11 de setembro de 2008 EXERCÍCIO DE FRAGMENTAÇÃO Por Verônica Diaz Personagens:

A Adolfo Mulato 35 anos cafifa de praia
B Berenice Mãe de Daniel, 50 anos, dona de casa
C Carlos Tio de Daniel, 65 anos
D Daniel 19 anos, caixa de banco, arrimo de família
E Eugênio 22 anos, assaltante pé rapado
F Francilene Esposa de G, 50 anos, dona de casa
G Gustavo Senhor de 55 anos
H Hélio Delegado rude
I Inácio Escrevente submisso e sonso
J José 20 anos, manco, mulato pobre


1 – Adolfo mostra para a platéia um álbum de fotos.

A: Here, Mister, olha só, repara na qualidade do produto: mulata, gatinha maneira, um biscuit, 16 aninhos, saca só! Look, attention: peitinho durinho, tudo me cima, empinadinho, listen, Mister, não tem igual, é o genuíno produto brasileiro. Olha só as coxinhas, saca só as curva, the curves, Mister, do you understand? As curvinhas, vem subindo, me acompanha, Mister, acompanha meu raciocínio, do joelho até a bundinha, uau! Essa é a maravilha nacional, Mister, bundinha feito essa cê não acha por aí, não. E aqui, vou dizer pro senhor, Mister, aqui é nova mas é comletinha. Saca, Mister? Complete, understand? Everything, she does everything, tudinho, na frente atrás...olha só a boquinha. Um  bocão, Mister, lábios de mel, de deixar louco qualquer um. Crazy, man, understand? E não dá problema, gatinha limpeza, jogo limpo. E toma banho, tá sempre cheirosinha, arrumada, sabe como é, Mister, pronta prá tudo, energia jovem...


2 – Berenice e Carlos estão no quarto de Daniel, numa casa muito simples. Ele está sentado na cama, transtornado.

B: Mas você disse que eram dois!
D: Eu não me lembro...
C: Não lembra, tá. Um ou dois. Mas o quê que ele falou depois?
D: Não sei.
C: Sabe, sim, você acordou gritando, dizendo que não sabia das notas!
D: Ele disse... falou que eu que tinha chamado.
B: Você chamou o ladrão?
C: Você ficou maluco, Daniel? Tá querendo ser despedido?
D: Não fui eu, não foi.
C: E quem foi, então?
D: Não era dinheiro que eles queriam.
B: Se não era dinheiro, era o quê?
D: Era eu, eles queriam que eu fosse com eles.
C: E você lá tem o segredo do cofre? Desde quando? Mentira, cê tá inventando. (agarra os ombros de D, sacode-o)
B: Deixa ele falar.
C: Fala, sua besta. O quê que eles queriam com você?
D: Não sei.
C: Que, não sabe, o quê, caralho, se foi você que sonhou essa merda!
B: Fala logo, filho, quem era ele?
D: Não sei... começou a tocar uma música...
B: Qual música?
D: Não lembro!
C: Cacete! Tá, e daí, e depois da música?
D: Falou... prá sair dessa vida.
C: Porra, parece até que tu é puta!
D: É. Puta que trabalha em banco. (C dá-lhe um tapa no rosto)
B: Por quê que eles falaram isso, filho?
D: Não sei, não sei.
C: Claro que sabe, sua putinha (afaga-o no rosto)
D: (esquiva-se, quase chorando) Não sei, não sei.


3 – Eugênio está encostado num muro, falando ao celular.

E: Porra, Maninho, dá uma força! (...) O quê? O lance é hoje só! (...) Não tô escutando, merda (move-se procurando sinal) Tá me ouvindo? Cara, amanhã não dá mais, é hoje! (...) Puta que o pariu... alô, alô! (sacode o aparelho) Tá ouvindo? (...) O plano é bom prá cacete, o pessoal viajou agora  (...) Viajou agora, tô com tudo armado, só preciso de munição...(...) munição! Só isso que eu tô te pedindo (...) Cara, é prá ontem! (...) Tô ferrado, pelo amor de deus, quebra esse galho prá  mim! (...) Alô! Caraca, tá ouvindo?


