(Boca de cena, fundo preto. Antón, sentado sobre uma cadeira de rodas, tem um par de luvas brancas nas mãos)
ANTÓN: - Sempre quis ter um par de luvas de couro. Sempre quis ter luvas, como o Piero. E tinham que ser assim, como essas... com costuras aparentes, esse botão forrado, assim mesmo, fechando o punho. Essas eu comprei na Argentina. Ah, como Buenos Aires é linda. (admira a mão vestida com uma das luvas) Como veste, como desenha a minha mão, parece uma segunda pele, é muito elegante. Eu gosto.
TOCA O ALARME
(Uma pequena sala, sem móveis. Bueno e Camilo andam em volta de Duarte, que está sentado em uma cadeira, intimidado. Bueno tem nas mãos um secador de cabelo, e Camilo manipula um alicate, beliscando o ar).
BUENO: - (ligando o secador no couro cabeludo de Duarte) Fala! Fala, desembucha! Como era mesmo esse sonho? Sonhou ou não?
CAMILO: - Sonhou porra nenhuma.
DUARTE: - Sonhei, sim. As pessoas eu não conhecia, mas havia uma porta, feito de hotel, e uma sequencia de números.
BUENO: -Assim ta melhorando.
DUARTE: - Lembro que os números estavam também em uma fachada de néon, e tinha umas crianças pulando amarelinha.
CAMILO: - (sempre fazendo desenhos com o alicate no ar) Que rapaz mais cheio de frescura, que mala! Eis Duarte, um cretino.
DUARTE: - 2547, o número era esse.
BUENO: - É isso que interessa: os números. 2547. 2547.
CAMILO> - Bueno, se toca. O Antón disse que eram seis dígitos, cadê os outros dois? Fala, Duarte. Tá fazendo jogo com a gente, mano?
DUARTE: - Uma voz ficava repetindo, sussurrando, eu não via ninguém perto de mim, só ouvia aquele sussurro: 2547..., 2547...
CAMILO: - Voz em sonho. Você é mesmo um fresco...
DUARTE: - (como que lembrando e tentando completar) 2547...
CAMILO: - Fala, logo, cara, os outros dois números!
TOCA O ALARME
(Entre arbustos, Edu fala ao celular)
EDU: - Por favor, Ivan, Ivan, me escuta. Estou na estrada perto de casa
(...)
EDU: - Me deixaram aqui por acaso, não sabiam onde eu morava, só queriam levar meu carro.
(...)
EDU: - Não, estou na estrada principal, próximo ao primeiro desvio. Ivan, pelo amor de Deus, pega o carro e vem me pegar.
(...)
EDU: - Não ta me ouvindo? Como é que é? Ivan, estrada principal, perto, perto do desvio, do d-e-s-v-i-o!
(...)
EDU: - O que estourou aí, cara? Que barulho foi esse? Tá me ouvindo?
TOCA O ALARME
Pino de luz sobre a figura do vendedor de jornais.
VENDEDOR: - (gritando) Ásia, urgente! A pequena ilha de Maili foi varrida do mapa! Furacão George não deixa pedra sobre pedra! (pega um megafone) Maria Fux adota bebê africano com apenas um mês de vida! (gritando com a boca no megafone) Extra! Extra! Extra!Presidente do Brasil sonha em tornar a Amazônia uma imensa pastagem! Oposição vai às ruas!
UM GONGO TOCA TRÊS PANCADAS.
(Sala, com poucas cadeiras, sugerindo um cinema e a projeção de um filme)
FÉLIX: - Insisti muito para ela vir e ela não veio.
GUSTAVO: - (atento na tela) – Quem é essa atriz que eu nunca vi?
FÉLIX: - Liguei ontem, liguei hoje, liguei antes de sair...
GUSTAVO: - Esse filme vai ser demais, demais...
FÉLIX: - Bem, pode ser que ela venha quando acabar a sessão...
GUSTAVO: - Que cena, cara! Olha isso.
FÉLIX: - O que eu faço com a minha filha, cara?
TOCA UMA SINETA ESCOLAR.
(Um pátio, à sombra de uma árvore cheia de galhos e folhas. Dois rapazes conversam em cima de um muro)
HÉLIO: - Que sujeito nojento.
