Programa de rádio. Um estúdio medíocre. Madrugada.
Local: um pequeno quadrado. Um CD player danificado. Uma mesa de som torta com fita crepe. Fios enrolados ao pé da mesa. Um banheirinho ao fundo com uma privada. Uma garrafa de coca-cola de 2 litros e meio. Cacos espalhados pelo chão. Um lixo revirado. Fotos de criança na parede.
Personagem A: Xifópagas Punk Rock (voz 1 e 2) / Alice.
Música: I Bleed do Pixies. A locução de Alice entra ao final da música. Alice bebe coca-cola vorazmente.
Alice – (um longo arroto) 1- As Xifópagas Punk Rock estão aqui para foder com a sua cabeça! 2 - O terror da madrugada! 1 - Quer mandar sua mãe tomar no cú?! 2 – Sim? 1 - Liga pra cá! (quebra uma garrafa) 2 – Ai! Ai! 1 – Cala a boca. Não doeu nada! 2 – Minha cabeça ficou mais caída. 1 – Pendura ela pra trás e deixa eu falar, caralho!. Façam a porra desse telefone tocar enquanto eu termino a minha, a nossa cagada! (corre para o banheirinho e dá descarga puxando um microfone até lá. Durante o som a descarga o telefone toca).
TRIIIIIM
A – Fala, filha da puta!
B – Cara, Xifópagas... sou eu, Beto.
A – Ainda não morreu de overdose?
B – To vivão, Xifó. Pior é que quando acordei a Janete tava mais aqui não. Cara, sumiu. Puta merda... to sozinho, Xipa. Sumiu tudo. Tudo. Tudo mesmo. As roupas dela sumiram. As crianças que ficavam naquele quarto do fundo? Sumiu tudo. Os quatro, três, sei lá. Os miúdos. Não sobrou um filho pra me fazer um café. Xipa! Cadê a porra do café!?
A – Beto, ou você toma um vidro completo de remédios na validade pra dormir de vez ou você vai ficar sempre acordando e tendo surpresas desagradáveis. Sacou?
B – Qual é você?
A – Como?
B – A Punk ou a roqueira?
A – A... a punk.
B – Quero falar com a outra cabeça!
A – Vai a merda. Qual é a música, palhaço?
B – Sério. Acho que tenho uma sintonia especial com a outra cabeça. Você só me manda morrer... tô de saco cheio.
A – Ela está desmaiada aqui pendurada no meu pescoço, ou você não ouviu o início do programa? (lendo o roteiro na sua mesa para relembrar) Eu dou uma porrada nela e ela cai!
B – Sacanagem, a gente só ouve você.
A – Vai se foder! Qual é a música?
B – Vou parar de ouvir a bosta dessa rádio.
A – Peraí que ela acordou... aff... 2 – Quem é...?
B – É o Beto, Roqueira!
A – 1 – Viu, você tem um fã... 2 – Oba! Sabia! Eu sou a melhor! 1 – Divirta-se...
B – To sozinho, Roqueira... Não vou agüentar...
A – 2 - Beto, você é um cara maneiro, super underground, super foda-se pra sociedade! Do caralho, Beto! 1 - Corno e desempregado!
B – Me ajuda a trazer a Janete de volta!
A – 2 – Ainda não temos esse serviço. Nós podemos ouvi-lo e você pode pedir a porra da sua música.
B – Ah... Vai Over do Portishead... Manda a Janete voltar pra mim, ok?
A – 2 – (vemos que o celular de A toca – ringtune dos smurfs) Over do Portishead! Janete, volta pra casa!
(música Over)
A – (no celular) Alô! Alô. Ahn... Oi, querido. Não, nada. Não ligaram. Tô atenta. Será que desistiram de mim? Não agüento mais isso aqui... Vou enlouquecer. É um horror... As pessoas ligam querendo algum alento, e as xifópagas simplesmente não têm coração... Você ouviu? Acha que o Beto ficou bem? Isso... eles têm que me ligar! Preciso conseguir esse emprego... Aqui é insuportável... Não fica me dando esperanças falsas, eles podem não ligar... Eu sei. Eu sei. Pensamento positivo. Estou respirando. (respira fundo) Estou serena. Isso,vai dar certo, vou mudar de vida. Vou ter que desligar, meu anjo. Depois te retorno. Beijo. (desliga)
(a música Over acaba)
A – 1 - O terror da madrugada continua apavorando você! 2 – As Xifópagas estão aqui para torturar o seu psicológico! 1 – Você não! (som de vidro quebrando) 2 – Ai! Ai! 1 – Pronto, agora a roqueira pode agonizar até o final do programa enquanto você, ouvinte, liga, vomita os seus problemas sexuais, existências, o caralho e pede a porra de uma música!