4 – Apresentadora de TV lê as notícias:

a) A Secretaria Municipal de Cachoeiras de Macacu atribui a uma triste coincidência a morte das 3 crianças internadas anteontem na UTI. O Secretário de Saúde lamentou o caso, afirmando tratar-se de uma fatalidade.

b) Tomou posse hoje na Nova Zelândia o ministro das Finanças Carl Yugermann. Em seu discurso afirmou que envidará todos os esforços para obter a integração do país à União Econômica Européia.

c) Milena Maltmann, protagonista da nova novela do canal RG7, dá entrevista exclusiva aos nossos repórteres em sua mansão no Morumbi. A jovem atriz, que gasta cerca de 10mil reais por mês nos cuidados com a beleza, fala da forma física exigida para dar conta das inúmeras sessões de massagem linfática, lifting facial, peeling...   


5 – Francilene e Gustavo sentados no mesmo sofá vêm na TV sucessivas imagens de miséria e violência.

F: (cheirando o ar) Acho que o bolo está pronto.
G: Ninguém mais quer saber de eleição. Prá quê? Perda de tempo.
F: Vou perguntar pro Frans se ele também quer.
G: Eu vou votar nulo, já decidi.
F: O Frans adora bolo de milho.
G: Toda vez é isso, eles só querem saber do nosso voto.
F: No outro dia ele reclamou, só porque eu fiz de chocolate.
G: Eles não querem ouvir o eleitor.
F: Mas comeu tudo, o danadinho.
G: Quero só ver, se der mais voto nulo que voto válido...
F: Repetiu e tudo!
G: Eles vão ter que nos ouvir!


6 – Na delegacia o calor é infernal. O tempo todo ouvem-se os gemidos de alguém fora de cena, reclamando do calor. Hélio e Inácio trabalham cada um na sua mesa, o 1º.  com formulários, o 2º.  com um caderno de registros, ambos suando em bicas. Inácio volta e meia seca o suor do rosto com um lenço.

H: Porra, esse cara vai ficar aí...
I: ...gemendo o dia inteirinho, sim, senhor...a não ser que...
H: ...a gente páre o que tá fazendo prá ir lá...
I: ...só prá mandar ele parar... o que...
H: ...não vai adiantar...
I: ...porque ele não vai parar... então...
H: ...a gente vai ser obrigado a ... (abre a gaveta, tira uma arma, levanta-se, sai de cena. Ouve-se um tiro e um grito)
I: (sem se alterar) ...a pedir silêncio prá poder trabalhar...
H volta, senta, guarda a arma, reassume o trabalho.
H: ...ou a dar motivo prá alguém reclamar...


7 – Os personagens se movem pelo palco em diferentes direções e velocidades enquanto um burburinho de vozes e sons de cidade como sirene, bate-estacas, buzinas, etc., vai ficando cada vez mais alto. A leva um GUARDA-SOL, girando-o de vez em quando, B se perde em FORMULÁRIOS enquanto caminha, C vai mostrando aos outros um ÁLBUM DE FOTOS, D passeia enquanto toca uma FLAUTA, E não sabe o que fazer com um CHURRASQUINHO NO ESPETO, F carrega uma TV na cabeça, G anda cegamente por causa dos ANTOLHOS, H carrega um grande VENTILADOR, I anda secando a testa com um LENÇO e  J anda mancando com um MEGAFONE na mão.


8 –  Enquanto os outros personagens continuam passando, J para no meio do palco.

J: (falando no megafone) Não adianta, eu não vou parar de gritar, não vou parar de gemer, até vocês me ouvirem, até vocês conseguirem perceber que não estão sozinhos no mundo. Tenho 20 anos e vocês vão ter que parar o que estavam fazendo. Meu nome é José, tão ouvindo? José! Vocês vão ter que levantar o rabinho, tirar os olhos das suas vidinhas, vão ter que vir até aqui e olhar prá mim. Eu não tenho nada prá fazer. Eu tô desempregado, por isso eu não vou deixar vocês em paz, não adianta, eu insisto, eu existo, eu resisto, eu....eu...(começa a chorar. Ouve-se um tiro, ele grita, sai correndo mancando)


9 – Apresentadora de TV lê as notícias:

a) Pesquisadores russos afirmam ter descoberto a cura da celulite.

b) Guerrilheiros da Namíbia seqüestram partidários do governo e exigem asilo na embaixada da República federal da Alemanha.

c) Presa uma quadrilha que aplicava o golpe da saidinha de banco sobre idosos moradores da Tijuca.