IVAN: - Medonho.
HÉLIO: - Viu o que ele disse do José? Logo o José, tadinho, aquela flor...
IVAN: - Incapaz de roubar no jogo ...
HÉLIO: - Que pede desculpas ao gato se pisar no rabo de um gato...
IVAN: - Que chora quando derrubam uma árvore!
HÉLIO: - Sujeitinho podre.
Ivan: - Falar isso do José é pra levar porrada, né, não?
HÉLIO: - É.
TOCA A SINETA ESCOLAR, FUSÃO COM SIRENE.
Todos os personagens, incluindo José, entram em cena e saem, zigue-zagueando, sem se falar, ostensivamente mostrando um objeto. O ambiente é branco, asséptico, manicomial. Uma luz intensa vem de cima.
Antón exibe para todos um gorro, tirando-o da cabeça e pondo-o de modo a cobrir seu rosto. De fato, o gorro é no estilo ninja. Ele grita sons de luta e guerra. Está usando suas luvas brancas.
Bueno aponta o vapor do secador de cabelo na direção de todos, como uma pistola.
Camilo faz os mesmoos malabarismos com o alicate.
Félix carrega no ombro sua namorada amarrada da cabeça aos pés.
Gustavo, com uma câmera de cinema, filma a todos.
Hélio traz um guarda chuva, que abre e fecha nervosamente.
Ivan toca uma sanfona, “alegrando” o ambiente asséptico.
José traz uma orquídea nas mãos.
(De repente, no meio do caos sonoro e da cacofonia generalizada, faz-se SILÊNCIO e todos ficam imóveis. Luz sobre José)
JOSÉ: - Ter pena dos outros é querer piedade também. Não me importo com as pessoas, muito menos me importo com os animais. Hélio, você é um ignorante! Que nojo me dá esse seu jeito medíocre e abobado. E você, Ivan? E você? Pára de tocar essa charanga, você cada vez toca pior. São dois completos idiotas. Só amarrada você consegue que sua namorada fique com você, Hélio? Coisa chata, hein? Gustavo, tira essa câmera de cima de mim! Sai, desinfeta! Não quero ser filmado e nem vou sorrir por isso. Edu! Edu e seu celular ridículo,. O que me dizem vocês do Edu, então? Larga esse celular, babaca.Falando com todo mudo e ninguém. (A orquídea, em uma caixa, que José exibia, agora está no chão. José chuta e pisa a flor, esmagando-a) É tudo uma corja que circula em bandas, mais conhecida como humanidade, essa coisa.
TOCA A SIRENE.
(Reaparece a figura do jornaleiro, passando ao fundo da cena, num corredor de luz)
Brasil, urgente! O Brasil se tornou um deserto tropical! Ministros comemoram! Austrália, sensacionalllll! Aranhas de 2 metros e meio invadem Sydney! Notícia de última hora! Epidemia estranha na China: geração de chinas bem-dotados agita o Oriente!
TOCA O ALARME.
(A mesma pequena sala, sem móveis , da segunda sequência)
DUARTE: - Essas luvas são feias demais, Antón! Muito, muito feias. E cafonas. Esses desenhos em relevo no punho, são de matar. Quem te deu isso, Antón?
ANTÓN: - Eu mesmo comprei.
DUARTE: - Que falta de gosto. E ainda por cima, brancas. O chique é luva de pelica marrom, babaca, luvas de assassino, sempre combinam com a cor da pele do pescoço.
ANTÓN: - Não foram baratas. E não são brancas. Comprei em Buenos Aires.
DUARTE: - Claro, um idiota que nem você. Te enganaram, meu velho. Pagou caro, mas as luvas são vagabundas. Vagabundas e cafonas. Dá até nojo um sujeitinho tão caipira.
ANTÓN: - Eu só tenho esse par de luvas pretas.
DUARTE: - Ainda por cima é pobre. Que sujeito mais sem saída. Um fracasso. Não sabe se vestir, não sabe nada! Um tipinho, um verme, um fudido na vida. Antón, vou jogar suas luvas no lixo.
(Duarte tira um isqueiro do bolso)
DUARTE: - Melhor: vou queimar.