TRIIIIIM
A – Fala, Filha da puta!
C – Jesus te ama!
A – Ah... você não... Aqui é a Xifópaga punk pra te sodomizar!
C – Irmã, venho lhe desejar paz espiritual. Que a luz se manifeste nas profundezas...
A – Me poupe, irmã... Não me faça ter que responder...
C – Há salvação para tod...
A – Ai, (com pena da irmã) Vai se foder! Mas antes, qual é a porra da música?!
C – Tenho uma mensagem divina pra você...
A – Pára, sua sádica! Por que faz isso comigo!?
C – Estou me despedindo do mundo material...
A – Não!
C - Minha doença é irreversível, está chegando a minha hora de partir e você é a minha única missão incompleta...
A – Pára! Só me diz a música! Uma música!
C – (murmuna palavras incompreensíveis)
A – O que está acontecendo? Você está aí? Irmã?
C – Estou orando pela sua alma. Me acompanhe...
A – Não me provoque!
C – Deus é poderoso...
A – Merda... Enfia o... Vai tomar... banho? Droga... Sua... Qual é a porra da música!?
C – Segure a mão de deus....
A – Ok. Segure a mão de deus é a música! Vamos ouvir... e... mandar deus tomar no cú! Aí vai, ouvintes do demônio.
(coloca a música. Desliga o telefone.)
Alice está desolada. Toca o celular.
A – Alô! Alô. ... Eu... Oi... Não... mas a irmã quem pediu... atendi, ué, dei azar... mas eu mandei deus tomar no cú. Por um acaso tinha a música aqui, achei que não faria mal... Eu segui o roteiro! Segui sim. Não amoleci nada. É só uma música... Ela vai morrer mesmo... Ok, Ok. Vou abaixar aos poucos. Puxa vida... O que? Mais agressividade? Calma, as Xifópagas vão se retratar... Ok, ok. (desliga)
(Alice abaixa a música religiosa aos poucos)
A – Estamos de volta para botar fogo na madrugada! Adoradores do demônio, sintonizem aqui! As Xifópagas Punk Rock estão esperando! Ignorem esta ultima canção, sim? Afff... (bebe coca-cola rapidamente e arrota) Agora sim! Mexam essas bundas sujas e liguem pra essa merda! U-huuu!
TRIIIMMM
A – Fala, filha da puta!
E – Qual é, Xipógragas?! Tão as duas ae?
A – Ahn... a Roqueira está semi-morta como de costume, fala comigo, anda.
E – Pô, manda um beijo pra Roqueira. Sou tarado por vocês. Mó tesão mesmo nas duas. Puta merda.
A – Quem é você, seu pervertido filho da puta!?
E – Sou o Ed. Escuto vocês direto. Trabalho com guarda noturno, num tem madruga que eu não passe batendo uma punheta aqui na guarita.
A – Legal, Ed... Qual é a porra da música?
E – Primeiro eu queria dizer que tá foda aqui...
A – Afff... Agora é o que, seu imbecil? Vão querer que além de cruel eu ainda seja sexy?
E – Não, não. Nada disso. Vocês são mó tesão, mó tesão mesmo. Puta merda. A parada é outra... é que num tá dando não. Ganho mal pra caralho... e sempre que dá um probleminha aqui, um assalto, um carrinho que levam, vem todo mundo pra cima de mim, me cobrar... Pô, é foda... todo mundo tem necessidades, eu também tenho que ter meu tempinho... é muita pressão... num dá pra ficar ligado a noite toda, saca? Tenho que dar uma relaxada, ouvir vocês... Caralho, sujou! É tiro. Caralho. (ouvimos barulhos. Ed sussura) Aí, Xiprófugas, vou ter que me esconder aqui. O bicho tá pegando, ligo depois...
A – A música!
E – Arrasta no chão. (desliga)
A – Arrasta no chão! (coloca o funk)
(música Arrasta no Chão. O celular. toca.)
A – (diálogo levemente gritado em cima do som do funk) Alô. Alô. Eu! Oi, amor... Nada. Não ligaram. Jura? Eles garantiram? A vaga é minha? Ai, tomara. Bem... mas até agora nada. Até agora nada! Eu disse: até agora na-da! Esquece.... Preciso sair desse lugar horrível!... O Ed? Que bobagem.... Amor, nem conheço! Juro!... Mas, é claro que não. Nunca! Imagina! Nem se eu fosse realmente as xifópagas punk rock. Prometo. Mor, deixa eu ir. Depois... Tá péssima a ligação... Querido... Depois a gente se fala! Beijinho.
A – (simula um barulho de vômito, colocando o dedo na garganta) As Xifópagas estão aterrorizando a madrugada! Vamos ver quem vai ligar pra essa merda.