10 – Daniel, com sua flauta, debocha do guarda-sol de Adolfo.

D: Instrumento de trabalho?
A: É, pô, um deles, é, quer dizer, funciona, né? Meio antigo, tô sabendo, fazer o quê?
D: Põe antigo nisso.
A: Mas olha só, abre, fecha, funciona, protege do sol. Pelo menos isso, protege.
D: E quem precisa de proteção? Você?
A: É. Pô, quer dizer, não, eu não. Mas aí, quem que não precisa, né, não? Ninguém não tá seguro nesse mundo. Vacilou, o sol queima, né não?
D: Não.
A: Não?
D: Não.
A: Você... (oferece espaço debaixo do seu) não precisa de um guarda-sol?
D ri e sai tocando sua flauta.


11 – Berenice tira um ventilador da caixa

C: Ela deu 2 voltas na caixa (B dá 4 voltas, tentando entender como se abre a caxa. Depois pára e faz a caixa girar) até descobrir como é que a abria a porra da caixa. Ni que entendeu, ela partiu prá cima (B abre a tampa) Abriu as 4 tampa que tem em cima, duas de uma vez, depois as outras duas. Ficou olhando. Aí foi com as 2 mão prá dentro da caixa (ela tenta com as mãos em várias posições). Nem conseguiu foi nada. Tentou apoiar a caixa com as pernas, meio que abraçando, encaixando a caixa na coxas – isso foi bonito... e foi rodando a máquina com as mão e balançando o corpo até que conseguiu (ela cai no chão junto com a caixa. Há um embate entre mulher e caixa até que ela consegue tirar o ventilador lá de dentro e desmaia) Daí ela só fez ligar o tal ventilador e foi uma beleza, girou o botão e ventou nas 3 velocidade.(ela permanece deitada)


12 – Eugênio está discando o telefone enquanto Francilene conta o que Gustavo falou.

F: Só falava da tal eleição. Até parece que é a coisa mais importante do mundo. Claro que, no fundo, ele só tava pensando no bolo.
E: Merda.
F: Duvido, diz que vai votar nulo. Até parece. Vai jogar fora o voto? Duvido. E no fim, comeu tudo. E repetiu. E repetiu, que ninugém escuta o que ele fala, e que na hora que ele gritar, aí, sim, todo mundo vai ouvir. Mas que prá gritar tinha que todo mundo votar nulo. Eu duvido, falei prá ele.
E: Ocupado. Cacete.
F: Falei, ele ouviu. Ele ouve tudo o que eu falo. Daí eu perguntei se não era bolo de chocolate que ele mais queria. Falou que não, que depois dessa eleição do presidente da Associação de ex-alunos da Escola Municipal Teodomiro Gomes, só vai de bolo de milho. Foi o que ele falou. Duvido. Até parece. Porque se for prá escolher, melhor votar direito, é ou não é? Falei prá ele. Ele concordou. Foi. E ainda pediu mais um pedaço.


13 – Gustavo e Hélio no museu frente ao quadro “Demoiselles D´Avignon”.

H: Tá errado.
G: É arte.
H: Mesmo assim.
G: Diz que é.
H: Ou é ou não é.
G: Aí depende.
H: Do quê?
G: De cada um.
H: Negativo.
G. Não entendi.
H: Não cortou?
G: (surpreso, olha H, que aponta para o quadro) É, cortou.
H: Cortou errado.
G: Por quê?
H: (apertando com força a clavícula de I ) Aqui tem osso.
G: Ai!
H: (apertando a jugular de G) Aqui tem sangue.
G: (quase sem respirar) Tem.
H: (sufoca G, que cai morto no chão) Tinha. (olha para o quadro, reprovando-o) Hum.