TOCA O ALARME.
(Bueno e Camilo, nus, em um banheiro de ladrilhos. Bueno tem os cabelos molhados e começa a secá-los com o secador)
CAMILO: - Como fazia todos os dias pela manhã, Bueno se preparou para ir à fábrica de armamentos.
(Bueno deixa seus cabelos completamente despenteados, começando a puxá-lo em tufos)
CAMILO: - Certo de ser promovido pelo chefe, preparou-se da melhor maneira possível.
(Bueno desliga o computador)
CAMILO: - Bueno, de repente, se deu conta do silêncio e teve medo.
(Bueno liga o secador e vira-o para Camilo)
CAMILO: - Bueno resolveu passar a sua calça com o vapor de seu secador. Bueno sempre soube improvisar. Já que o ferro estava no conserto ...
(Bueno aponta o secador ligado na direção do meio das pernas de Camilo)
CAMILO: - Bueno fez de tudo para se arrumar do melhor modo.
(Camilo tenta se afastar do calor do secador sobre sua genitália)
TOCAM A SIRENE E O ALARME AO MESMO TEMPO.
(Porta de entrada da sala de projeção do cinema)
FÉLIX: - Ele sempre dá razão a ela.
EDU: - Sujeitinho enjoado esse Gustavo.
FÉLIX: - Insistiu pra eu ligar pra ela, mas não liguei nada.
EDU: - Insistir também é muita inconveniência.
FÉLIX: - Não só insistiu como teimou pra eu ligar no dia seguinte.
EDU: - Não tem noção.
TOCA O GONGO TRES VEZES.
(Gustavo e Hélio em um museu)
GUSTAVO: - Não entendo arte moderna.
HÉLIO: - “Guernica” está além da arte moderna.
GUSTAVO: - Digamos melhor: está além da arte?
HÉLIO: - “Guernica É arte.
GUSTAVO: - Você vê arte em tudo. Você é suspeito. Você vê arte até onde tem arte.
HÉLIO: - Guerra e horror, meu caro. São sinônimos. Guerra é horror.
GUSTAVO: - A miséria acostuma, a gente se acostuma com a miséria.
HÉLIO: - Olha, olha aqui: impressionante essa perspectiva manca.
GUSTAVO: - Manca como uma galinha degolada é manca ...
TOCAM SIRENE, ALARME E GONGO.
(Mesmo ambiente manicomial da sétima sequência)
Antón faz gestos mecânicos, como se vestisse o gorro, mas está com as mãos vazias, embora vestindo suas luvas.
Bueno despenteia-se obsessivamente com as mãos.
Camilo põe os dedos na boca, dando assobios estridentes. Arma uma pose, se prepara e assobia forma. Depois vai para outro lugar da sala e repete tudo de novo.
Duarte rasteja e gane como cachorro pela.
Edu fala com as mãos imitando um celular, discutindo com alguém em sons guturais.
Félix traz uma corda no pescoço, como um enforcado. Ele entra andando a esmo, psicopático..
Gustavo encara cada um que passa por ele, procura olhar nos olhos das pessoas, bem nos olhos. Está “filmando” com seus olhos.
Hélio dança desconjuntadamente, realizando um strip-tease bizarro.
Ivan, com venda nos olhos, entra feito um cego, mãos à frente. Esbarra em alguns e é enxotado onde passa.
José entra por último e fica imóvel no centro da sala manicomial.
TOCA UM DIAPASÃO ATÉ O SILÊNCIO..
JOSÉ: - Uma luva preta, minuciosamente trabalhada, que faz par com outra, totalmente lisa. O único par de luvas no mundo que é para ser usado por duas mãos diferentes. Essa luva preta, além das costuras aparentes, em linha branca, tem um botão redondo, forrado, mas apenas a luva da mão direita. Há dias Antón procura o botão que caiu da outra luva. Por isso sua mão esquerda ficou dura, gelada, azul desse jeito.
TOCA UMA CAMPAINHA DE TELEFONE.
(Em uma sala, Ivan ao telefone)
IVAN: - Perto de casa, onde, Edu? Perto do Rancho Azul?
(...)
