvindo claro!? Aqui é alto, mas não pega direito, tem muita interferência!! Que inferno! Como?

Interlocutor - ...

Eulália (quase gritando) – Ligar do fixo? É isso? Não posso! Tá mudo! Está ouvindo? Fale mais alto meu senhor!!

Interlocutor - ...

Eulália – Que polícia? Já tentei!! Não!! Isso! A operadora está muda, e a polícia está surda!!

Interlocutor - ...

Eulália – Mas isso eu já falei muitas vezes!!! Daqui não poso ver nada direito! Preciso de ajuda para eles! De socorro, já! Está ouvindo?!

Rubrica 4 / Um apresentador (cuja imagem pode ser vista na tela do palco) lê três notícias totalmente desconexas

1. “Mais uma vez, com a chegada do final do ano, os assaltos e arrastões aumentaram intensamente. Segundo a Delegacia de Roubos e Furtos estes tipos de ações crescem até 20% neste período. A mesma fonte policial afirma que, com relação ao final do ano passado, as ocorrências de invasão a edifícios residenciais e empresariais, principalmente, cresceram mais de 8%.”

2. “As investigações arqueológicas realizadas no entorno do Corcovado, próximo ao ponto turístico internacional eleito uma das sete maravilhas do mundo moderno, comprovaram a existência de antigos quilombos, cujos habitantes chegavam a negociar com os pequenos agricultores instalados no atual bairro das Laranjeiras.”

3. João Moura de Castro, o relações públicas da missão organizada pelo Ministério da Educação de Portugal, enfatizou a pertinência da criação de projetos culturais bi-laterais de cooperação, tendo em vista o forte laço gerado pelas tradições comuns entre o Brasil e a Mãe-Pátria lusa.


Rubrica 5 / Fabinho e Gustavo, dois meninos brancos (da idade aproximada de B,C e D) conversam no meio da escada.

Fabinho – Você viu o joguinho novo do play station?

Gustavo – Tou a fim de viajar no outro sábado.

Fabinho – É um saco a gente ficar de castigo aqui no feriado. Que saco!! E a culpa é tua, porque eles deixam a gente aqui dentro porque a tua mãe não sai daqui...

Gustavo – Se não tiver passeio no sábado, vou andar de skate no parque da Lagoa.

Fabinho – Então você vem jogar bola com a gente no clube.

Gustavo – Se fizer tempo ruim vou pedir pra minha avó me levar no museu.

Fabinho – Você tá sempre aí, atrás de mamãe e de vovó. Que babaquice! Tua mãe é professora, mas... Quer saber? Eu acho o sotaque e a aula dela um saco!

Gustavo – Pensando bem... quero andar de skate no museu.

Rubrica 6 / Helena e Ivo, um casal de portugueses idosos, postados na plataforma direita do palco falam de João (ausente) com absoluta concordância e continuidade discursiva.

Helena – Esse nosso menino é mesmo um presente de Deus!

Ivo – Também tenho muito orgulho dele.

Helena – Tu te lembras de como ele organizava os pretinhos para jogar a bola nos tempos de Luanda?

Ivo – É verdade. Já sabia liderar.

Helena – Não é maravilhoso ver o nosso João na televisão, a falar aqui aos brasileiros?

Ivo – De facto, é mesmo um feito.

Helena – Mas, ai! E a nossa Antônia, que não pára de trabalhar. Não sei o que veio fazer neste país. Parece que está sempre fugindo de algo. Está quase prisioneira daquele colégio. Um lugar tão perigoso! Ela deveria voltar com o menino para viver conosco num sítio mais tranqüilo.

Ivo – Pois... Se calhar, ela gosta mesmo dali. Mas já são horas de pensar em voltar a Lisboa.

Helena – Quem sabe o nosso João não lhe arranja algo no Ministério, tão ajeitado está em Portugal, sem inventar novas aventuras depois de toda aquela tragédia angolana... E ele casou-se como Deus manda, tudo às direitas, acertado com a mulher, e feliz. Nada dessa história de fazer filhos e sumir com eles pelo mundo sem saber do pai,

Ivo - Pois, poderia mesmo lhe arranjar. Tem calma, Helena, que tudo se ajeita...

Helena – Ai, Ivo! Ela nos saiu ao meu pai, que adorava os hábitos e as magias dos pretos.