TRIIIIM
A – Fala, filha da puta.
F – A minha mãe morreu.
A – Ahn... Quem está falando?
F – Fiona.
A – Piralha, esse programa é pra de maior, vai dormir pra ir pra escola amanha, sua.... hm... Feia!
F – Sou de maior.
A – Quantos anos?
F – Dezoito.
A – Aff... O que você quer?
F – Conversar.
A – Comigo?
F – Ou com a roqueira.
A – Ela está desmaiada. Fala comigo que me dá menos trabalho, anda.
F – Tá.
A – Vai ficar muda? É trote, sua... boba!?
F – Não sou boba.
A – Fala, droga... Pede a porra da música!
F – Vou me matar.
A – Que isso, Fiona...
F – Quero gravar o programa para mandar para o meu pai e a minha avó.
A – Mas... Você quer se matar, agora agora...?
F – Já.
A – Não, espera! Por que?
F – A minha existência não faz sentido.
A – A de ninguém faz, você se acostuma.
F – Eu cansei. Falta muito preu morrer de causa natural.
A – Você não pode afirmar isso. De repente você espera mais um pouquinho e é atropelada sem ter que se desgastar tanto, chatear seu pai, sua avó... Eu posso ser processada.
F – Não vou me desgastar. Consegui uma arma. É fácil.
A – Mas... Pensa no que você vai perder.
F – Não há nada de interessante na minha vida.
A – Você pode arranjar um namorado.
F – Odeio sexo.
A – De repente você não achou a pessoa certa, ainda.
F – Três estupros. Perdi a vontade.
A – Sei...
F - ...
A – Fiona, você está aí?
F – Tô. Posso deixar um recado de despedida pra minha família?
A – Preferia que não... Acho que você devia escolher uma musiquinha bem simpática e ir dormir longe dessa arma. Amanhã a gente se fala de novo e você vai me contando como está indo aí...
F – Por que você me trata diferente? Todo mundo me trata diferente.
A – Mas... Eu trato você normalmente.
F – Não me xinga, não fala palavrão...
A – É como eu falava com... Pede uma música porra!
F – Você está frustrando os meus planos. Eu tinha a intenção de me revoltar com alguma coisa nesse programa. Isso não inspira ninguém ao suicídio. É propaganda enganosa.
A – Você vai me ligando para dar umas dicas pro programa ficar mais ao seu gosto e eu vou te dando uma contribuição para o seu plano suicida. Hoje a gente encerra com uma música.
F – Não sou criança. Não caio nessa.
A – A música?
F – É... ‘Candy Says’ do Velvet.
(música. O celular de Alice toca.)
A – Oi... alô... Ah, oi, amor... nada, tudo bem... ligaram? Pra casa? Que bom. Não, estou feliz, claro. Então é certo. Só falta eu combinar com eles tudo. Sei... Mas já começo amanhã? Tem certeza? Não, não... é bom sim. Tá... Então me ligam pro celular hoje mesmo. Confirmaram o número? Sei... Nada, nada não. Me deu sono... Ok. (sem convicção) Êêê... vamos comemorar. Estou aguardando a ligação pra fechar o acordo. Beijinho.
(música acaba. Toca o telefone)
A – (burocrática) Xifópagas punk rock aterrorizando a madrugada.
TRIIIIM
A – Fala, filha da puta!
G – Alicinha!
A – Desconheço. Quem está falando?
G – Sou eu! Geralda. Dos tempos da escola.
A – Somos as Xifópagas punk rock. Você está surtada.
G – Ai, Alice, que bobagem. Não é possível que você não se lembre de mim. A gente catava joaninha no recreio. Lembra? Dividia mirabel! Sua voz é inconfundível, amiga. Fiquei tão orgulhosa de saber que você tá...
A – Geralda, isso não existiu! Não sou a Alice. Você enlouqueceu.
G – Assim você até me ofende... (o celular de Alice começa a tocar) Arranja trabalho na rádio e esquece os amigos...
A – Pede a porra da musica!
G – Puxa vida... nunca fui tão humilhada... logo eu que te dei tanta força...
A – Ok. Esquece o que disse... (no celular) Um momento, por favor. (no telefone da rádio) Geralda, querida, dedica a música pra essa Alice então. O que acha? Ficamos assim.
G – Que metida! Ainda por cima quer que eu dedique uma canção a sua própria pessoa!?
A – Eu não sou Alice! (no celular) Sou sim, só um instantinho. (no telefone) Geralda, esta é pra você. Fica aí! Das Xifópagas punk rock para Geralda. Pronto.
(coloca Elvis “A little less conversation, a little more action”)
A – (no celular) Alô... Alô... Droga. (para si) Geralda, você sempre incoveniente... burríssima. (Alice passa a ligação de Geralda para uma linha fora do ar) Geralda.