IVAN: - Ligaram falando absurdos, parecia uma festa, mas eu falei com um só.
(...)
IVAN: - Você saiu com eles porque quis. Eu não tava gostando nada daquilo. Eu te avisei, não foi?
(...)
IVAN: - Onde já se viu marcar encontro em banheiro público? Edu, só você mesmo, que é louco.
(...)
IVAN: - Calma, aí! Tô vendo uma fumaça saindo da tomada aqui de casa ...
(Som de explosão)
EXPLOSÕES TORNAM-SE UM EFEITO SONORO DISTANTE..
(Ressurge a figura do jornaleiro)
JORNALEIRO: - Ouçam todos! Maria Fux aderiu à nova tendência! Agora ela também tem um bebê pra chamar de seu! (pega o megafone) Pamonha! Pamonha quentinha! O Brasil não tem mais uma única árvore de pé. O presidente comemora criando novos ministérios!
EXPLOSÕES SEGUEM. MAIS SIRENE, ALARME, GONGO, DIAPASÃO ATÈ O SILÊNCIO.
(Novamente, no banheiro de ladrilhos brancos. Nu e molhado, Bueno seca mecanicamente, e sem parar, seus cabelos com o secador. Um telefone começa a tocar, e só se ouve o tocar insistente do telefone.
SOM DO TELEFONE INSISTENTE. BLACK OUT TOTAL DE UM MINUTO.
(Ambiente manicomial, vazio e asséptico, reaparece. Caem do urdimento o gorro ninja, o secador, o celular, as luvas pretas, o alicate, jornais do jornaleiro, a corda do enforcado. Os objetos vêm descendo lentamente, como num passe de mágicas, um ilusionismo. Depois que tudo cai no chão da sala, uma porta se abre e entra Antón, na cadeira de rodas. Entra, vindo da boca-de-cena, Duarte com as luvas de Antón nas mãos e um isqueiro)
DUARTE: - Ainda por cima é pobre. Um tipinho, um verme, um fudido na vida. Antón: vou jogar suas luvas no lixo! (acende o isqueiro) Melhor: vou queimar.
(Antón assiste impassível a destruição de suas luvas, enquanto ..ao fundo Féliz e Gustavo conversam)
FÉLIX: - Minha filha é uma chata, vive me controlando.
GUSTAVO: - Por que não vamos ao cinema mais?
FÉLIX: - Agora arrumou um namorado traficante. Acha que não tem nada demais.
GUSTAVO: - Maria Fux, essa mulher é demais? Você assistiu “Foda-se!”, em que ela passava o filme todo fugindo de um doidão?
FÉLIX: - Traficante, ela diz, e daí? É porque você não tem filha.
(A sirene começa a tocar. Entram pela porta Camilo e Bueno, aos tapas, enquanto Edu entra correndo, se ajoelha no canto mais à esquerda do público. Olhando para os lados, como um perseguido, Edu atende ao celular, mas não ouvimos o que ele fala com Ivan, que surge em outro canto, ao fundo. Edu e Ivan discutem ao telefone, enquanto ... Camilo e Bueno rolam brigando pelo chão imaculado e branco, cheio de objetos. Sentado no centro da boca de cena, luz sobre Hélio).
HÉLIO: - (sem nenhuma inflexão, mecanicamente) Ásia, urgente. A pequena ilha de Maili foi varrida do mapa. Furacão não deixa pedra sobre pedra. O Brasil não tem mais uma árvore de pé. Oposição vai às ruas. Pamonha, pamonha quentinha. O presidente do Brasil comemora criando três novos ministérios. Extra. Extra. Extra. Maria Fux adotou uma família inteira de refugiados de Uganda no quintal de sua mansão.
DIAPASÃO VIBRA ATÉ O SILÊNCIO. UM VÍDEO DE EXPLOSÃO NUCLEAR.BLACK OUT.
(José risca um fósforo no meio do cenário destruído e todos mortos.)
JOSÉ: - O único par de luvas no mundo que é para ser usado por duas mãos diferentes. Há dias Antón procura o botão que caiu da outra luva. Por isso sua mão esquerda ficou dura, gelada, azul desse jeito. (o fósforo apaga).