Rubrica 7 / Sobre uma estridente cacofonia de vozes e músicas em off (funk, batucada, chorinho, fados rasgados) os personagens se cruzam diante da placa do balcão da delegacia, em grupos opostos que circulam sem ver-se etc. Objetos que levam: Ana: um livro; Beleza: mapa; Cruzada: biscoito; Demente: o cabo longo do cachimbo; Eulália, telefone celular grande; Fabinho: comando de play station; Gustavo: Skate; Helena: passaporte; Ivo: um paletó; João: um texto.

Rubrica 8 / Silêncio súbito e imobilidade geral. A luz destaca João (centro do palco), que em monólogo dirigido ao público, fala de si mesmo contradizendo quase tudo que foi dito por Helena e Ivo.

João – Nossa família sofreu muito quando tivemos que deixar Angola, depois de tantos anos... Não é fácil voltar a raízes portuguesas que já não são nossas - que te chamem pelos cantos de retornados. Meus pais e eu acabamos por nos adaptar, mas nunca mais fui alegre como nos tempos de miúdo. Não tenho a coragem de minha irmã Antônia, capaz de recomeçar em cantos distintos do mundo, e lutar para ser feliz depois de um casamento que acabou; não como eu que vivo a atolar-me numa história triste e monótona. Tenho um trabalho arranjado, mediocremente bom. Não sou engenhoso para inventar novos caminhos, criar novos mundos como ela faz, passando, olimpicamente, de continente a continente. A verdade é que, ela, desde rapariga, sempre foi muito mais como nosso avô, que emigrou como funcionário público nos anos cinqüenta, mas se integrou nas tradições quimbundas, a ponto de se misturar e ganhar alma negra!

Rubrica 9 / Outra comunicação, feita pelo mesmo apresentador, também com três notícias desvinculadas, é emitida pela tela.

1. Como já noticiado, o assalto ao tradicional colégio do Silvestre foi solucionado há pouco, quando os marginais, que tudo indica serem de conflitivas comunidades locais, se entregaram.

2. O governo federal garante que fará respeitar os direitos dos quilombolas em território nacional.

3. As festas do fim-de-ano foram um sucesso absoluto. A Associação Comercial da cidade garante que a as vendas ultrapassaram os recordes do ano passado, apesar da dos efeitos da recessão combinada com inflação.


Rubrica 10 / Demente debocha cruelmente do objeto que Antônia segura. Antônia replica de forma submissa. Ambos estão na plataforma do meio.

Demente – Olha só! Eu podia até ter dançado! E agora, tanta putaria por causa de um cachimbo de merda!

Antônia – O menino me vai desculpar, ele me é de grande valia... Mas não abri a porta da escada porque estava com medo.

Demente – Medo é o caralho! A gente achou que tu tava escondendo o ouro. Já que não tem nada aqui que preste eu vou quebrar essa porra. Isso não serve para nada.

Antônia – Não faças isto... Ele é antigo. Feito por gente pobre e lutadora que viveu aqui.

Demente - Lutador eu sou. Pobre, já foi! A gente fuma o que dá barato pra encarar. Isso aí, todo fodido, serve para quê? Pra porra nenhuma!

Antônia – As coisas antigas são o meu barato...

Demente – Antigo é o preconceito!! Eu vou zunir com isso daqui (faz gesto de que vai lançá-lo).

Antônia – Então, guarda contigo, e fumas nele. Mas não destrói...

Rubrica 11 / Beleza escala a armação da plataforma da direita, enquanto Cruzada o narra, em terceira pessoa, e no passado (esta ação poderá assustar Helena e Ivo)

Cruzada – Fala sério! O programa de esporte de “onti” gravou na moral como o “dimenor” funkeiro, identificado como B., ganhou a parada aí da escalada em parede vertical sem precisá di usá essas frescura di academia. Foi nos braço mermo. Trepou na grade da janela de baixo, agarrou no ferro de cima, subiu mais no pinote, e já é! Coisa de pichador profissional. Mas agora, que os homí grampearo, vai subir é nas grade da tranca!

Rubrica 12 / Eulália, sempre na plataforma mais alta da esquerda, tenta ligar várias vezes sem sucesso, enquanto Fabinho lhe conta, com comentários distorcidos, o que Gustavo lhe disse em 5.

Fabinho – Ele fica falando pra galera das outras turmas que gosta do jogar no computador com a gente, mas gosta mesmo é de ensinar os garotos da favela a andar de skate, e ainda vai lá pra levar remédio. Jogar bola no clube com a gente ele quase não vem; disse que prefere a quadra da favela, que o pessoal é mais maneiro. Sei lá se ele não vai na favela pra fazer outras coisas... Essa mãe dele é estranha ás pampa. É ela que leva os moleques da favela pra passear em parque e museu. Fica enfiada no colégio, fica lá o dia inteiro.