14 – Repetição da cena 7 em absoluto silêncio, sem os objetos. Agora José está nu.


15 – Todos param, J está no meio do palco e se dirige à platéia apontando para o guarda-sol.

J: Um pedaço de madeira com uma ponta de um lado e um encaixe do outro, mais um outro pedaço de madeira que encaixa lá no outro, uma armação que é como um guarda-chuva mas que é um pano grande, é um guarda-sol que chama, que é de madeira pesada e grossa, o pano é azul meio rasgado, tudo muito velho e enferrujado. A parte que prende não prende direito, não prende, tem que colocar um palito de fósforo, um palito de dentes, tem que colocar uma mordaça ou dar um tiro, a ponta já tá gasta, não tá entrando direito na areia ou na terra, daí quando você abre o guarda-sol crente que vai te proteger do sol, ele acaba muitas vezes caindo e fechando, se duvidar é em cima de você mesmo, o que era prá te proteger acaba que...


16 – Inácio, na delegacia, fala ao telefone

I: (...) Puts, não vai dar...(...) A gente se vê amanhã no churrasco da galera, daí a gente conversa com calma...(...) Amanhã! A festa é amanhã. (...) Não. Agora tô. Não tô..(...) Ah! Agora tô ouvindo, pode falar. (....) Então, diversão, meu irmão.(...) Tudo certo, bebida, comida, isso aí, meu irmão...(...) Ontem, não, a festa é amanhã! (...)  Chefe chegou aqui, vou desligar. A gente fala amanhã (desliga)

17 – Apresentadora de TV lê a notícia:

Pesquisadores russos afirmam ter descoberto a cura da celulite.


18 – Berenice toda esfarrapada tira o ventilador da caixa enquanto o telefone toca. Ela vai ficando cada vez mais nervosa. Larga a caixa, tira o telefone do gancho. Luta mais um tempo, consegue tirá-lo mas quase desmaia. Senta-se e começa a chorar. O ventilador começa a funcionar e a descabela inteira. Então ela começa a rir enquanto o ventilador gira mais rápido.

 

19 – Caem um a um os objetos dos personagens.

 

20 – As 3 cenas abaixo acontecem consecutivamente, em 3 pontos distintos do palco.

Cena 1
E: (olhando para cima, de onde caíram os objetos) Tá errado.
D: É arte.
E: Mesmo assim, não entendi.
D: Por quê?
E: Cortou errado.
D: Por quê?
E: (apertando com força a clavícula de I ) Aqui tem osso.
D: Ai!
E: (apertando a jugular de D) Aqui tem sangue.
D: (quase sem respirar) Tem.
E: (sufoca D, que cai morto no chão) Tinha. (olha para ele, depois para cima) Ok.

Cena 2
F e B sentados em uma mesa, comem bolos sob um ventilador que espalha as migalhas.
F: (apontando para a platéia) Porra, esse pesoal vai ficar aí...
B: ...gemendo a noite inteirinha, sim, senhor...a não ser que...
F: ...a gente páre o que tá fazendo prá ir lá...
B: ...só prá mandar parar... o que...
F: ...não vai adiantar...
B: ...porque eles não vão parar... então...
F: ...a gente vai ser obrigado a ... (tira uma arma da cintura, levanta-se, sai de cena. Ouve-se um tiro e um grito)
B: (sem se alterar) ...a pedir silêncio prá poder conversar...
F volta, senta, guarda a arma.
F: ...ou a dar motivo prá alguém reclamar...

Cena 3
I: (entra mancando, coloca-se no meio do palco) Não adianta, eu não vou parar de gritar, não vou parar de gemer, até vocês me ouvirem, até vocês conseguirem perceber que não estão sozinhos! Vocês vão ter que sair das suas vidinhas, vão ter que olhar prá mim. Eu não vou deixar vocês em paz, não vou, eu...eu.... (cada vez mais baixo) eu insisto, eu existo, eu resisto, eu....eu...(luz vai caindo até B.O.)

FIM