G – Alice! (chorando) Tô emocionada... Muito bela essa canção, viu?
A – Bem, então... tenho que trabalhar.
G – Não pense que vou deixar passar. Você me tratou muito mal!
A – É o conceito do programa, Geralda. Você não pode me chamar de Alice aqui.
G – Ahn... é isso? Por que não disse logo?
A – Deixa pra lá.
G – E como você e seu marido estão indo?
A – Tudo ok. Não posso falar muito.
G – Ah, muito triste mesmo vocês terem perdido a sua filha... Imagino que deva ser uma dor, menina! Uma dor horrível!
A – É sim. Então... vou ter que ir...
G – Que desgraça... Se jogou da janela, não foi?
A – Um beijo, Geralda. Não me ligue mais, ok? Lembre que é por causa do conceito do programa, viu? Nada pessoal. Não ligue. Beijos.
G – Beijo, amiga! Sucesso!
(Alice desliga. A Música acaba)
TRIIIIM
A - ...
H – Alô! Xifópagas!?
A – Ahn, Oi... é a Punk.
H – Comé que vão estas cabecinhas, huh? Tô sintonizado todas as madrugas ouvindo vocês! Hilário! Há há há. Du caralho. Só gente perturbada! É foda! Sempre que saio pro motel, só dá vocês na rádio... muito loko.
A – há – há. Fala, filho da puta. Qual é a porra da música?
H – A minha namorada está aqui do meu lado fazendo uma proposta...
A – Diga logo, imbecil.
H – Vamos fazer uma suruba, vocês levam o namorado de vocês e eu levo a minha gata, aí a gente escuta como 2 e 2 são cinco! Hahahahah!
(A coloca a música de Roberto Carlos – 2 e 2 e desliga.)
A – (respira fundo. liga do celular) Alô... Aqui é a Alice, recebi um telefonema deste número. Ah, sim! Certo! Estava aguardando! O trabalho é meu! Maravilha. Sim, sim. Fechado! Começo amanhã! Obrigada, sim!? Tchau- tchau. (Alice desliga e comemora dançando ao longo da segunda metade da música, enquanto arruma as suas coisas, esvazia uma gavetinha, tira as fotos de criança (se demorando um pouco ao olhá-las), limpa a sua mesa de som, fecha o lixo da lixeira etc. Abre um janela e respira fundo.
(a música acaba)
A – Boa madrugada, cidade maravilhosa! As xifópagas punk rock - e porque não, jazz, blues, baladas românticas, hein? - te desejam um lindo dia que está pra nascer.
TRRIIIIIIIIM
A – Olá, flor do campo!
F – Você está estranha...
A – Fiona?
F – É.
A – Como estão as coisas?
F – Chatas.
A – ‘Chatas’ não é tão mal assim.
F – O tédio é um perigo, pior do que tragédia. Insônia. Devia ter usado a arma.
A – Não brinca com essas coisas.
F – Eu sei fazer vários números com ela. De uma mão pra outra, em círculos. Como os cowboys.
A – Quer pedir uma música bem calma pra ver se dorme?
F – Você não acredita que eu realmente tenha uma arma, né?.
A – Só acho tem muita coisa boa na vida pra você descobrir...
F – Mentira. É tudo uma variação do mesmo. Repetições infinitas. Não me interessa.
A – Todo o adolescente tem problemas existenciais. Não é só você.
F – Também não é real. Os que escutam Ivete Sangalo são felizes.
A – Podemos ouvir Ivete também...
F – Não me decepcione.
A – O que quer ouvir? Mallu Magalhães?
F – Você conhece?
A – É... era da minha filha.. tem um mp3 aqui comigo...
F – Pode ser... peraí, xifópagas tem filhos? Como é o parto?
A – aff... um dia eu te conto.
F – Promete? Tenho que saber. Que bizarro! Isso é tipo inédito, né?
A – Se você se mantiver viva, quem sabe te conto em detalhes!
F – Vou tentar.
A – Que música vai querer ouvir?
F – Thubaruba.
A – É pra já!
F – Mas... Xifópaga, sempre tive curios... (barulho de tiro)
A – Fiona!? Fiona? Ai, meu pai... (Alice vai telefonar mas solta a música Thubaruba, o celular toca ao mesmo tempo...) . Alô, uma ambulância urgente! Só tenho o número do telefone... (a música thubaruba fica mais alta)
A – (A atende o celular) Oi, amor. Essa ouvinte... Não foi nada. Morreu, não sei. Barulho da música. Tudo certo para amanhã no emprego novo... de assistência social... (A fica de pé do parapeito da janela. Luz branca estourada na cena. A música thubaruba vai até o final.)