Rubrica 13 / Gustavo e Helena, dialogam (esticomitias) sobre um quadro famoso enquanto o contemplam num museu. O “quadro” (cartaz plastificado) pode estar preso na armação da plataforma da esquerda, e ser desenrolado, se for o caso.

Helena – Vistes a grandeza!?

Gustavo – É grande, vó!

Helena – Luta justa.

Gustavo – Três raças juntas?

Helena – Com comando!

Gustavo – Contra quem?

Helena – Os estrangeiros!

Gustavo – Portugueses?

Helena – Não! Os invasores!

Gustavo – E o negro?

Helena – Disciplinado!

Gustavo – Comandante!

Helena – Sem braço...

Gustavo – Mas é forte!

Helena – Isso, é!

Gustavo – E onde foi?

Helena – No Pernambuco, acho...

Gustavo – Palmares?

Helena (enfática) – Não, Guararapes!

Rubrica 14 / Repetição de 7, sem objetos. A placa onde se lia“delegacia”, agora, se lê: “Tribunal”.

Rubrica 15 / Silêncio súbito. A luz destaca o monólogo de João, descrevendo (optei por apenas comentar) o objeto de Antônia etc.

João – Sim, Meritíssimo! É um cabo de cachimbo, bem danificado pelo tempo. Um tubo longo e estreito que sorveu fumaças de liberdade. Minha irmã já tinha fixação por objetos da cultura africana desde a nossa época em Angola. Herdou do nosso avô o carinho pelos cachimbos artesanais. Parece tolo, mas lhe entendo bem o sentimento e o apego. Aí está, portanto, porque não quis abrir a porta da escada para a polícia enquanto um dos rapazes, o tal Demente, terminou por escapar. Não foi por imprudência, Meritíssimo. Estava defendendo seu “Quilombo Branco”, como definiu nosso pai. Sei que parece um objeto estúpido, mas tem grande importância para ela.

Rubrica 16 / (sempre nos balcões opostos) Ivo fala por telefone com Eulália, que lhe pede ajuda desesperadamente - em complemento com 3 etc.

Ivo – Sou eu, sim!

Interlocutor (E) – Ligar do fixo?___ Tá mudo! ___Fale mais alto, meu senhor!!

Ivo - E então, Dona Eulália? Eles estão aí?

Interlocutor/Eulália – Tão lá___Que polícia? ___Já tentei!!

Ivo – Então, os pretos!?

Eulália – (..)não posso ver nada direito! ______De socorro, já! Está ouvin___

Ivo – Iam invadir com a Antônia e os meninos lá? Invadiram? Ai, Jesus!

Eulália – Alguém dé __chamá __polí...

Ivo – A senhora Eulália tem certeza?

Eulália – Ouvi al__ sirene

Ivo – Fizeram o quê?

Eulália – “lombo_anco”

Ivo – “Lombo manco” Como? Um quilombo branco?

Rubrica 17 / O mesmo apresentador lê uma das notícias.

Como já noticiado, o assalto ao tradicional colégio do Silvestre foi solucionado há pouco, quando os marginais, que tudo indica serem de conflitivas comunidades locais, se entregaram.

Rubrica 18 / Beleza, sozinho, sobe pelas grades da plataforma da esquerda (11), enquanto se ouve sem parar o sinal sonoro de um telefone (celular).

Rubrica 19 / Caem em cena, um a um, os objetos que os personagens levavam na rubrica 7. Deve-se fazer notar que, por último, cai o cachimbo.

Rubrica 20 / Girando ao redor do “balcão” do Tribunal, todos os personagens discursam ao mesmo tempo sua visão dos fatos.

Antônia – Parece apenas um cachimbo, mas é a peça-chave da história, que está seqüestrada pelos construtores de quilombos.

Beleza – Só aprendi a escalar pra me impor e sobreviver!

Cruzada – Invasão nunca mais. Agora, sou da paz, dotôra!

Demente – Sonhar, eu posso! O resto vem depois.

Eulália – A gente não pode nem pedir socorro!

Fabinho – Tem coisa na favela que eu não sei o que é.

Gustavo – Eles lutavam com as espadas! Na mão!

Helena – Já não queremos nada destas terras desgraçadas!

Ivo – A roda da história fez os quilombos brancos. João – Minha irmã luta com os livros.

FIM